terça-feira, 4 de novembro de 2014

"SE É PRA MIM, SOU A FAVOR"



Cresci em um tempo em que os liberais confrontavam a esquerda alegando que o ideal não seria que a sociedade desse a todos a mesma condição de vida, mas igualdade de oportunidades.
Não sendo um liberal, até que achava uma máxima interessante.
Pois bem.  Nasci em uma família de classe média baiana. Se não absolutamente branca (seria pedir muito em Salvador), mas tida como tal. Até porque meu pai se casara com uma catarinense, a minha mãe. Ao galgar a condição de pequeno comerciante, meu avô impôs-se a meta de formar os filhos. De modo que meu pai, bacharel em Direito, tornou-se promotor público e professor universitário. Minha mãe, enfermeira, graduou-se também em Nutrição e foi imediatamente aproveitada como professora desse curso. Adiante, faria um pós-graduação no México e se aposentaria como diretora da Escola.
Éramos de classe média. Se ter filhos com formação superior já era um sonho para meu avô, imagine para os meus pais, ambos professores da Universidade Federal da Bahia.
Consegui passar no exame de admissão para o Colégio de Aplicação. Equivalia mais ou menos ao quinto ano do primeiro grau, de modo que ali faria mais quatro de curso ginasial e o segundo grau. Colégio público, vinculado à Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, era seguramente um dos três melhores de Salvador. Tão bom que, sendo público, eu era de família situada na média de renda dos estudantes, talvez um pouco abaixo disso. As vagas eram disputadas por crianças e adolescentes vindos de classes abastadas. De modo que não precisei de preparação para o vestibular. Pra falar a verdade, ainda tentei um reforço em matemática, já que vinha de curso clássico, onde a disciplina era restrita ao primeiro ano e com nível de exigência inferior. Para completar o valor do cursinho, acrescentei inglês.
Uma sala comprida, em que os vestibulandos se espremiam, mal tendo como escutar o professor. Eu chegava atrasado e, claro, só conseguia lugar no fundão. Ao meu lado, um rapaz gritava; “Pode repetir, professor”. De longe, repetia o que representava no quadro negro: "Ângulo alfa e ângulo beta”. Lá do fundo, mais um reclamava: “Não deu pra escutar”. Já irritado, mas preocupado em repassar toda a disciplina, vem a resposta: "Alfa e beta; estou falando grego?" Levantei-me e saí. Concluí que, com sorte, até podia aprender matemática, mas desaprenderia o resto. E larguei as duas disciplinas. A aprovação no vestibular de Administração, na mesma Universidade Federal da Bahia, foi garantida pelo básico do Colégio de Aplicação. Em uma das primeiras colocações, vale lembrar, como se esperava de seus ex-alunos.
Passados quatro anos, terminei o curso e logo fui aproveitado como profissional. Era um dos primeiros cursos de Administração do Brasil, de modo que não havia problema de colocação no mercado. Mais quatro anos e fui convidado para trabalhar no MEC, em Brasília.
Foi nessa época que decidi cursar Jornalismo. Não me sentia acomodado trabalhando no governo em pleno período da ditadura. Não precisei um novo vestibular para ingressar no curso, pois já tinha uma graduação.
A longa remissão biográfica serve apenas para conduzir à reflexão: onde está a tal “igualdade de oportunidades”?
Não estou renunciando aos meus méritos pessoais. Mas, tenho que reconhecer, as condições me foram amplamente favoráveis.
De classe média e filho de profissionais de nível superior, ambos depois professores universitários, já nasci em situação que me dava boas condições comparativas, além de me encaminhar para uma formação acima do conjunto da sociedade. 
É importante, aqui, lembrar um esforço localizado, em Salvador, para reparar essa desvantagem dos filhos de classes econômicos inferiores.
Testemunhei a implantação de preparativos para que 30 ou 40 crianças comprovadamente pobres tivessem melhor condição para concorrer no exame de admissão do nosso Colégio. Foi uma iniciativa da notável professora Maria Angélica Matos, então diretora. Metade da turma foi aprovada e foi acompanhada durante a 1ª. Série, saindo-se muito bem.
Angélica, com quem tenho a felicidade de manter relação pessoal ainda hoje, explica que “o objetivo era mostrar que o pobre tem vez se lhe derem oportunidade.” Modesta, faz um reparo à qualificação de notável. “Basta ter sensibilidade e formação política”, avalia. E conclui: “Hoje, sinto-me feliz ao ver a realização de um sonho ‘muito sonhado’ na década de 1960.”
A verdade é que o exame de admissão foi a minha primeira confirmação do diferencial de classe. O detalhe é que, a partir daí, meu desenvolvimento futuro estava mais ou menos assegurado e o custo desse desenvolvimento seria integralmente bancado pela sociedade: cursos ginasial e colegial, assim como o superior, em instituições gratuitas, da Universidade Federal da Bahia.
Certa vez, um amigo lembrou um fato ocorrido quando voltou à casa dos pais, que viviam em um bairro popular, após graduar-se em Administração e passar alguns anos fora da Bahia. Ao entrar em um bar próximo para comprar refrigerantes, foi cumprimentado por amigos de infância, os mesmos que não tomavam conhecimento de que fosse o dono da bola e escalavam o time, deixando-o sentado no meio-fio para entrar quando alguém cansasse ou, quando muito, determinando que ficasse no gol. Esses mesmos amigos dirigiram-se a ele com reverência, chamando-o de “Doutor” e não pelo apelido ou, ao menos, o nome. Já haviam "aprendido" a estabelecer uma nítida sujeição social.
Importa, agora, é esta reflexão. Enquanto eu me tornava o que sou hoje, um profissional com dupla graduação superior e três cursos de especialização, a sociedade investia em mim. E a sociedade não é uma coisa abstrata. A sociedade é aquela turma que trabalha e produz, quase sempre com salários escassos e muitas vezes não recebendo suficiente compensação do Estado.
Ainda na universidade e já com modesta remuneração de estagiários, reuníamos anualmente os colegas para preenchermos os complicadíssimos formulários de Declaração de Rendimentos. Participou conosco o marido de uma professora que queria uma ajuda. Tinha alguma terras, praticamente improdutivas, já que não tinha capital suficiente para explorá-las. Mas era agrônomo do Estado. Ao final, foi o único sem nada pra pagar. Era beneficiado pela chamada Cédula G, utilizada pelos proprietários rurais. Ali, o imposto sumia.
Trabalhei como auxiliar de contabilidade durante o tempo de faculdade, prestando serviço para várias empresas. Fiquei impressionado porque eram todas absorvidas como sendo da empresa as despesas pessoais dos sócios: aquisição e manutenção dos carros da família, custeio de viagens, despesas de saúde e por aí vai. Os filhos não recebiam mesadas, mas eram registrados na folha de pagamento. A retirada era próxima do salário mínimo. Resultado, nada de imposto de renda para os sócios e imposto muito menor para as empresas.
Impossível não comparar com a nossa situação do tempo de estagiários!
O que me pergunto hoje é que direito eu tenho de negar o mínimo de compensação aos filhos de muitos que produziram para eu chegar à minha atual condição pelas condições desvantajosas que lhes foram oferecidas para ascender na vida .
Pois são políticas voltadas para atingir esses resultados que são combatidas atualmente pelos neoliberais, filhos e netos de muitos daqueles que, outrora, enfrentavam a esquerda com o discurso da igualdade de oportunidades.
São esses os que, raivosos, não aceitam um resultado eleitoral que vai representar a confirmação e aprofundamento desses programas de compensação social.
Fernando Tolentino

sábado, 25 de outubro de 2014

ESTÃO SE QUEIXANDO DE QUÊ?



Alguém aí sabe de alguém, entre as pessoas abastadas do País, que possa se queixar das suas atuais condições de vida?
Bastou o candidato Aécio Neves fechar o debate na TV Globo com a afirmativa de que o País está quebrado e a primeira chamada do Jornal Nacional dava conta de que as compras de brasileiros em viagem ao Exterior haviam batido novo recorde mensal, com R$ 2,38 bilhões de reais. Não é notícia pra alegrar a nossa indústria, que perde um volume considerável de vendas, mas revela o poder de compra de quem fez viagens internacionais. Esses compradores não são somente (e talvez nem principalmente) as pessoas mais ricas do País, até porque também as passagens para fora do Brasil estão cada vez mais ao alcance das camadas médias da população. Mas seguramente não foram os beneficiários da Bolsa Família.
Certo é que, ao contrário do que transparece em qualquer comentário de economia dos grandes veículos de comunicação, as notícias podem ser consideradas boas para todas as classes sociais.
Podiam ser melhores? Claro. Se são boas em um fase de crise global que se estende desde 2008, imagine se vivêssemos uma realidade diferente. Imagine se a economia mundial reagir favoravelmente em um novo governo de Dilma. Ou seja, um novo governo com os mesmos compromissos do primeiro e dos dois governos de Lula.
Com relação à massa salarial, não há o que questionar. A Organização Mundial do Trabalho mostra que os salários no mundo cresceram 1,3% em 2009, menos da metade dos 3,1% dos brasileiros do mesmo período. Enquanto que em 2011, o Brasil teve 2,7% de crescimento salarial contra 1,2% da média mundial.
Seriam os muito ricos que estariam pagando essa conta? Os dados mostram que os quatro maiores bancos brasileiros, somaram um lucro em 2013 de cerca de US$ 20,5 bilhões. Isso é mais que o Produto Interno Bruto (PIB) estimado de 83 países no mesmo ano, segundo levantamento com dados do FMI. Inclui-se nesse grupo o Banco do Brasil, que registrou lucro líquido de R$ 15,75 bilhões. Mas o lucro do Itaú Unibanco vem logo atrás: R$ 15,6 bilhões. O maior da história de todos os bancos brasileiros de capital aberto, segundo a Economatica. O recorde anterior, também do Itaú, era de 2011. O lucro do Bradesco no mesmo ano não ficou muito longe, alcançando R$ 12 bilhões. O quarto maior lucro foi o do Santander, de R$ 5,7 bilhões.
O setor agrícola também tem apresentado resultados positivos, apesar da crise mundial. A safra de grãos de 2013 foi recorde, com 188,2 milhões de toneladas, 16,2% acima da de 2012, que chegou a 189,5 milhões de toneladas. O único produto a revelar queda de safra foi o café arábica, por conta redução de área plantada, em virtude de queda de preços no mercado internacional.
Justificam-se então as queixas de empresários menores? Não faz sentido. É verdade que Fernando Henrique enfrentou duas crises durante o seu governo: a da Coréia e a da Rússia. Crises localizadas Nada parecido com a que pegou em cheio parte do segundo governo de Lula e a integralidade do primeiro governo de Dilma, uma crise em que mergulharam os Estados Unidos e praticamente todos os países da Europa Ocidental. Ainda assim, o número de falências durante o governo de Dilma foi de apenas 3,74% com relação ao segundo governo de Fernando Henrique e de 7,58% se comparado com o primeiro período.
O que explica a grita dos setores de alta classe média e dos brasileiros mais ricos?
A GALINHA MAIS GORDA É A DO VIZINHO
É mais ou menos o que ocorre com alguns trabalhadores que se sentem injustiçados pela política de valorização do salário mínimo.
Em sua campanha de 2002, o então candidato Lula prometia um salário mínimo em valor equivalente a 100 dólares. Seu valor oscilava em torno de 64 dólares e os adversários alegavam que a valorização quebraria as prefeituras e a Previdência Social, não seria suportada pelos empregados e que, por isso, causaria enorme desemprego.
Pois o valor atual (R$ 724,00) equivale a 294,7 dólares. E, mesmo com uma crise mundial que já perdura há cinco anos, a taxa de desemprego do Brasil está sistematicamente entre as menores da história do País, além de ser uma das menores do mundo.
Mas, como o crescimento em valor real do salário mínimo está acima de boa parte dos demais salários, não são poucos os que se queixam, mesmo vendo seus salários, na maior parte dos casos, sendo também reajustados em índices acima da inflação.
O trabalhador calcula e fica contrariado ao ver que, por exemplo, ganhava 5 salários mínimos há 10 anos e hoje percebe o equivalente a 3,5 salários mínimos. Como se a piscina enchesse e ele imaginasse que estava sendo puxado para baixo e não que a água estivesse subindo.
As classes mais abastadas, ainda quando não reconhecendo publicamente, sentem-se inconformadas pelas conquistas dos mais humildes e não pelo que perderam.
- Eu quero que você hoje fique olhando as crianças à noite, Maria, porque vou jantar com uns amigos.
É inadmissível ouvir como resposta:
- Não vai ser possível, dona Odete, pois tenho aula na faculdade.
Imagine se for um diálogo mais extremado, quando da contratação, por exemplo, a patroa já antecipando que precisará dessa extensão de expediente de vez em quando e ouvindo da candidata a emprego que não pode trabalhar à noite por causa do seu curso. E se disser que considera a noite um horário de descanso. Para muita gente, soaria quase como um acinte se a empregada aceitasse, com a condição de receber hora-extra.
Aí está o cerne da revolta da Bolsa Família, do seguro desemprego, da disponibilidade de empregos em todos os níveis de classe. O trabalhador ganham condição de rejeitar o que lhe parece indigno. A isso aquela gente acusa de preferir viver a vida na preguiça por causa do benefício.
Pessoas de alta classe média não se conformam também com a conquista, pelos trabalhadores de renda inferior, do que antes só era acessível a pessoas de seu nível social. Como o acesso a determinados serviços ou bens de consumo: celulares sofisticados, assinatura de TV a cabo, carro (às vezes zero km), roupas de marca, viagens de avião, cosméticos de qualidade, correção da arcada dentária. Aquela sensação de que “meu mundo está sendo invadido” ou “meu mundo não é mais só meu”...
Pior do que isso é quando surge a possibilidade real da disputa de privilégios, como se dá com a política de cotas. Pode representar a perda de vagas que outrora seriam reservadas para os seus filhos. Não adianta lembrar que foram criadas 18 novas universidades, com milhões de novas vagas no ensino superior. Fica sempre a sensação de perda. “Mas seriam mais vagas para nossos filhos”. Também não ajuda mostrar que o mercado de trabalho também cresceu, com muito mais oportunidades de emprego, 234.988 vagas em concursos públicos contra somente 51.613 no período de Fernando Henrique. A ideia de perda relativa não escapa.
É como lastimar a aplicação de R$ 2,1 bilhões no Bolsa Família, com todos os resultados que se conhece. Para esse extrato de classe, importa que esses resultados não são apropriados por eles. Redução da mortalidade infantil, da extrema miséria, da pobreza, da fome. Nada disso afligia a eles.
O ÓDIO AO MAIS MÉDICOS
Para uma parte não desprezível da alta classe média, é semelhante o motivo da rejeição ao programa Mais Médicos. Enfim, as 50 milhões de pessoas agora atendidas são uma gente muito distante dela.
A causa da revolta das entidades de classe dos médicos vai muito além disso. Estão unidos nisso a setores poderosos, como a indústria de medicamentos e as empresas de diagnósticos. Unidos até às redes de hospitais privados e aos planos de saúde, aí constituindo uma séria contradição com o argumento tão insistentemente repetido por suas entidades representativas, quando questionam o que chamam de trabalho escravo dos médicos cubanos. Tanto os hospitais como os planos de saúde ganhando uma enorme mais valia sobre o trabalho deles, do que por sinal queixam-se em momentos distintos.
Por que os médicos aderiram quase em ordem unida às determinações de suas entidades de classe, constituindo-se no grupo que mais ódio devota ao PT, ao governo de Dilma e sua candidatura à reeleição.
Os médicos brasileiros não são formados para prestar assistência em saúde, mas para a solução dos problemas de que se queixam os pacientes. Ou seja, para tratar suas doenças. E são preparados para fazê-lo valendo-se de sofisticados recursos diagnósticos. Preparam-se muito para isso, tendo como pressuposto a especialização, ou seja, praticar uma medicina de alta complexidade.
São ideologicamente condicionados a se verem como profissionais liberais, o que significa não terem empregadores. Há muito tempo rendem-se à acumulação dessa condição liberal com pelo menos um cargo público tão só para garantirem a aposentadoria, férias remuneradas e algum rendimento quando de afastamentos por doença ou para a participação em cursos e congressos.
Não é fácil a vida desses trabalhadores, até por se imporem uma recompensa muito rápida para o longo tempo de formação que essa realidade profissional lhes exige. Para se permitirem o exercício liberal, cumprem suas obrigações com o emprego público (às vezes mais de um) em regime de plantões: 12 horas em um, 20 horas em outro, outras tantas em instituições privadas. Somam vínculos privados para conquistarem rapidamente reconhecimento pelo mercado. Emendam assim dias seguidos da semana sem sequer irem em casa, tudo para amealharem o que entendem como uma remuneração compensadora.
A hipótese que não concebem é de se tornarem trabalhadores assalariados, como são praticamente todos os demais. Por isso, rejeitaram uma bolsa de R$ 10 mil, por dois anos, no Mais Médicos, ainda que no início da carreira, o que seria um sonho para qualquer outro profissional de nível superior. E por isso revoltaram-se a ver outros médicos aceitarem e, assim, constituírem um “perigoso precedente” no mercado. Odiaram os cubanos, como odiariam quaisquer outros médicos que aceitassem aquelas condições e, dessa forma, abrissem as portas para a universalização do sistema de profissionalização por assalariamento. O PT e Dilma são vistos como os arautos desse novo regime. Daí merecerem o mais alucinante ódio.
UMA OPÇÃO SEM VOLTA
De concreto, a eleição entre Dilma e Aécio promove uma divisão inconciliável na sociedade brasileira. De um lado, está quem entende que os frutos do esforço coletivo dos brasileiros deve beneficiar toda a sociedade. Os dois governos de Lula e o primeiro de Dilma ensinaram a milhões de brasileiros que isso é possível e que podem reivindicar esse direito aqueles que estiveram à margem disso por inúmeras gerações. É o que se chama de inclusão social. Eles aprenderam isso e querem consolidar e aprofundar tais conquistas.
Para milhões, isso significou o direito à água, à luz, à energia, à frequência dos filhos à escola, o acesso à alimentação, o direito a consultar-se com um médico. Como significou também a possibilidade de, ainda que com salários limitados, adquirir e pagar uma casa própria. Para uma imensidão de jovens representou a possibilidade de ingressar em um curso superior e, depois, eventualmente alcançar uma pós-graduação. Outros milhares passaram a especializar-se para o mercado de trabalho e a ele tiveram acesso, como empregados ou em pequenos empreendimentos. Outras centenas de milhares viram abrir-se as portas de empregos púbicos por meio de concursos. A esses milhões de brasileiros, juntam-se os petistas e os que, sem qualquer opção partidária definida, comungam com esse entendimento, mesmo que já tivessem a oportunidade de desfrutarem de tais direitos. Em outras palavras, os que não votam exclusivamente para se beneficiarem diretamente, mas para verem universalizados os direitos à vida com um mínimo de conforto e felicidade.
De outro lado, a candidatura de Aécio representa o inconformismo com essa nova equação social. Representa os que não se conformam em ver mais que os 30 milhões de sempre com acesso aos frutos da produção nacional. É claro que esse não é o discurso, pois isso significaria o suicídio como proposta eleitoral. Daí, surgem argumentos como eficiência, competência, combate à corrupção, nenhum firmemente assentado em fatos reais, até porque a realidade os desmente, na medida em que os índices e as realizações do governo mostram sobejamente que isso não falta. Inclusive o combate efetivo à corrupção, que aparece justamente por estar sendo combatida. Como um cupinzeiro, que parece não ter cupim até o momento em que é mexido e, quando isso ocorre, faz aflorar uma multidão de cupins de existência nunca suspeitada. Para mascarar o compromisso com a volta da exclusão social, agrega-se até a mentira de que a inclusão seria preservada. Por trás, uma tradição de combate a todos os programas de inclusão e o apoio eleitoral confesso de todos os segmentos da sociedade que não a aceitam e sempre aplaudiram esse combate. Essa é a disputa.
Esses segmentos sociais demonstram força especial nesta eleição. Dispondo da hegemonia dos grandes meios de comunicação, empreenderam uma guerra que, se repete as últimas disputas eleitorais entre os projetos da inclusão e da exclusão sociais, jamais chegou a esse cúmulo de radicalização. E engana-se quem supõe que não obtiveram vitórias. Segundo o Departamento Intersindical de Assessoramento Parlamentar – DIAP, foi eleita a composição mais conservadora do Congresso Nacional desde 1964. Conseguiu-se manter o controle sobre estados ricos e estratégicos, como São Paulo e Paraná, além do que outros podem vir a ser assegurados no segundo turno. Criou-se um racha insuperável entre partidos tradicionalmente parceiros, como PT e PSB e, com isso, conseguiu-se levar o candidato desse grupo a uma situação de polaridade que lhe dá chances efetivas de disputar o poder. Por último, usando de instrumentos abomináveis, como a divulgação de denúncias gravíssimas sem qualquer comprovação, cria-se praticamente um cisma na sociedade, alimentando-se um ânimo que até pode favorecer manobras golpistas.
Pois ninguém se engane: quem hoje apresenta uma candidatura para obstar a inclusão das demais classes sociais ainda é capaz de acusar o lado contrário de estimular a luta de classes.
Fernando Tolentino

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

QUEM MESMO DILMA VÊ DIANTE DE SI?



É possível imaginar situação de maior degradação do que a relação entre torturador e torturado?
Se quiserem passar ao largo da realidade política brasileira dos anos recentes, busque o caso de tortura mais repetidamente narrado da história da humanidade: a paixão de Cristo.
Lembrem da caminhada com a cruz ao ombro e os pés descalços, das chibatadas, da perfuração de pés e mãos durante a crucificação, de fazer o corpo se sustentar nos cravos, da lancetada no peito. Imagine o sangramento da pele a se colar no manto que o cobria. Não lhe foi apenas imposto o sofrimento físico. Foi coberto com um manto por ter sido antes desnudado. Foi ridicularizado, sendo-lhe colocada uma coroa de espinhos para provocar o riso da multidão. Foi-lhe dado fel quando disse ter sede e foi pregada na cruz a inscrição injuriosa de rei dos judeus. Assim teria sido o último dia de Jesus.
Passados cerca de dois mil anos, dá pra imaginar a que extremos de sofisticação chegou a tortura. Relatos nos chegam de todo o mundo, mais marcantes e profusamente lembrados os perpetrados pelo regime nazista contra os seus opositores, os comunistas ou judeus, ciganos, poloneses e todos os que tenham caído em desgraça.
Não foi diferente durante a ditadura do Brasil, especialmente na primeira metade dos anos 70.
Sei o quanto foi duro tomar conhecimento do que sofreram amigos, companheiros de luta, conhecidos ou quaisquer outras vítimas desse processo. É ainda hoje quase insuportável ouvir ou ver depoimentos de quem passou por isso. Para que não pareça um sentimento diante do padecimento de amigos, sofri recentemente a dor de alguém socialmente muito distante de mim e por quem não tenho qualquer afetividade, a jornalista Mirian Leitão. Ao ler seu relato, doeu-me a aflição de um ser humano.
Ao contrário do que consta na narrativa cristã, a tortura aplicada a militantes políticos no Brasil tinha teoricamente o objetivo de obtenção de informações. Por isso, ainda mais sofisticada. Torturadores eram treinados, inclusive com apoio externo. Belo Horizonte chegou a ter um logradouro batizado como Rua Dan Mitrioni, uma demonstração de gratidão a um “especialista” trazido dos Estados Unidos para aperfeiçoar os métodos de tortura.
É importante entender o comportamento do corpo após algum tempo de pau de arara, que é uma invenção nacional. O mínimo que se pode dizer é que a dormência toma conta dos membros, o sangue se concentra na cabeça e já não se consegue fechar a boca. Pense na cadeira de dragão, energizada para provocar choque elétrico em diferentes partes do corpo, imagine o afogamento, às vezes por mergulho, em outras com um pano embebido em água. Ou a variante com um saco plástico fechado envolvendo a cabeça. Ou a asfixia, como morreu Stuart Angel, obrigado a respirar a descarga de um jipe. Surras, quebras de dedos e membros, extração de unhas, submissão à fome e à sede.
Ao lado disso tudo, a tortura psicológica, somada à física. Como teria sido feito com Jesus, a primeira providência era o desnudamento do preso. Isolamento, inclusive com a perda de acesso à luz, de modo a que o preso não tivesse mais noção de tempo.
O MACHISMO COMO INSTRUMENTO DE TORTURA
Nos casos de prisioneiras, a violência era sempre acompanhada de exacerbação da humilhação, inclusive com apelo ao sexo forçado ou a demonstração de que isso poderia ocorrer a qualquer momento. Uma forma de demonstrar que, ali, além do poder irrecorrível da força brutal da repressão, havia a submissão antropológica da mulher pelo homem. Quanto mais isso angustiasse a vítima, melhor. A raiva acumulada pela circunstância levaria a prisioneira mais facilmente ao desespero, ao mais absoluto desequilíbrio emocional.
Por isso a prisão simultânea de parentes ou entes queridos e sevícias de um diante do outro, até a introdução de objetos nos corpos. Enfim, a busca do aniquilamento de toda resistência física ou moral.
É indispensável chamar a atenção para o fato de que se pretendia obter informações, sendo óbvio para o prisioneiro que, caso se fragilizasse, poderia causar a morte de companheiros ou pelo menos levá-los a viver o mesmo vexame. A tortura psicológica ocorria com a utilização dos interrogadores com papeis diferenciados. Ao lado de um extremamente violento, havia o que simulava solidariedade, buscava angariar a confiança do interrogado, prometia alívio.
Posso assegurar que toda essa rememoração do que li e ouvi é pouco diante do que realmente ocorreu nos presídios em que eram jogados os presos políticos. Não conheço ninguém que saísse íntegro, sem precisar recorrer a tratamentos psiquiátricos, a cuidados médicos especiais. Muitos jamais se recuperaram, como Luís Medeiros, jovem estudante de engenharia pernambucano, preso por jagunços e entregue à polícia após horas de espancamento, pendurado de cabeça pra baixo. Na Rua da Aurora (Recife), para onde foi removido, diariamente torturado, acabou não resistindo à tentação de saltar por uma janela aberta. Paraplégico, terminou seus dias em Brasília. A Dra. Abigail Feitosa, ginecologista, de tradicional família nordestina, aderiu à resistência à ditadura, sensibilizada pelas sequelas que viu e tratou a pedido de seu marido, Ribamar, militante de esquerda. Posteriormente, viria a se tornar deputada federal, com importante presença na bancada que lutou para superar a ditadura. 
OS PERFIS DOS DOIS FINALISTAS
Para que remexer em tudo isso, lembrar um passado tão revoltante, hoje felizmente superado?
É impossível deixar de identificar os protagonistas deste segundo turno, ambos originários de Minas Gerais, sem levá-los àquele terrível período da história recente do Brasil.
De um lado, Dilma Rousseff, uma ex-militante de esquerda, prisioneira por três anos, barbaramente torturada. Conseguiu reconstruir sua vida no Rio Grande do Sul, lá se graduou, aperfeiçoou a sua formação e, com ela, voltou à política, ascendendo em funções técnicas no aparelho de Estado, até se eleger presidente da República.
O adversário prefere ser lembrado como neto de Tancredo Neves. Seria injusto deixar de trazer à luz sua trajetória, para que ninguém o tenha como um lutador da resistência democrática, ainda que de figurino conservador, como o de Ulysses Guimarães.
Tancredo integrou o antigo PSD, foi ministro duas vezes durante o governo democrático de Getúlio Vargas, teve papel decisivo na crise de 1961, quando uma tentativa de golpe militar pretendeu impedir a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Foi um dos articuladores da saída parlamentarista e acabou se tornando o primeiro ministro até 1962. Durante a ditadura, foi deputado pelo MDB, sempre ligado à ala mais conservadora. Tentou ocupar o terreno da conciliação com o regime quando da imposição de criação de novos partidos. Criou o PP, mas os militares não aceitaram sequer correr o risco de deferir um espaço ao seu partido, forçando-o à incorporação pelo PMDB. Frustrada a emenda com que se pretendia reinstaurar eleições diretas para a Presidência, Tancredo colocou-se como alternativa para a disputa no colégio eleitoral, derrotando o candidato Paulo Maluf. Não chegou a governar, vítima de doença que impediria a sua posse. Com esse episódio, Tancredo passou para a história como um dos principais artífices da redemocratização.
Aécio Neves, convenientemente, destaca essa descendência, colocando em segundo plano a figura do pai, o deputado Aécio Cunha, integrante destacado do partido que representava a ditadura no Parlamento, a ARENA. Quando Dilma amargava a prisão política, ele ocupava um cargo no gabinete do pai. O gabinete era em Brasília e o pai da bancada de Minas Gerais, mas Aécio vivia e estudava no Rio de Janeiro.
Aécio nasceu e se criou em um ambiente em que se respirava política nos dois ramos da família, o pai nas entranhas da ARENA e o avô como importante membro do PMDB, prestigiado por interlocução constante com expoentes do regime. Debruçado nessa destacada janela, podia observar com atenção o que se passava nas hostes governistas e testemunhar a perseguição aos adversários.
O privilégio dessa posição no cenário político foi ingrediente fundamental para a sua carreira: deputado, governador, senador, candidato a presidente. É toda essa carga de experiência que coloca em jogo na disputa.
AS ARMAS DE CADA UM
Especialmente no segundo turno, algo me impressiona ao ver Dilma e Aécio encarando-se nos debates. Quatro anos após eleger-se para o primeiro mandato, percebo Dilma com muito mais informação e capacidade de articulá-las ao debater com Aécio que na disputa anterior. Paradoxalmente, vejo nela agora certo abalo emocional que não revelava ao confrontar José Serra, por sinal um político com muito mais quilometragem que Aécio.
Aécio não é mais que um fedelho diante de Serra, Dilma tem clara noção da superioridade de seus conhecimentos e de sua argumentação, além de que já teve nos debates do primeiro turno oportunidade suficiente para constatar a falta de conteúdo do adversário.
O que incomoda Dilma, a ponto de desestabilizar o seu emocional?
Cada um de nós se dá o direito de opinar sobre o que ela deveria fazer para pôr o oponente em seu lugar. Afinal, em política, como em futebol, qualquer um se sente à vontade para sentar na cadeira do técnico e dar o seu pitaco.
Caso estivesse na equipe que a prepara para os debates, eu não teria dúvida: buscaria apoio psicológico, promoveria sucessivos laboratórios colocando-a diante de um personagem que assumisse o papel de um torturador debochado, aquele que ocupava o espaço de desestabilizar emocionalmente a prisioneira política, ferindo-a moralmente, impondo a superioridade pela força e pela falta de escrúpulos.
Só isso explica, para mim, que Dilma não reduza Aécio ao seu verdadeiro tamanho e, mais, revele certa angústia por ter de enfrentá-lo. Suspeito que Dilma veja nele a figura daquele torturador desprovido de limites morais. Mais que isso, não estou certo de que, sabendo o que foi o passado dela, Aécio não tenha sido preparado justamente para desestruturá-la emocionalmente, usando de tais artifícios. Afinal, seria essa a única forma de não evidenciar a sua própria inferioridade.
Fernando Tolentino