domingo, 12 de outubro de 2014

DOIS MOTIVOS PARA VOTAR NULO NO DF: CRISTÓVAM E ROLLEMBERG



Este segundo turno da eleição de governador do DF é terrível para mim.
Jamais votei nulo. Sempre entendi que as eleições têm um viés histórico e outro conjuntural e alguém será eleito qualquer que seja o meu voto. Esse entendimento foi determinante para jamais ter me arrependido de um voto, tendo sempre claro que a escolha tinha a ver com a circunstância política do momento em que votei, do papel que meu candidato cumpriria se fosse eleito. Procurei sempre ser criterioso na escolha. E todos eles cumpriram o papel que eu esperava naquele momento e naquele conjunto de circunstâncias históricas e políticas.
Observe que isso se repete desde 1966. Não foram poucas eleições.
Claro que alguns deles não foram eleitos. Mantiveram-se, ao menos à época, do mesmo lado e nas mesmas lutas.
Momento de perplexidade
Terrível, agora, chegar a este momento e ter que optar entre as candidaturas de Frejat e Rollemberg para governador do Distrito Federal. Nunca imaginei passar por isso.
Frejat é sabidamente um político de direita, ainda que seus votos na Constituinte tenham rendido avaliação positiva do DIAP com relação aos interesses dos trabalhadores, com nota bem acima da média. É também um homem digno, não se tendo notícia de corrupção no enorme volume de obras do sistema de saúde do DF que executou quando secretário de Saúde no tempo da ditadura, com os recursos facilitados pela enorme injeção de dólares então tomados ao Exterior. Há ainda que se destacar o sistema de saúde que deixou implantado.
Nada a assinalar nas suas voltas à Secretaria. Dadas, no entanto, aquelas circunstâncias, poderia merecer o meu voto, já que não existe opção à esquerda.
Mas, além de sua opção pelo candidato do atraso a presidente da República e do combate hidrófobo à passagens do PT pelo GDF, não seria irresponsável para fazer de conta que não enxergo o restante de seu palanque: Roriz, Arruda, Luiz Estêvão, Gim, Fraga, além de grande quantidade de elementos perniciosos de menor expressão.
A direita ou a nulidade que a ela se junta?
Do outro lado, Rollemberg. O que dizer sobre ele? Nada. Simplesmente nada! Por mais cosmético que lhe cubra  e ensaios a que tenha sido submetido, nada além de um saco vazio.
Deputado distrital inexpressivo, arrastado da suplência para a Câmara Legislativa pelo PT, com os espaços abertos pela convocação de Wasny de Roure para Secretário. E aproveitado como Secretário no governo em que Cristóvam foi eleito pelo PT. É claro que se elegeria em 1998, mas não há o que recordar desse mandato.
Com Lula presidente e o PSB na base de apoio, foi aproveitado na equipe do Ministério da Ciência e Tecnologia, mas também nada há de realização a relembrar. A coligação permitiu que chegasse a deputado federal em 2006, mas também não há resultado significativo.
De toda essa trajetória, lembra-se a sua insistência em uma tese inconstitucional: a de eleição de administradores regionais. Ideia vazia. O gestor sem espaço territorial claro, pois este pode ser redefinido a qualquer momento pela Câmara Legislativa, que também estabeleceria o orçamento por proposta do governador. Já pensaram em um governador adversário político do administrador? Além disso, não haveria poder fiscalizador no nível equivalente. A Câmara Legislativa seria o órgão fiscalizador de dezenas de administrações regionais! Proposta tão inviável que não conseguiu sequer vê-la em uma discussão séria em seus dois mandatos federais. Evitou até discuti-la nesta campanha para não se expor ao ridículo. Vai insistir em implantá-la caso se eleja?
Em 2010, quando havia duas vagas para o Senado, os articuladores da campanha do PT resolveram oferecer as duas a partidos coligados. Contra imensas resistências internas, vale lembrar. Foram lançados Rollemberg (PSB) e Cristóvam (PDT), que os petistas já conheciam tão bem. Rollemberg jamais demonstrara simpatia pelo PT e Cristóvam foi eleito pelo Partido oito anos antes, abandonando-o pouco depois e se juntando às bancadas conservadoras do Senado para dar combate ao governo Lula. Mesmo assim, ambos foram eleitos, com o peso da militância petista. Ninguém esquece o discurso de Cristóvam, logo após a eleição, reconhecendo que fora essa militância a responsável por sua eleição.
Com relação a Cristóvam, duas coisas não se espere jamais: coerência e gratidão. A respeito, leia:
Os dois se fizeram senadores com os meus votos. Eu já tinha claro que teria em Cristóvam um provável adversário, como de fato ocorreu. Sabia que o mandato de Rollemberg nada representaria para Brasília e o Brasil, mas fui convencido a votar nele pelo PT, imaginando-se que isso ajudaria na eleição de Agnelo para o GDF. Não me lembro de ver os dois pedindo votos para Agnelo, salvo manifestações protocolares.
Como executivo (secretário de Turismo) a única “realização” de Rollemberg está lá para ser lamentada. Mal planejada, sem que interessasse a ninguém e inacabada: o Projeto Orla. Do jeito que a deixou e sem justificar investimento, pois quase ninguém vai lá, a não ser raríssimos pescadores e eventuais casais de namorados e rodinhas de fumo que pretendem ficar longe de olhares indiscretos.
Uma disputa sem alternativas
Enfim, de um lado um candidato com perfil de empreendedor, cercado de uma gangue da qual Brasília conseguiu se ver livre há quatro anos quando até a sua autonomia já estava posta em questão, tão evidente foi a criminalização do mandato de José Roberto Arruda. Pouco tempo depois, por sinal, de Joaquim Roriz renunciar ao mandato de senador para evitar a sua cassação, no que repetiu gesto do próprio Arruda anos antes. Devidamente acompanhados de Luiz Estêvão, que não teve a oportunidade de renunciar e foi efetivamente cassado, justamente pelos fatos que o levaram agora à prisão.
Do outro, um político sem passado de realizações, seja como executivo ou como legislador. A versão perfeita e acaba do que se pode chamar de Nullemberg.
Em comum entre ambos a clara opção pela direita, em Frejat como confirmação de sua história política; em Nullemberg, como a revelação do que estava escondido no seu perfil pela duradoura companhia do PT. Opção que se tem claro, nos dois casos, por não terem projeto mais caro que a destruição do Partido dos Trabalhadores.
A força do PT
Pois é justamente o que lhes faz odiar tanto o PT que dá substância à decisão de votar nulo.
Dado o momento vivido pelo Brasil e o perfil manifesto dos dois candidatos, pode o PT oferecer aos brasilienses a oportunidade de experimentarem uma das alternativas escolhidas e compará-las com o que foi o governo Agnelo.
Ao eleito restará dar continuidade aos programas do governo liderado por Agnelo e pelo PT e, assim, ser obrigado a reconhecer a injustiça do seu discurso durante a campanha. Ou interromper esses programas e enfrentar a revolta da população, evidenciando do que ela abriu mão ao impedir a continuidade do governo de mudanças no Distrito Federal.
O PT, lamentamos dizer aos dois e aos seus parceiros, continuará a sua caminhada. Desonerado do peso indigesto de administrar a máquina pública, tendo a alvissareira oportunidade de depurar o seu quadro de filiados e, com a graça de Deus, tendo para exibir mais uma bem sucedida administração popular de Dilma Rousseff na Presidência da República.
E, claro, nenhum deles se esqueça que o PT cresce na oposição, inclusive com as suas bases sociais, até por ser este o papel que a sociedade aprendeu historicamente a aplaudir.
Fernando Tolentino

4 comentários:

  1. Pois é. Como já disse e escrevi por aí sempre que tive de votar em Cristóvam e Rollemberg o fiz contrariado. Agora, sinto-me descompromissado.

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    1. Em 2010, foi só disciplina. Ninguém acreditava nos dois.

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  2. Nestas eleições está acontecendo algo parecido com a Reação Termidoriana - o golpe de Estado armado pela alta burguesia, na época da Revolução Francesa, que marcou o fim da participação popular no movimento revolucionário.

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