segunda-feira, 20 de outubro de 2014

QUEM MESMO DILMA VÊ DIANTE DE SI?



É possível imaginar situação de maior degradação do que a relação entre torturador e torturado?
Se quiserem passar ao largo da realidade política brasileira dos anos recentes, busque o caso de tortura mais repetidamente narrado da história da humanidade: a paixão de Cristo.
Lembrem da caminhada com a cruz ao ombro e os pés descalços, das chibatadas, da perfuração de pés e mãos durante a crucificação, de fazer o corpo se sustentar nos cravos, da lancetada no peito. Imagine o sangramento da pele a se colar no manto que o cobria. Não lhe foi apenas imposto o sofrimento físico. Foi coberto com um manto por ter sido antes desnudado. Foi ridicularizado, sendo-lhe colocada uma coroa de espinhos para provocar o riso da multidão. Foi-lhe dado fel quando disse ter sede e foi pregada na cruz a inscrição injuriosa de rei dos judeus. Assim teria sido o último dia de Jesus.
Passados cerca de dois mil anos, dá pra imaginar a que extremos de sofisticação chegou a tortura. Relatos nos chegam de todo o mundo, mais marcantes e profusamente lembrados os perpetrados pelo regime nazista contra os seus opositores, os comunistas ou judeus, ciganos, poloneses e todos os que tenham caído em desgraça.
Não foi diferente durante a ditadura do Brasil, especialmente na primeira metade dos anos 70.
Sei o quanto foi duro tomar conhecimento do que sofreram amigos, companheiros de luta, conhecidos ou quaisquer outras vítimas desse processo. É ainda hoje quase insuportável ouvir ou ver depoimentos de quem passou por isso. Para que não pareça um sentimento diante do padecimento de amigos, sofri recentemente a dor de alguém socialmente muito distante de mim e por quem não tenho qualquer afetividade, a jornalista Mirian Leitão. Ao ler seu relato, doeu-me a aflição de um ser humano.
Ao contrário do que consta na narrativa cristã, a tortura aplicada a militantes políticos no Brasil tinha teoricamente o objetivo de obtenção de informações. Por isso, ainda mais sofisticada. Torturadores eram treinados, inclusive com apoio externo. Belo Horizonte chegou a ter um logradouro batizado como Rua Dan Mitrioni, uma demonstração de gratidão a um “especialista” trazido dos Estados Unidos para aperfeiçoar os métodos de tortura.
É importante entender o comportamento do corpo após algum tempo de pau de arara, que é uma invenção nacional. O mínimo que se pode dizer é que a dormência toma conta dos membros, o sangue se concentra na cabeça e já não se consegue fechar a boca. Pense na cadeira de dragão, energizada para provocar choque elétrico em diferentes partes do corpo, imagine o afogamento, às vezes por mergulho, em outras com um pano embebido em água. Ou a variante com um saco plástico fechado envolvendo a cabeça. Ou a asfixia, como morreu Stuart Angel, obrigado a respirar a descarga de um jipe. Surras, quebras de dedos e membros, extração de unhas, submissão à fome e à sede.
Ao lado disso tudo, a tortura psicológica, somada à física. Como teria sido feito com Jesus, a primeira providência era o desnudamento do preso. Isolamento, inclusive com a perda de acesso à luz, de modo a que o preso não tivesse mais noção de tempo.
O MACHISMO COMO INSTRUMENTO DE TORTURA
Nos casos de prisioneiras, a violência era sempre acompanhada de exacerbação da humilhação, inclusive com apelo ao sexo forçado ou a demonstração de que isso poderia ocorrer a qualquer momento. Uma forma de demonstrar que, ali, além do poder irrecorrível da força brutal da repressão, havia a submissão antropológica da mulher pelo homem. Quanto mais isso angustiasse a vítima, melhor. A raiva acumulada pela circunstância levaria a prisioneira mais facilmente ao desespero, ao mais absoluto desequilíbrio emocional.
Por isso a prisão simultânea de parentes ou entes queridos e sevícias de um diante do outro, até a introdução de objetos nos corpos. Enfim, a busca do aniquilamento de toda resistência física ou moral.
É indispensável chamar a atenção para o fato de que se pretendia obter informações, sendo óbvio para o prisioneiro que, caso se fragilizasse, poderia causar a morte de companheiros ou pelo menos levá-los a viver o mesmo vexame. A tortura psicológica ocorria com a utilização dos interrogadores com papeis diferenciados. Ao lado de um extremamente violento, havia o que simulava solidariedade, buscava angariar a confiança do interrogado, prometia alívio.
Posso assegurar que toda essa rememoração do que li e ouvi é pouco diante do que realmente ocorreu nos presídios em que eram jogados os presos políticos. Não conheço ninguém que saísse íntegro, sem precisar recorrer a tratamentos psiquiátricos, a cuidados médicos especiais. Muitos jamais se recuperaram, como Luís Medeiros, jovem estudante de engenharia pernambucano, preso por jagunços e entregue à polícia após horas de espancamento, pendurado de cabeça pra baixo. Na Rua da Aurora (Recife), para onde foi removido, diariamente torturado, acabou não resistindo à tentação de saltar por uma janela aberta. Paraplégico, terminou seus dias em Brasília. A Dra. Abigail Feitosa, ginecologista, de tradicional família nordestina, aderiu à resistência à ditadura, sensibilizada pelas sequelas que viu e tratou a pedido de seu marido, Ribamar, militante de esquerda. Posteriormente, viria a se tornar deputada federal, com importante presença na bancada que lutou para superar a ditadura. 
OS PERFIS DOS DOIS FINALISTAS
Para que remexer em tudo isso, lembrar um passado tão revoltante, hoje felizmente superado?
É impossível deixar de identificar os protagonistas deste segundo turno, ambos originários de Minas Gerais, sem levá-los àquele terrível período da história recente do Brasil.
De um lado, Dilma Rousseff, uma ex-militante de esquerda, prisioneira por três anos, barbaramente torturada. Conseguiu reconstruir sua vida no Rio Grande do Sul, lá se graduou, aperfeiçoou a sua formação e, com ela, voltou à política, ascendendo em funções técnicas no aparelho de Estado, até se eleger presidente da República.
O adversário prefere ser lembrado como neto de Tancredo Neves. Seria injusto deixar de trazer à luz sua trajetória, para que ninguém o tenha como um lutador da resistência democrática, ainda que de figurino conservador, como o de Ulysses Guimarães.
Tancredo integrou o antigo PSD, foi ministro duas vezes durante o governo democrático de Getúlio Vargas, teve papel decisivo na crise de 1961, quando uma tentativa de golpe militar pretendeu impedir a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Foi um dos articuladores da saída parlamentarista e acabou se tornando o primeiro ministro até 1962. Durante a ditadura, foi deputado pelo MDB, sempre ligado à ala mais conservadora. Tentou ocupar o terreno da conciliação com o regime quando da imposição de criação de novos partidos. Criou o PP, mas os militares não aceitaram sequer correr o risco de deferir um espaço ao seu partido, forçando-o à incorporação pelo PMDB. Frustrada a emenda com que se pretendia reinstaurar eleições diretas para a Presidência, Tancredo colocou-se como alternativa para a disputa no colégio eleitoral, derrotando o candidato Paulo Maluf. Não chegou a governar, vítima de doença que impediria a sua posse. Com esse episódio, Tancredo passou para a história como um dos principais artífices da redemocratização.
Aécio Neves, convenientemente, destaca essa descendência, colocando em segundo plano a figura do pai, o deputado Aécio Cunha, integrante destacado do partido que representava a ditadura no Parlamento, a ARENA. Quando Dilma amargava a prisão política, ele ocupava um cargo no gabinete do pai. O gabinete era em Brasília e o pai da bancada de Minas Gerais, mas Aécio vivia e estudava no Rio de Janeiro.
Aécio nasceu e se criou em um ambiente em que se respirava política nos dois ramos da família, o pai nas entranhas da ARENA e o avô como importante membro do PMDB, prestigiado por interlocução constante com expoentes do regime. Debruçado nessa destacada janela, podia observar com atenção o que se passava nas hostes governistas e testemunhar a perseguição aos adversários.
O privilégio dessa posição no cenário político foi ingrediente fundamental para a sua carreira: deputado, governador, senador, candidato a presidente. É toda essa carga de experiência que coloca em jogo na disputa.
AS ARMAS DE CADA UM
Especialmente no segundo turno, algo me impressiona ao ver Dilma e Aécio encarando-se nos debates. Quatro anos após eleger-se para o primeiro mandato, percebo Dilma com muito mais informação e capacidade de articulá-las ao debater com Aécio que na disputa anterior. Paradoxalmente, vejo nela agora certo abalo emocional que não revelava ao confrontar José Serra, por sinal um político com muito mais quilometragem que Aécio.
Aécio não é mais que um fedelho diante de Serra, Dilma tem clara noção da superioridade de seus conhecimentos e de sua argumentação, além de que já teve nos debates do primeiro turno oportunidade suficiente para constatar a falta de conteúdo do adversário.
O que incomoda Dilma, a ponto de desestabilizar o seu emocional?
Cada um de nós se dá o direito de opinar sobre o que ela deveria fazer para pôr o oponente em seu lugar. Afinal, em política, como em futebol, qualquer um se sente à vontade para sentar na cadeira do técnico e dar o seu pitaco.
Caso estivesse na equipe que a prepara para os debates, eu não teria dúvida: buscaria apoio psicológico, promoveria sucessivos laboratórios colocando-a diante de um personagem que assumisse o papel de um torturador debochado, aquele que ocupava o espaço de desestabilizar emocionalmente a prisioneira política, ferindo-a moralmente, impondo a superioridade pela força e pela falta de escrúpulos.
Só isso explica, para mim, que Dilma não reduza Aécio ao seu verdadeiro tamanho e, mais, revele certa angústia por ter de enfrentá-lo. Suspeito que Dilma veja nele a figura daquele torturador desprovido de limites morais. Mais que isso, não estou certo de que, sabendo o que foi o passado dela, Aécio não tenha sido preparado justamente para desestruturá-la emocionalmente, usando de tais artifícios. Afinal, seria essa a única forma de não evidenciar a sua própria inferioridade.
Fernando Tolentino

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

NINGUÉM CONFUNDA O PT COM QUEM ESTÁ NO SEGUNDO TURNO DO DF



Passados quatro anos e mais de duzentas postagens, acabo tomando o BLOG DE TOLENTINO como um instrumento de debate e não apenas de reflexão ou divulgação das minhas concepções, abordagens de temas da atualidade, propostas ou até publicidade de importantes textos de terceiros.
Agradeço a virada aos amigos que, embora não quase nunca se sintam à vontade para registrar comentários no espaço próprio do BLOG DE TOLENTINO, comentam pessoalmente as postagens, ligam para isso, mandam e-meios ou registram opiniões no Facebook, a maior parte das vezes por meio de mensagens fechadas.
Desta vez, não deu pra resistir, especialmente diante da manifestação de uma amiga especial (embora ainda virtual), que tocou em um aspecto crucial de minha análise deste segundo turno para governador de Brasília, exposta no artigo DOIS MOTIVOS PARA VOTAR NULO NO DF: CRISTÓVAM E ROLLEMBERG, publicado no domingo, 12 de outubro.
Não é uma questão simples, minha querida amiga. Tanto que tenho ouvido posições diferentes de vários companheiros de luta. Uma decisão tão difícil que me senti obrigado a divulgar a minha reflexão e a decisão naquele texto.
E você introduziu uma questão nevrálgica: cidadania. "Voto nulo ... É desistir da cidadania ..."
Minha geração teve essa discussão em 1970, quando o voto nulo foi pregado por organizações de esquerda e a própria UNE.
Teríamos uma eleição entre ARENA e MDB. O partido criado para representar politicamente a ditadura e a oposição consentida por ela. Os partidos políticos haviam sido simplesmente fechados. Sucessivas levas de políticos perderam os seus mandatos, restando-lhes o exílio, tal a perseguição imposta pelo regime. As regras eleitorais obedeciam à lógica de fazer a ARENA amplamente vencedora. Só haveria eleições, vale lembrar, para mandatos legislativos ou prefeitos de municípios com menos que 200 mil habitantes, ainda assim excluídos os que o governo livremente definiu como “áreas de segurança nacional” e os caracterizados como estâncias hidrominerais.
Decisão dura. Na minha Bahia, o candidato ao Senado pelo MDB fora indicado pessoalmente pelo próprio Antonio Carlos Magalhães, já escolhido para governador pelo regime, como vingança contra Luís Viana Filho, que os militares impuseram como candidato da ARENA. Os que rejeitamos a ideia do voto nulo tivemos que cavucar na nominata do MDB para encontrar nossos candidatos a deputado estadual e federal. Não me arrependo de colocar na urna os nomes de Chico Pinto e José Carlos Brandão. Com um pequeno grupo de parlamentares de esquerda, Chico viria a constituir o chamado Grupo Autêntico, que cumpriu o seu papel nos anos de Garrastazu Médici. No curso de mandato brilhante, acabou cassado e preso, por denunciar a ditadura do Chile quando Pinhochet visitava o Brasil.
Não tenho dúvida de ter efetivamente exercido minha cidadania ao eleger Chico Pinto e colocar no Congresso Nacional uma das mais brilhantes vozes a passar por ali, além de um dos mais aguerridos e consequentes opositores do regime ditatorial.
O que esta disputa nos oferece
Essa história de vida firmou a convicção de que eu jamais votaria nulo. Vejo que inúmeras pessoas da minha geração estão vivendo a mesma angústia neste momento.
A perplexidade pode ser resumida em um raciocínio simplório, mas consistente. Qualquer que seja o meu voto um dos dois estará eleito. Não conseguirei derrotar os dois, o que seria motivo suficiente para optar por um deles. Como um será eleito, isso se dará sem que eu exerça a minha cidadania, interferindo no resultado.
Como vou influenciar com o meu voto? Esta é a questão.
Derrotando o que representa a reinstalação da corrupção desenfreada?
Condenando o Distrito Federal a quatro anos de desgoverno, de incapacidade na gestão, de política elitista?
Sequer os grupos são distintos, como ficou claro, por sinal, quando Rollemberg antecipou-se ao próprio PSB e declarou o seu apoio à candidatura presidencial de Aécio.. Embora sempre eleito com votos petistas, Rollemberg foi sempre muito próximo de Arruda. Ninguém esqueça que a Caixa de Pandora cassou um deputado distrital da sua base: Rogério Ulisses, do PSB. O senador eleito com ele, Reguffe, sobrinho e assessor do então senador Sérgio Machado (PSDB-CE), foi também assessor de Arruda justamente no mandato do fatídico caso do painel que o levou à renúncia. Depois, deputado distrital, esquivou-se do julgamento de Arruda no escândalo da Caixa de Pandora.
Tido como guru dos dois, o senador Cristóvam Buarque jamais levou em conta ter sido eleito pela legenda do PT e, depois, como candidato de sua coligação. Sempre esteve entre os mais agressivos críticos dos governos de Lula e, posteriormente, do de Dilma. Ao longo de 12 anos, foi um dos mais íntimos e solidários da oposição.
Já na abertura da disputa de segundo turno, Rollemberg apressou-se a declarar que não queria apoio de partidos ou grupos políticos. A empáfia nasceu certamente no útero da adolescência fácil, pois não precisou suar um só dia na vida, alçado ao mais alto salário das carreiras de Estado sem precisar ler mais que um gibi, aos mais altos cargos legislativos arrastado pela legenda do PT. Deve achar que elegê-lo não é mais que uma obrigação para o povo brasiliense. Faz um favor dispondo-se a receber os votos.
O mais chocante é ver que seu partido não elegeu um só deputado distrital, um único federal!
Pior que isso, terá pela frente uma Câmara Legislativa constituída por deputados de 17 diferentes legendas: apenas três deputados da sua coligação e os outros 21 originários de um primeiro turno em que apoiaram Frejat ou Agnelo. Até agora, ganhou a adesão de um partido que não elegeu qualquer deputado, o PPS.
Novo momento, novos instrumentos de luta
É verdade que um dos dois candidatos de Aécio a governador será eleito, tenha ou não o meu voto.
Mas tenho a certeza de que o meu voto nulo será, neste momento, a melhor maneira de exercer a minha cidadania.
Explico. Frejat e Rollemberg deixaram suficientemente claro que não precisam de meu voto. Aliás, insistem em repetir diariamente que não o querem, transformando o horário eleitoral em um torneio de agressividade contra o governo de Agnelo, liderado pelo PT.
Se isso é verdade, é mais claro ainda que o PT não precisa apoiar nenhum deles.
De um lado porque o Distrito Federal e o seu povo não estarão melhores nesses quatro anos, se governado pelo porta-voz da corrupção ou por seu velho amigo Nullemberg.
Por outro lado porque, mesmo tendo sua representação parlamentar reduzida, é a força política com melhores condições de fazer oposição ao novo governo qualquer que seja o vencedor. O PT elegeu a maior bancada da Câmara Legislativa. Brasília não tem qualquer dúvida do que representa a sua base social, espalhada em dezenas de sindicatos, na CUT e em número apreciável de outras organizações populares.
Como não pode ser acusado de inconsequente, o PT tem condições de fazer oposição e não raro impor alternativas.
Até porque o novo governo não poderá se desligar da imagem do que foi o governo Agnelo. Manterá seus programas e dará continuidade às realizações, curvando-se ao fato de que o governo não era o desastre que quis apresentar na campanha? Interromperá obras, suspenderá programas e se exporá ao clamor popular? Restará fazer alterações cosméticas para apresentar as ações do GDF como se novidades fossem. Sob a censura da opinião pública e a cobrança do PT, claro.
Ou seja, exercer a cidadania no processo eleitoral não se traduz exclusivamente em tentar eleger um determinado candidato. Pode significar a opção prévia pela oposição, desde que tendo instrumentos para fazer isso.
E, cá entre nós, como força política organizada, só o PT tem condições de fazer essa escolha e seguir esse caminho no Distrito Federal.
Fernando Tolentino

domingo, 12 de outubro de 2014

DOIS MOTIVOS PARA VOTAR NULO NO DF: CRISTÓVAM E ROLLEMBERG



Este segundo turno da eleição de governador do DF é terrível para mim.
Jamais votei nulo. Sempre entendi que as eleições têm um viés histórico e outro conjuntural e alguém será eleito qualquer que seja o meu voto. Esse entendimento foi determinante para jamais ter me arrependido de um voto, tendo sempre claro que a escolha tinha a ver com a circunstância política do momento em que votei, do papel que meu candidato cumpriria se fosse eleito. Procurei sempre ser criterioso na escolha. E todos eles cumpriram o papel que eu esperava naquele momento e naquele conjunto de circunstâncias históricas e políticas.
Observe que isso se repete desde 1966. Não foram poucas eleições.
Claro que alguns deles não foram eleitos. Mantiveram-se, ao menos à época, do mesmo lado e nas mesmas lutas.
Momento de perplexidade
Terrível, agora, chegar a este momento e ter que optar entre as candidaturas de Frejat e Rollemberg para governador do Distrito Federal. Nunca imaginei passar por isso.
Frejat é sabidamente um político de direita, ainda que seus votos na Constituinte tenham rendido avaliação positiva do DIAP com relação aos interesses dos trabalhadores, com nota bem acima da média. É também um homem digno, não se tendo notícia de corrupção no enorme volume de obras do sistema de saúde do DF que executou quando secretário de Saúde no tempo da ditadura, com os recursos facilitados pela enorme injeção de dólares então tomados ao Exterior. Há ainda que se destacar o sistema de saúde que deixou implantado.
Nada a assinalar nas suas voltas à Secretaria. Dadas, no entanto, aquelas circunstâncias, poderia merecer o meu voto, já que não existe opção à esquerda.
Mas, além de sua opção pelo candidato do atraso a presidente da República e do combate hidrófobo à passagens do PT pelo GDF, não seria irresponsável para fazer de conta que não enxergo o restante de seu palanque: Roriz, Arruda, Luiz Estêvão, Gim, Fraga, além de grande quantidade de elementos perniciosos de menor expressão.
A direita ou a nulidade que a ela se junta?
Do outro lado, Rollemberg. O que dizer sobre ele? Nada. Simplesmente nada! Por mais cosmético que lhe cubra  e ensaios a que tenha sido submetido, nada além de um saco vazio.
Deputado distrital inexpressivo, arrastado da suplência para a Câmara Legislativa pelo PT, com os espaços abertos pela convocação de Wasny de Roure para Secretário. E aproveitado como Secretário no governo em que Cristóvam foi eleito pelo PT. É claro que se elegeria em 1998, mas não há o que recordar desse mandato.
Com Lula presidente e o PSB na base de apoio, foi aproveitado na equipe do Ministério da Ciência e Tecnologia, mas também nada há de realização a relembrar. A coligação permitiu que chegasse a deputado federal em 2006, mas também não há resultado significativo.
De toda essa trajetória, lembra-se a sua insistência em uma tese inconstitucional: a de eleição de administradores regionais. Ideia vazia. O gestor sem espaço territorial claro, pois este pode ser redefinido a qualquer momento pela Câmara Legislativa, que também estabeleceria o orçamento por proposta do governador. Já pensaram em um governador adversário político do administrador? Além disso, não haveria poder fiscalizador no nível equivalente. A Câmara Legislativa seria o órgão fiscalizador de dezenas de administrações regionais! Proposta tão inviável que não conseguiu sequer vê-la em uma discussão séria em seus dois mandatos federais. Evitou até discuti-la nesta campanha para não se expor ao ridículo. Vai insistir em implantá-la caso se eleja?
Em 2010, quando havia duas vagas para o Senado, os articuladores da campanha do PT resolveram oferecer as duas a partidos coligados. Contra imensas resistências internas, vale lembrar. Foram lançados Rollemberg (PSB) e Cristóvam (PDT), que os petistas já conheciam tão bem. Rollemberg jamais demonstrara simpatia pelo PT e Cristóvam foi eleito pelo Partido oito anos antes, abandonando-o pouco depois e se juntando às bancadas conservadoras do Senado para dar combate ao governo Lula. Mesmo assim, ambos foram eleitos, com o peso da militância petista. Ninguém esquece o discurso de Cristóvam, logo após a eleição, reconhecendo que fora essa militância a responsável por sua eleição.
Com relação a Cristóvam, duas coisas não se espere jamais: coerência e gratidão. A respeito, leia:
Os dois se fizeram senadores com os meus votos. Eu já tinha claro que teria em Cristóvam um provável adversário, como de fato ocorreu. Sabia que o mandato de Rollemberg nada representaria para Brasília e o Brasil, mas fui convencido a votar nele pelo PT, imaginando-se que isso ajudaria na eleição de Agnelo para o GDF. Não me lembro de ver os dois pedindo votos para Agnelo, salvo manifestações protocolares.
Como executivo (secretário de Turismo) a única “realização” de Rollemberg está lá para ser lamentada. Mal planejada, sem que interessasse a ninguém e inacabada: o Projeto Orla. Do jeito que a deixou e sem justificar investimento, pois quase ninguém vai lá, a não ser raríssimos pescadores e eventuais casais de namorados e rodinhas de fumo que pretendem ficar longe de olhares indiscretos.
Uma disputa sem alternativas
Enfim, de um lado um candidato com perfil de empreendedor, cercado de uma gangue da qual Brasília conseguiu se ver livre há quatro anos quando até a sua autonomia já estava posta em questão, tão evidente foi a criminalização do mandato de José Roberto Arruda. Pouco tempo depois, por sinal, de Joaquim Roriz renunciar ao mandato de senador para evitar a sua cassação, no que repetiu gesto do próprio Arruda anos antes. Devidamente acompanhados de Luiz Estêvão, que não teve a oportunidade de renunciar e foi efetivamente cassado, justamente pelos fatos que o levaram agora à prisão.
Do outro, um político sem passado de realizações, seja como executivo ou como legislador. A versão perfeita e acaba do que se pode chamar de Nullemberg.
Em comum entre ambos a clara opção pela direita, em Frejat como confirmação de sua história política; em Nullemberg, como a revelação do que estava escondido no seu perfil pela duradoura companhia do PT. Opção que se tem claro, nos dois casos, por não terem projeto mais caro que a destruição do Partido dos Trabalhadores.
A força do PT
Pois é justamente o que lhes faz odiar tanto o PT que dá substância à decisão de votar nulo.
Dado o momento vivido pelo Brasil e o perfil manifesto dos dois candidatos, pode o PT oferecer aos brasilienses a oportunidade de experimentarem uma das alternativas escolhidas e compará-las com o que foi o governo Agnelo.
Ao eleito restará dar continuidade aos programas do governo liderado por Agnelo e pelo PT e, assim, ser obrigado a reconhecer a injustiça do seu discurso durante a campanha. Ou interromper esses programas e enfrentar a revolta da população, evidenciando do que ela abriu mão ao impedir a continuidade do governo de mudanças no Distrito Federal.
O PT, lamentamos dizer aos dois e aos seus parceiros, continuará a sua caminhada. Desonerado do peso indigesto de administrar a máquina pública, tendo a alvissareira oportunidade de depurar o seu quadro de filiados e, com a graça de Deus, tendo para exibir mais uma bem sucedida administração popular de Dilma Rousseff na Presidência da República.
E, claro, nenhum deles se esqueça que o PT cresce na oposição, inclusive com as suas bases sociais, até por ser este o papel que a sociedade aprendeu historicamente a aplaudir.
Fernando Tolentino