terça-feira, 28 de abril de 2015

OLDEGAR, JÁ SÃO CEM ANOS


Eu devia ter uns 13 anos quando me encorajei e entreguei ao meu pai, Oldegar Franco Vieira, a minha polpuda pasta de poemas juvenis. Queria que me desse uma opinião. Ansioso, cobrei o parecer dois dias depois. Quando perguntei o que achou, disse apenas: “Você precisa ler mais.”
Nunca mais falamos no assunto. Embora até hoje, aos 67 anos, continue cometendo alguns poemas de uma produção bissexta, eu nunca me aventurei a publicá-los. Vá que não tenha lido o suficiente!
Depois de me assegurar de uma formação que, aos olhos da época, garantiria o meu sustento (Administração Pública), tornei-me também jornalista. Mas publicar poesia, nunca!
Pois Oldegar aventurou-se na sua trajetória intelectual aos 17 anos, ao despertar o interesse pela cultura japonesa com a leitura de "Missangas", de Afrânio Peixoto. Enveredou-se pelo haicai, gênero de poesia tipicamente nipônico, considerado nobre pela sutileza de suas mensagens de caráter reflexivo. Nos idos de 1940, estimulado pelo próprio Afrânio Peixoto, publicou Folha de Chá, tido como o primeiro livro brasileiro inteiramente de haicais, um gênero então ainda pouco comum e que assombrava alguns autores. Ao concorrer a concurso da Academia Brasileira de Letras, Cassiano Ricardo tratou a publicação como “pura extravagância em face da sensibilidade brasileira”. Uma indelicadeza com Guilherme de Almeida, que integrava o júri e já escrevia haicais.
No prefácio do livro, Oldegar definia o haicai: “Eles são como a palheta que tange as cordas das almas. Neles se dá a liberdade interior e pessoal de modular a nota inicial segundo as inclinações sentimentais diversas.”
Já morando no Rio de Janeiro, para onde migrou aos 22 anos, com o título de bacharel em Direito, Oldegar lecionou no Senai, dando seguimento à longa carreira de magistério, que iniciara no Colégio Estadual da Bahia (Central). Trabalhando no INEP (órgão do Ministério de Educação e Cultura), o Prof. Lourenço Filho o indicou para Diretor de Educação do então Território do Guaporé, hoje Estado de Rondônia. Lá, implantou o movimento escoteiro e casou com a minha mãe, enfermeira graduada no Rio e nascida na distante Florianópolis.
Oldegar completaria o seu centenário nesta terça-feira, 28.
Ao voltar para a Bahia, além de atuar como procurador, foi professor da Universidade Federal da Bahia e da Escola de Estatística da Bahia, que fundou e dirigiu durante vários anos, assim como da Escola Técnica M. A. Teixeira de Freitas. Criada a UFBA, o reitor Edgard Rego Santos confiou-lhe importantes tarefas, dentre as quais a organização da recém-fundada Escola de Administração.
Seu valor intelectual não deixou de ser reconhecido, tornando-se membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia de Letras Jurídicas e da Academia Mater Salvatoris, além da Associação Cultural Brasil-Japão (da qual hoje é o Presidente de Honra).
Oldegar é autor de diversos ensaios de Direito, Educação e Geografia, entre outros temas. Desde a juventude, colaborou com diversas publicações, especialmente jornais baianos e cariocas. Publicou ainda Gravuras no Vento (haicais) e, recentemente, teve poesias incluídas em coletânea de haicais organizada por Adriana Calcanhotto (Haicai do Brasil, Editora Janeiro), no qual também é incluída sua irmã, Joanna Angélica Vieira Ribeiro, que declara ter se tornado haicaísta como uma homenagem a ele e hoje é uma poetisa apreciada.
Uma das obras mais agraciadas de Oldegar Vieira foi justamente um ensaio sobre o haicai, que o credenciou a ser convidado a receber, no Japão, a insígnia de Comendador da Ordem do Tesouro Sagrado com Laço, outorgada pelo Imperador Akihito.
Fernando Tolentino

domingo, 26 de abril de 2015

VOCÊ VAI CONTINUAR EMPREGADO?



Imagino como anda a sua cabeça se você é bancário, professor, profissional de enfermagem, operário de alguma indústria, empregado dos Correios.
São só alguns exemplos de categorias organizadas, estruturadas, que levaram anos para constituírem os seus sindicatos e se fazerem respeitar por seus patrões, conquistando alguns direitos. Direitos que têm de confirmar anualmente, à custa de muita mobilização.
Se prevalecer a vontade da maioria dos deputados federais, tudo isso poderá estar simplesmente no chão em não mais que alguns meses.
Mas não se enganem. Não são apenas os direitos dessas categorias de trabalhadores, mas a de praticamente todos, exceção para os trabalhadores já terceirizados, que representam 26,8% da mão de obra registrada no Brasil. Não menos que 12,7 milhões.
Perguntem a essa gente como que eles são obrigados a lidar com os seus 790 mil patrões, que faturam R$ 536 bilhões anualmente com o trabalho deles.
Esses empresários estão de olho em uma multiplicação escandalosa desse valor. Basta pensar nos bancários, uma categoria que certamente já se sente diretamente ameaçada. E não escapam do apetite deles os bancos estatais, sejam os estaduais que não foram engolidos pela sanha privatista do neoliberalismo ou os ligados ao governo federal. Esses provavelmente não teriam a mão de obra terceirizada no atual governo, mas há sempre o risco de uma candidatura bem sucedida de partidos que votaram quase unanimemente no PL nº 4.330.
QUEM PAGA É QUE MANDA
Com financiamento privado de campanha, não é fácil deputados e senadores votarem contra os interesses dos empresários, que lhes exigem fidelidade canina. Por isso, o número de votos favoráveis (324 contra 137 e duas abstenções) foi superior aos 3/5 necessários para a aprovação de uma emenda à Constituição.
Houve partidos que deixaram esses financiadores orgulhosos dessa submissão, como o PV e (vejam que coisa!) o Solidariedade, organizado em torno do deputado Paulinho, da Força Sindical. Mas os grandes partidos conservadores não falharam nesse compromisso contra os trabalhadores. PMDB, PSDB, DEM, PSD, PRB, PR e PTB mostraram que são apenas poucas exceções que não se curvam ao poder econômico ou a ele estão diretamente ligados.
Até o PSB, com tradição de esquerda e decisão formal de sua direção contra o Projeto, ofereceu 20 dos seus 30 votos. O caso do PDT certamente faria vomitar o seu fundador Leonel Brizola: 13 (65%) dos seus deputados votaram pela aprovação. O PPS, hoje apenas uma sublegenda do PSDB, teve papel humilhante para a maioria dos seus fundadores, que reivindicava a herança do Partido Comunista fundado em 1922. Mais de 72,7% de sua bancada votou contra os trabalhadores.
Somente o PT (61 deputados), o PCdoB (13), o PSOL (5), o PTC (2) e o PRTB (1) não deram um só voto ao Projeto.
Aqui, vale uma perguntinha talvez incômoda. O seu deputado lhe avisou que iria usar o seu voto para fazer que praticamente todos os trabalhadores brasileiros sejam terceirizados?
Se você votou em um candidato por ser da sua igreja, ele lhe fez essa confidência? Pois a bancada evangélica votou em peso a favor do Projeto. Se escolheu o seu candidato para votar em “alguém da região”, mesmo sabendo que se trata de um grande proprietário rural, saiba que a bancada ruralista não vacilou e apoio a proposta de forma praticamente integral.
Se quer ver como votou o seu deputado, abra essa conexão da revista Carta Capital
O QUE PODE ACONTECER AGORA
Com o Projeto já aprovado na Câmara, falta a decisão do Senado. Já tramitava há dez anos, mas o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) parece achar insuficiente o seu poder sobre a Câmara. Não estou falando de suas constantes mostras de querer dar ordens para a presidenta Dilma. Enfureceu-se quando o senador Renan Calheiro, presidente do Senado, previu que deverá ser discutido detidamente e não deve ser aprovado em 2015.
Aqui, vale lembrar que, em 2018, o Senado terá duas cadeiras por Estado em disputa. Significa que dois terços terão que pedir votos. E eles sabem que uma matéria como a terceirização não tende a ser facilmente esquecida pelo eleitor. Por isso, Cunha quis logo a votação, longe das próximas eleições.
Cunha disparou ameaças. Lembrou que a última palavra é da Câmara, ou seja, ela pode ou não aceitar as alterações feitas no Senado. E disse mais: que alguma demora do Projeto implicará em tratamento equivalente quando chegar à Câmara uma matéria originária do Senado.
Uma pequena pausa só para lembrar, mais uma vez, como foi importante o seu voto para deputado. E, então, já olhou a lista? Foi alguém que votou contra você.
Se e quando o Projeto for aprovado pelo Senado, ainda será necessário que a presidenta Dilma o sancione. Se o vetar, volta para que Câmara e Senado aceitem ou não o veto.
Mas, pelo tom ameaçador de Eduardo Cunha ao se dirigir ao presidente da outra Casa do Congresso, dá pra imaginar as pressões que Dilma sofrerá.
AS MUDANÇAS QUE PODERÃO VIR
Uma coisa é certa. Será muito tentadora para os empresários brasileiros a possibilidade de terceirizar a mão de obra utilizada em seus negócios. Daí, o peso jogado na aprovação pela Câmara.
(Só Paulinho da Força não viu. Ou viu?!)
Não é nada, não é nada, os dados mostram que os atuais empregados terceirizados ganham salários 24,7% menores e têm uma jornada em média com três horas a mais.
Além disso, a substituição desses trabalhadores praticamente não tem custo. Tanto que os terceirizados trabalham 2,6 anos a menos.
Os dados também mostram que eles sofrem mais acidentes. Em cada 10 acidentes de trabalho, nada menos de 8 são de terceirizados. Mas bem sabemos que está não é propriamente uma grande preocupação para empresários. Preocupava mais durante a escravatura, quando a mão de obra era uma propriedade e, portanto, os danos afetavam o valor do patrimônio.
A grande novidade, que faz brilhar os olhos dos ávidos empresários brasileiros, é que a mão de obra deverá ser ainda mais barata. Voltando aos bancos. Ao substituírem os bancários, os terceirizados não terão qualquer dos direitos adquiridos pelos sindicatos deles. Serão representados, em futuras negociações, pelos sindicatos da mesma categoria de seus empregadores, isto é, das empresas de terceirização.
E não é coisa pra demorar. Os deputados financiados por empresários – e as bancadas que se aliaram a eles – cuidaram de pôr uma cereja sobre o bolo na última hora. Reduziu-se para um ano (antes eram dois) a chamada quarentena, tempo em que um trabalhador poderá ser aproveitado como terceirizado após deixar seu emprego na mesma empresa. Com salário menor ou alguém duvida?
MERCADO DE TERCEIRIZAÇÃO DEVE EXPLODIR
A grande mudança do possível (ou provável?) advento da terceirização indiscriminada é a abertura das atividades-fim, embutida na definição de que alcança atividades inerentes, acessórias ou complementares à atividade econômica de quem contrata os serviços terceirizados.
A coisa é tão séria que, embora a lei não se refira à administração pública, teme o Fenajufe (que representa trabalhadores do Judiciário e do Ministério Público) que mesmo os órgãos do governo federal, dos estaduais e dos municipais não estejam livres dessa possível febre.
Claro que os concursos públicos tendem simplesmente a desaparecer. Mesmo que a administração direta não seja atingida, é bom que se diga. Muito da atividade-meio da administração pública já está terceirizada. Além do que as mesmas forças que aprovam este projeto – e demonstram recente robustez política – são as que advogam a minimização do Estado.
Mas grande parte dos concursos públicos na verdade não são voltados apenas para prover de pessoal a administração direta. Os bancos públicos e inúmeras estatais são constitucionalmente obrigadas a se valer de concursos para recrutar os seus empregados. Nesse sentido, o Projeto de Lei nº 4.330/10 dá um autêntico balão na Constituição.
EXPERIÊNCIA NADA ALENTADORA
Há 12 anos administrando um órgão do governo federal (Imprensa Nacional), tivemos mais de 20 contratos com terceirização de diferentes serviços. São raros os casos de empresas em que a relação acarreta problemas pequenos e pontuais.
O corriqueiro são problemas graves, com prejuízos para o governo e, principalmente, os trabalhadores. Isso porque temos os contratos sob intensa fiscalização, acompanhada pessoalmente, além de uma atitude de busca da antevisão dos problemas, a partir de contato intensivo com os empregados das empresas e troca constante de informações com os seus sindicatos.
Não é raro o puro e simples descumprimento contratual. Por isso, deixamos de renovar vários contratos de empresas que deixaram de entregar materiais e sistematicamente negam aos seus empregados direitos como o depósito tempestivo do FGTS e da contribuição previdenciária, o pagamento de vales-transportes e tíquetes refeição, os próprios salários e o 13º.
É claro que isso leva a paralisações, a faltas e à insatisfação, que só não é generalizada porque, em nosso caso, há a certeza dos trabalhadores que podem contar com o rigor e a solidariedade da administração.
Como as empresas são contratadas para períodos anuais, renováveis até o máximo de 60 meses, a administração tem frequentemente que lidar com novas licitações. Ainda mais que a Instituição foi várias vezes forçadas a determinar a interrupção dos contratos e a realização de novos pregões.
Os pregões impõem custos administrativos, exigindo um tempo considerável de atenção por parte de equipes de pregoeiros, tramitação administrativa, análise jurídica. Quando se realizam, raramente se esgotam em prazos razoáveis, passando por recursos administrativos e frequentemente judiciais, até porque o retardamento do processo proporciona lucros adicionais. Isso quando não exalam um forte cheiro de combinação entre os concorrentes.
O mais perverso é quando empresas desaparecem, às vezes sem que se possa fazer qualquer previsão de que isso venha a ocorrer. Encontrei essa situação no dia em que assumi a direção do Órgão. Uma empresa sumira e quase uma centena de trabalhadores estava sem receber os salários de dezembro e janeiro, além do 13º, dos vales-transporte e tíquetes-refeição. A situação voltou a se dar com pelo menos duas outras empresas. Quando isso ocorre, só resta aos trabalhadores reclamarem seus direitos na Justiça, em processos que se arrastam por anos.
Conseguimos evitar que a situação se repetisse com pelo menos mais três contratadoras de mão de obra, fazendo uma articulação com os sindicatos das categorias e o Ministério Público do Trabalho. Mas isso não quer dizer que todas as demais tenham honrado sempre os seus compromissos com os empregados. Mesmo empresas que não falharam durante muitos anos surpreenderam seus empregados e a administração com súbito descumprimento de obrigações trabalhistas ou previdenciárias.
O Projeto recém-aprovado reserva uma experiência amarga também para os futuros contratantes. Sempre que esses descumprimentos se derem, haverá um sério risco de que caiam na suas costas as obrigações não quitadas. Segundo o Projeto, a responsabilidade poderá ser transferida ao contratante quando a empresa contratada não tiver patrimônio que permita honrar esses compromissos.
Não esqueça caso você realmente esteja entre os que colocaram na Câmara deputados comprometidos com interesses empresariais e que, agora, votam para acudir seus interesses, como no caso do Projeto de Lei nº 4.330/10. Só muita mobilização popular pode conter essa avalanche conservadora. E sua responsabilidade é no mínimo maior do que a dos trabalhadores que perceberam o risco na hora de votar e hoje, ao menos, podem se orgulhar dos seus deputados.
Fernando Tolentino

sexta-feira, 13 de março de 2015

DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?



É quase chover no molhado lembrar que a eleição de 2014 foi uma guerra.
Depois de eleições concorrenciais em que Lula foi derrotado (1989, 1994 e 1998) e na que ganhou para José Serra (2002) e surpreendeu as classes abastadas do País, foram assim todas as que se seguiram: a da reeleição de Lula (2006), em que se tentou “sangrá-lo” durante três anos; e a da eleição de Dilma (2010), de que vale lembrar o jocoso episódio do atentado em que Serra teve que ser socorrido após ser vitimado pelo arremesso de uma bolinha de papel.
É compreensível. Não dá pra dizer que fossem eleições em que explicitamente se enfrentaram classes sociais, mas assim foram vistas pelos segmentos endinheirados da sociedade. Afinal, era simbólico que enfrentassem um candidato egresso do operariado e da luta sindical, um ex-retirante, sem formação superior. Na sua sucessão, uma ex-guerrilheira, ex-presa política e, como agravante, uma mulher. Não era só isso, esses candidatos traziam a marca do Partido dos Trabalhadores, tinham o apoio dos movimentos sociais mais mobilizados e empunhavam um programa de mudanças, ainda que não radical.
 Se isso já era suficiente para alarmar os grupos que se beneficiam do Estado desde 1808 (em alguns casos desde 1500), insuportável era ver a liderança do Poder Executivo permanecer em mãos de militantes do PT durante 12 anos. Mesmo que o arranjo de forças políticas que os sustentassem não tenham permitido que se pusesse um fim na drenagem de recursos públicos em favor dessas classes.
 A antevisão de mais quatro anos com Dilma Rousseff, fechando um ciclo de 16 anos e abrindo espaço para outros tantos, era o suficiente para levar à beira do infarto esses setores dominantes da sociedade.
Basta lembrar alguns detalhes. A cúpula do Poder Judiciário estará renovada, pouco restando da herança do período anterior. O novo período de governo poderia permitir que o PT ingressasse no fechado clube do Tribunal de Contas da União. Abria-se espaço para uma consolidação dos movimentos sociais, que poderiam ganhar condições de maior influência nas políticas públicas. Esse longo tempo de governos sob a direção política do PT tenderia a transformar em irrevogáveis os seus vários programas de distribuição de renda e seria fatalmente moldado um novo desenho na sociedade brasileira. Talvez mais do que tudo isso, um governo sob a liderança petista faria a condução da exploração do Pré-Sal, colocando a Petrobras e o Brasil no grupo dos grandes produtores de petróleo do mundo. Não bastante, o novo governo seria eleito com o resgate de bandeiras muito caras à esquerda brasileira, como a reforma política (com financiamento exclusivamente público de campanhas) e a regulamentação da mídia.
Na retaguarda dessas classes abastadas do Brasil, está a sombra da política hegemonista dos Estados Unidos. Não é apenas o Brasil que tem um governo identificado com teses de esquerda na América Latina. Já estão neste campo a Bolívia, o Uruguai, a Venezuela, a Argentina e mais recentemente o Chile, para não falar de países de menor potencial econômico e militar. Aos olhos estadunidenses, o Brasil surge como um fiador político da manutenção da democracia nesses países.
É pouco? Lembre-se que o Brasil passou a integrar, no período petista, o grupo de países efetivamente emergentes, já se situando como sétima economia mundial e a caminho de subir novos degraus nesse ranking. Com uma política externa independente, articula-se com os outros países que realmente crescem no mundo (China, Índia, Rússia e África do Sul) e constitui o BRICS, um bloco que ameaça a hegemonia dos Estados Unidos e o próprio dólar como padrão monetário internacional.
O Brasil, com o PT, revela-se cada vez mais como um país que fala alto no cenário internacional. Pior, sua articulação com aquelas potências emergentes e a postura solidária com diferentes blocos de países menos desenvolvidos leva a que eles sintam-se em condições de se apresentarem nos fóruns internacionais com os peitos inflados e os narizes erguidos.
COMO SE MUDA UM RESULTADO
Ninguém pode esquecer a decisão absolutamente insólita da Veja de antecipar em três dias o lançamento da edição que circulou pouco antes do segundo turno, com uma capa cuidadosamente desenhada para influir no resultado eleitoral. Uma denúncia alarmante, a que não se teria como responder tempestivamente, baseada em uma informação que jamais veio a se confirmar. A de que Dilma e Lula teriam sido citados na delação premiada de presos envolvidos em corrupção na Petrobras. A “verdade” da Veja foi intensamente repercutida na grande mídia brasileira, especialmente nos veículos do grupo Globo. No domingo da eleição, a capa da revista, reimpressa aos milhões, foi distribuída em várias capitais. Foi como a multiplicação por mil megatons do episódio da filha que Lula teria rejeitado, em 2002. Uma armação recentemente confessada por seu autor.
Nem esqueçam que não ficou nisso. No dia da eleição, as emissoras de rádio de quase todo o País repetiram insistentemente o boato matreiramente veiculado em redes sociais de que o denunciante citado pela Veja, ainda que preso, teria sido envenenado pelo PT.
Quantos por cento dos eleitores teriam sido contaminados por essas duas ondas de mentiras? Avalia-se que não menos de oito por cento dos eleitores de São Paulo, o contingente de maior número no Brasil.
Ao se aproximar o fim da apuração, Aécio Neves chegou a reunir seus cardeais, entre outras celebridades, e teria havido uma comemoração precoce, desmentida pelo resultado final. No mínimo o portal UOL chegou a publicar a sua vitória.
Ninguém imaginava que fosse diferente, em uma eleição tão ideologicamente polarizada quanto aquela. Dilma fez a disputa ornamentada por uma sopa de letrinhas: PT, PMDB, PSD, PP, PR, PROS, PDT, PCdoB, PRB. O primeiro turno teve dez concorrentes, dos quais sete saltaram para o palanque de Aécio no segundo turno. A única exceção foi Luciana Genro, que não apoiou Dilma, mas seu partido recomendou que não se votasse em Aécio.
Somente a soma dos votos obtidos por Marina Silva no primeiro turno já davam a Aécio a expectativa de mais de 57 milhões de votos, cerca de 6 milhões a mais do que realmente teve. O que se viu, no entanto, mesmo enfrentando toda essa unidade dos opositores e o exacerbado (e nem sempre ético) respaldo da grande mídia, foi Dilma dar um pulo, de 43.253.800 para 54.483.045. Mais de 11 milhões de votos, representando cerca de 10% dos eleitores.
E daí? A estreita diferença de votos permitiu que se instalasse o mantra na grande imprensa de que o Brasil saíra dividido da eleição. Não faltou quem traçasse linhas divisórias entre as regiões e buscasse responsabilizar programas sociais pela vitória de Dilma, mesmo as evidências desmentindo tais análises.
As semanas seguintes viram ódio escorrer de olhos e lábios de eleitores idiotizados pelo nível em que se fez a campanha aecista e pelo estímulo à atitude preconceituosa insinuada pela grande mídia.
O DNA golpista da candidatura de Aécio Neves não esperou para se manifestar. O PSDB tentou questionar a contagem dos votos e, como não conseguisse nada, tentou impugnar o resultado.
ONDE SURGE O GOLPISMO
Essa postura e o resultado mais estreito que em derrotas anteriores estimularam duas vertentes de inconformismo. Um grupo resolveu simplesmente melar o jogo e, de uma tentativa inicial de questionar o resultado, partiu para uma campanha pura e simples de derrubar a presidenta da República. Lançou a campanha do impeachment, esgrimindo falsamente o que constaria de delações premiadas que a grande mídia passou a dar como ocorridas. A insistência foi tamanha que de nada adiantou a abertura da verdadeira lista de políticos citados pelos presos. Há sete petistas e sete pemedebistas, ao lado de 32 políticos do PP, além de um do PTB e um do PSDB.
Não consta qualquer menção a Dilma ou mesmo a Lula e, paradoxalmente, constava o de Aécio, retirado por ponderação do procurador geral, por se tratar de denúncia relativa a episódio de outra estatal. Por outro lado, as denúncias evidenciam que o processo teria se originado no governo de Fernando Henrique, do PSDB. Mais, que a roubalheira teria sido viabilizada por decisão de seu governo, quando eximiu a Petrobras de fazer aquisições passando pelo filtro da Lei de Licitações.
SÓ SE VÊ O QUE SE QUER
Nada disso adianta. Não se quer fatos, mas resultados. Ou seja, anular a eleição de 2014.
O outro grupo já não se prende à eleição de 2014. Tenta antecipar a disputa de 2018, abrindo claramente o jogo de que pretende “fazer Dilma sangrar” durante os próximos quatro anos. Em outras palavras, não permitir que ela governe. Esse grupo aproveita o fato de que o resultado obtido por Dilma ficou muito distante das eleições legislativas.
Aquela sopa de letrinhas desenhou-se de forma totalmente diferente nas eleições estaduais e grande parte das legendas que nominalmente apoiavam Dilma, juntaram-se a candidatos adversários do PT em nível regional.
Em um pleito mais marcadamente influenciado pelo poder econômico que em quaisquer dos anteriores, elegeram-se composições nitidamente conservadoras para a Câmara dos Deputados e para o Senado. Ou seja, Dilma tem uma base de apoio aparentemente forte, se olhada pelas plaquetas de partidos levantadas pelos parlamentares. E assim, por sinal, é compelida a retalhar a composição dos cargos de governo. Mas não conta com essa sustentação para as medidas que precisa aprovar.
A fragilidade dessa base se torna muito maior se ela for mantida no canto do ringue, constantemente ameaçada de perda do mandato.
No meio desse lodaçal de políticos fisiológicos e vinculados a poderosos grupos econômicos, está uma grande quantidade de parlamentares disposta a usar essa fragilidade de apoio para mercadejar interesses inconfessáveis.
O QUE ESTÁ REALMENTE EM JOGO
É nisso que crê a grande mídia. É essa a estratégia da oposição. É a isso que serve a disseminação do ódio. Nesta semana, diante da sanção de Dilma à importante lei que tipifica o feminicídio, definindo-o como crime hediondo, um juiz federal espalhou na rede Facebook uma piada de péssimo gosto, em que sugere que os brasileiros quem matar Dilma. Na véspera, justamente quando se comemorava o Dia Internacional da Mulher, uma charge de Chico Caruso, no jornal O Globo, tem o mesmo conteúdo.
E há quem diga que não falta o encorajamento de interesses externos. Basta dizer que a processo da Petrobras tende a impedir que contrate qualquer empreiteira brasileira, sendo forçada a buscar serviços em empresas de outros países.
Quem preferir não precisa entender.
Mas cada brasileiro estará dividido neste fim de semana. E certamente durante mais algum tempo. Participa das manifestações convocadas pela oposição para o dia 15 e favorece o golpe e, no mínimo, a inviabilização do funcionamento do País. O golpe significa em primeiro lugar a ruptura com a ordem democrática, com consequências imprevisíveis. Quem viveu ou se informou sobre o que se passou a partir de 1964 tem uma ideia clara de até onde podemos ir. Representa também o encerramento de uma fase de conquistas dos trabalhadores e setores populares, o fim de programas sociais que reduziram as disparidades sociais e permitiram que milhões de famílias vislumbrasse um novo tempo. Desfaz a esperança de que o Brasil possa ter mudanças fundamentais inclusive para que não continuemos a conviver com a corrupção sempre de braços dados com a política, pela garantia da investigação de toda e qualquer denúncia que apareça, mas principalmente por mudanças fundamentais na ordem institucional, como a reforma política e a democratização do sistema de comunicação. Enfim, retira o poder de iniciativa política de Dilma Rousseff e o entrega para as forças que elegeram os presidentes da Câmara e do Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos envolvidos até o pescoço com a corrupção, inclusive na Operação Lava-Jato. São esses os que vão marchar no dia 15.
Ou se levanta para defender a democracia (e o resultado das urnas), a Petrobras e os interesses nacionais e populares. Quem tiver estes compromissos está convocado para as manifestações da tarde de hoje em todo o Brasil.
De que lado você está?
Fernando Tolentino