quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PERA LÁ! NÃO TENTEM TIRAR O POVO DO CAMINHO



Adianta muito o comandante do Exército, general Eduardo Vilas Boas afirmar que foi superado o episódio envolvendo as declarações do general Antonio Hamilton Mourão na Casa Maçônica Grande Oriente? Ou o atoleimado Raul Jungmann (ministro da Defesa?) declarar oficialmente que não há indisciplina no Exército?
Ou muito menos o general Mourão dizer que foi mal interpretado, suas declarações foram colocadas fora de contexto ou o episódio exagerado?
Até aí a discussão ficaria limitada a questionar se seriam bravatas de um militar irresponsável, se ele mentiu na palestra ou ao se considerar mal interpretado.
O que não faltou foi clareza ao falar para os seus amigos maçons.
“É óbvio que, quando nós olhamos com temor e com tristeza os fatos que estão nos cercando, a gente diz: ‘pô, por que não vamos derrubar esse troço todo?’ Na minha visão – e aí minha visão coincide com a dos companheiros do Alto Comando do Exército – nós estamos numa situação daquilo que poderíamos lembrar lá da tábua de logaritmo, de aproximações sucessivas, até chegar um momento em que ou as instituições solucionam o problema político pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso.” Ou seja, se falava em nome pessoal (e não podia ser diferente), dizia revelar o que seria um consenso do Alto Comando.
Seria o suficiente. Mas não ficou nisso. Afirmou que já um planejamento e lançou o que pode ser visto como uma ameaça ao Legislativo, ao Executivo (a quem o Exército deve subordinação) e ao Judiciário: “os Poderes terão que buscar a solução. Se não conseguirem, chegará a hora em que nós teremos de impor uma solução.”
Mas o retorno da síndrome autoritária ao menos de parte do oficialato superior já fora antecipado pelo general de Exército Maynard Marques de Santa Rosa em artigo (“é hora da reação”) publicado na página oficial do Exército no início deste mês.
Na sequência do que poderia no mínimo ser qualificado como um disparate do general Mourão, vieram as reafirmações.
O coronel Sérgio Paulo Muniz Costa, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, após uma menção indireta a Lula, diz que as palavras do General Mourão expressam uma unanimidade do Alto Comando”. Unanimidade é forte, né?
O general Paulo Chagas também reafirma as colocações de Mourão e deixa perceber a contradição que orienta a linha de raciocínio dos militares. Afirmando que o Exército “só agirá dentro da lei e com legitimidade”, mas se referindo a que, “na hipótese extrema de desordem total de perda do controle da situação pelas autoridades constituídas” – e faz referência a que “seria este o objetivo claro da esquerda bolivariana” – “os militares não poderiam ficar inertes, aguardando ordens” (e questiona “de quem?”), como se isso não estivesse perfeitamente delineado na tal LEGALIDADE, ou seja, a Constituição. Isto é, quando diz que “as FFAA, terão que tomar a iniciativa de restabelecer o controle da situação e, principalmente, a legalidade e a ordem”, essa iniciativa significa rasgar a Constituição, que não a autoriza, ao deixar claro que as Forças Armadas só se mobilizam na estrita subordinação ao presidente da República. Em outras palavras, fala em avançar do golpe institucional para o GOLPE MILITAR.
Não é diferente o teor da carta encaminhada pelo general de brigada Paulo Chagas ao senador Randolfe Rodrigues (Rede).
Mas o mais grave, observa a jornalista Mírian Leitão, na sua coluna em O Globo, é que o próprio general Vilas Boas, comandante do Exército, tentou desanuviar a tensão em entrevista em programa de Pedro Bial e, na verdade, reafirmou o que Mourão e os demais subordinados têm asseverado.
HÁ MUITO COM O QUE SE PREOCUPAR
De um lado, os militares referem-se enfaticamente à questão da corrupção e não deixam de evidenciar que isso se espalha pelo Executivo e pelo Legislativo. Não há novidade. Essa linha de argumentação, que aproxima uma eventual intervenção do atendimento a um clamor público, estava também na base do movimento militar de abril de 1964. De outro, pelo menos duas manifestações citam o que seria a “esquerda bolivariana” e indiretamente o ex-presidente Lula.
Pois é significativo que essas manifestações ocorrem em um momento particularmente rico do processo político brasileiro.
As forças políticas hegemônicas no Poder Legislativo e no Executivo desdenham da impopularidade do projeto que os fez afastar a presidenta eleita Dilma Rousseff e investem justamente contra os compromissos que ela levou à campanha de 2014, quando Michel Temer se travestia de seu companheiro de chapa.
Não se trata somente de que os entrevistados da recentíssima pesquisa CNT/MDA tenham atribuído uma avaliação positiva de mirrados 3,4% para o governo Temer. Ou de que o vejam com desesperança em todos os quesitos apurados: expectativa de melhora com relação ao emprego em magros 25,7%, à renda em 22,1%, à saúde em 21,1%, à educação em 25,0% e à segurança pública em 16,6%.
Mais eloquente é a posição de 80% contrários às reformas que são executadas pela coalização de Temer e a sua base própria com as forças que apoiaram a candidatura derrotada de Aécio Neves em 2015, à frente o PSDB. Ou seja, a verdadeira definição do golpe, uma união entre os derrotados eleitoralmente e o vice-presidente que traiu a presidenta eleita a afastou.
Em outras palavras, mesmo parte substancial dos que votaram em Aécio (a maioria deles) são hoje contrários ao programa que o fez candidato. Mesmo assim, é este programa que o Executivo e a nova maioria do Legislativo impõem ao País.
A ESCOLHA DO CAMINHO (QUE OS GOLPISTAS TEMEM)
Não é por acaso que o nome de Lula se mantém em franco crescimento como opção para presidente da República (32% a 32,7%) e o maior forte nome do PSDB (João Dória) esbarra em 9,4%, em quarto lugar, enquanto Aécio não passaria de 3,2%. Ou que cede progressivamente a sua rejeição, mesmo a pesquisa CNT/MDA tendo sido aplicada justamente nos três dias que se seguiram ao seu último depoimento ao juiz Moro. Embora alta, a rejeição ponderada de Lula é hoje a menor entre todos os nomes citados, com 50,8%. A maior é justamente a de Aécio (72,5%) e a mais próxima é a de Jair Bolsonaro, 52,2%.
Em cinco cenários de um hipotético segundo turno, Lula aplicaria goleadas em todos os eventuais adversários, com diferenças de 27% sobre Aécio, 17,3% com relação a Geraldo Alckmin, 16,4% para João Dória, 14% para Marina Silva e 12% diante de Bolsonaro.
Em outras palavras, isso indica que a sociedade começa a escolher o caminho para dar um fim à balbúrdia. Para enfrentar a corrupção? Não especificamente, mas o que mais lhe preocupa, a perda de direitos e de uma dinâmica na economia que garanta crescimento e empregos. É isso que a população vê em Lula, pois foi isso o que teve nos seus dois governos e boa parte do primeiro mandato de Dilma, mesmo que a crise econômica internacional tenha eclodido em 2008, metade do segundo mandato de Lula.
Há três principais grupos entre os virtuais eleitores de Lula.
Os que simplesmente reagem às acusações bombardeadas diariamente em jornais, rádio, TV e quantas outras mídias sejam controladas pelo capital monopolista. Fazem a leitura (ideológica) de que há uma tentativa para inviabilizar a sua candidatura judicialmente, com a sua condenação (por meio de processos que até hoje não têm provas) ou eleitoralmente, se não conseguirem a sua condenação em tempo. Avaliam que a guerra midiática tem em vista também tentar prejudicar a condição de Lula como o “grande eleitor”, aquele que, caso não concorra, terá condições de indicar o vencedor.
O segundo grupo é o dos que não acreditam nas acusações. De tão reiteradas pela grande mídia e sem que qualquer prova seja exibida, chegam à conclusão de que ocorre tão somente uma peleja, uma birra: de um lado, o juiz Moro e seu grupo; de outro, Lula. Ou entre os órgãos de grande imprensa e Lula. O que mais ajuda nessa compreensão é que, com a fartura e nitidez de provas contra outras personagens (Aécio, Cunha, Loures, Temer, Geddel, as esposas de Cabral e Cunha, entre outros), seus nomes saem rapidamente dos noticiários e não raro desaparecem também os sinais de que as investigações prosseguem.
O terceiro grupo é o que poderia estar preocupando quem tem posição de princípios contra a corrupção, entre eles os militares, embora na condição de cidadãos. Tal é o afã com que querem encontrar uma saída para a crise nacional que esse grupo sequer vê como grave uma possível culpa de Lula em processos de corrupção. Inclusive porque consideram as acusações desproporcionais com relação aos outros personagens implicados nos processos.
É o conhecido “rouba, mas faz”. Fui abordado por um simpatizante de Lula que me trouxe esse tipo de raciocínio quando busquei atendimento em uma casa de saúde de Brasília há poucos dias. Nem adiantou que eu tentasse questionar a culpa de Lula. O seu argumento era de que “isso não importa, ele é quem pode resolver a situação do País e trazer de novo emprego e crescimento”.
A gravidade disso é porque deseduca o eleitor. Transforma a corrupção como algo que é inerente à política e, se assim é, que se entregue o Brasil a quem pelo menos pode oferecer resultados à sociedade. Mas fica, na raiz, uma visão descomprometida com a realização de uma política sadia, voltada exclusivamente para os interesses da sociedade.
O POVO NÃO QUER ABRIR MÃO DA SAÍDA QUE VISLUMBRA
É verdade que – no desaparecimento do PSDB e na desqualificação também do PMDB, seguidos pelos partidos e políticos de prática política mais vinculada – cresce um eleitorado, ainda que minoritário, descomprometido com a democracia, mas fortemente avesso a Lula e ao PT ou mais genericamente à esquerda. É o grupo que vem nutrindo a candidatura radicalmente conservadora de Bolsonaro. Hoje, é o único nome que efetivamente cresce nas sondagens de opinião pública. Mas é notório que não escape da rejeição que contamina os políticos no seu conjunto e aparentemente ainda não tenha chegado ao limite do seu crescimento. Além do que dele não se aproxime boa parte dos eleitores conservadores.
Mas o fato é que Lula é o único a crescer diante do que talvez tenha sido a maior guerra midiática contra o nome de um político em toda a História do Brasil e não duvidem de que tenha sido o caso mais eloquente de linchamento pessoal do mundo.
É em face disso que preocupa o surgimento de uma onda que ameace com a intervenção militar, explorando claramente a insatisfação da sociedade com a questão da corrupção, mas sintomaticamente omissa com relação à questão social e econômica e, ao mencionar ou insinuar algum antagonismo político, demonstra que isso está na justamente na esquerda e em Lula.
É preciso estar atento ao conjunto do que revela a pesquisa CNT/MDA e, particularmente, uma novidade na apreciação do momento político da sociedade. Somente 5,03% declararam ter participado de manifestações pela saída de Dilma: 45,3% de 9% que estiveram em alguma manifestação desde 2013. Mas 30,8% têm intenção de participar de alguma manifestação pela saída do presidente Michel Temer.
Ninguém deixe de considerar a combinação desse indicador com o crescimento de Lula, a redução da sua rejeição e a avaliação programática do governo Temer, inclusive a condenação das reformas que são introduzidas por PMDB, PSDB e partidos coligados.
O povo sabe o que não quer, espera pela saída eleitoral e começa a identificar o caminho. Mas ninguém imagine que abre mão da esperança.
Fernando Tolentino

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

LULA PELO BRASIL. TRADUÇÃO: ESPERANÇA



De uma coisa se pode ter certeza, o brasileiro sabe muito bem ler a palavra ESPERANÇA.
Este é o real sentido das caravanas LULA PELO BRASIL, que tem o seu primeiro trecho na marcha da Bahia ao Maranhão, atravessando todo o Nordeste.
Começou como uma boa ideia, inspirada nas caravanas de pré-lançamento da campanha de Lula à Presidência em 2002.
Quando realmente se iniciou, a partir de Salvador, mostrou um potencial arrebatador que nem os seus próprios organizadores poderiam prever. A ponto de virar alvo de oportunistas na passagem por Feira de Santana, quando prefeitos do PMDB e do DEM – partidos que não apoiam sequer o governo liderado pelo petista Rui Costa – enfiaram-se na fila dos inúmeros colegas que aguardavam uma foto junto a Lula. O faro político deixou claro para eles, como chegaram a confidenciar, que essas fotos serão peças indispensáveis para quem quiser pedir voto no momento de renovarem os seus mandatos, em 2020.
Qual o momento mais tocante na trajetória de Lula na Bahia e em Sergipe? O reencontro com o jovem Éverton, personagem de flagrante que virou a foto simbólica de sua campanha em 2002? A devolução a Lula do cartão do Bolsa Família pela jovem Iva Mayara em Aracaju? O agradecimento do agora estudante de Medicina sergipano Magno Prado (foto), ex-guardador de carros no Iate Clube de Aracaju? O momento em que não resistiu e foi às lágrimas ao lembrar as perdas de Marcelo Déda, José Eduardo Dutra e sua esposa Marisa Letícia?  
O mais representativo foi ver o “trancaço” na estrada, impedindo que a caravana prosseguisse sem que antes Lula descesse do ônibus para falar ao povo. Foi significativo por se tratar de uma movimentação não previamente programada pelos organizadores. Mais ainda por mostrar que não adianta a grande mídia tentar transformá-la em uma “caravana secreta”. Por mais incrível que possa parecer, a movimentação de Lula pelo Nordeste só atrai a atenção da imprensa internacional, chegando a ocupar página inteira no jornal francês Le Monde, ao mesmo tempo em que é praticamente desconhecido por órgãos de imprensa brasileiros.
Esse episódio desmente a apatia que vinha caracterizando atos convocados para protestar contra a perda de direitos conquistados há décadas pelos trabalhadores do País.
A verdade é que os brasileiros querem ter esperança. E leram isso quando Lula resolveu procurá-los diretamente, falar para eles e mostrar que existe uma chance de virar o jogo.
O PRIMEIRO CHOQUE DA ESQUERDA
A caravana passa. Dá até pra dizer que enquanto os cães ladram, como reza o ditado popular. Ao tempo em que junta multidões e Lula leva jovens e idosos às lágrimas com a emoção de encontrá-lo, o prefeito de São Paulo abandona suas obrigações na capital paulista à cata de holofotes em reuniões com grupos de empresários e políticos do Nordeste.
Mas as andanças de Lula acabariam por arrepiar a esquerda na sua chegada a Alagoas. Ali, encontraria a lhe esperar ninguém menos que o senador Renan Calheiros, do PMDB. Não bastante, era também aguardado pela senadora Kátia Abreu, a quem Lula recepcionou com a promessa de apoio à sua candidatura ao governo de Tocantins.  
Alguém chamou Renan ou Kátia de esquerda?!
Renan é um político de trajetória oscilante, originando-se nas margens da esquerda, apoiando declaradamente o também alagoano Fernando Collor desde a sua candidatura até o mandato e integrando o ministério de Fernando Henrique Cardoso. O senador apoiou Lula na maior parte de seus dois governos, o que voltou a ocorrer com Dilma Rousseff. No episódio do “impeachment”, não se pode dizer que tenha sido um golpista eufórico, até por seu conhecido antagonismo com o então presidente da Câmara Eduardo Cunha. Nada disso torna Calheiros um político menos polêmico, acusado de corrupção em diversos processos. Tão questionado que o silêncio da grande imprensa do Sudeste sobre a caravana de Lula foi momentaneamente rompido para noticiar o encontro.
Kátia Abreu é uma política de notório distanciamento ideológico com relação ao PT. Liderança ruralista, chegou a presidir a poderosa Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Teve os seus primeiros mandatos pelo PFL e DEM e foi forte crítica dos dois governos de Lula e da candidatura de Dilma em 2010, quando chegou a ser cotada para integrar a chapa de José Serra. Posteriormente, aderiu ao governo de Dilma, tornou-se sua ministra da Agricultura e, já filiada ao PMDB, mostrou-se sua ferrenha defensora no episódio do afastamento da presidenta. Adiante, faria persistente oposição a Michel Temer e viria inclusive a votar contra os suas reformas. Uma atuação tão nítida de proximidade com as bancadas oposicionistas que foi pedida a sua expulsão do PMDB, juntamente com a do senador paranaense Roberto Requião.
Se não se quer aceitar a parceria de Renan ou Kátia (ou Renan e Kátia) como indicativos de afinidades ou coerência, que seja como reveladores da força política de Lula como o maior cabo eleitoral da atualidade. E não só no Nordeste, pois a base de Kátia Abreu está em Tocantins, estado em que o PT não tem nenhum deputado federal.
FINALMENTE A EXPECTATIVA DE REAÇÃO
Certo é que o movimento LULA PELO BRASIL não deve ser visto apenas como uma manobra eleitoral.
Desde que arrefeceram as manifestações pelo FORA TEMER, por DIRETAS JÁ e por NENHUM DIREITO A MENOS, o movimento popular não tem tido grandes razões para superar a sua quase depressão, diante da constatação de que a indignação da opinião pública não supera a atitude de perplexidade com o poderio do presidente que se impôs.
Manipulando uma política de distribuição de cargos públicos e verbas parlamentares, combinada como generosas concessões de benefícios e privilégios para grupos econômicos que dirigem as bancadas no Congresso, Temer tem nadado de braçadas, a ponto de frustrar o assanhamento do deputado Rodrigo Maia com o sonho de alçar-se à Presidência com a deposição dele e demonstrar que o grupo Globo de comunicação pode muito, mas não pode tudo, tendo que sujeitar-se à sua permanência. Tudo isso desdenhando uma rejeição inédita na opinião pública. Só não conseguiu ainda a certeza de aprovar a chamada reforma da Previdência, mesmo assim por requerer o quórum privilegiado de mudança na Constituição.
Ao lado disso, o judiciário se mostra inteiramente alinhado com o governo de Temer, preferindo omitir-se diante de qualquer questionamento de legalidade ou até chancelar as suas decisões.
E o que se tem diante de tal hegemonia? Quais as armas para esgrimir com quem demonstra tamanho poderio?
Quem primeiro soube ler foram os detentores tradicionais dos poderes econômico e político.
As sondagens de opinião pública permitiam observar um rumor difuso, mas aparentemente consistente: “Não adianta, Lula vem aí.”
Essa é a primeira leitura da reação popular diante da caravana do LULA PELO BRASIL. A rejeição ao governo Temer está nas ruas. E é uma reação ao que se dá hoje: desemprego crescente, perda de valor dos salários, retirada de direitos mínimos dos trabalhadores, perspectiva concreta de perda de direitos previdenciários, falta de recursos para a prestação de serviços públicos indispensáveis, risco de negação ainda maior de assistência pública de saúde e educação, para não falar de entrega e desnacionalização do patrimônio nacional. Além disso, a escandalosa concessão de privilégios aos detentores de grandes capitais e propriedades: os ruralistas, o setor financeiro e os grandes empresários.
O governo golpista se propôs desde o início a tática do “fogo de saturação”, como a usada por forças militares, intensificando de tal forma o ataque que não dá espaço para os inimigos se reorganizarem ou tomarem fôlego para reagir. Daí porque o Congresso nunca funcionou tanto, os parlamentares abrindo mão de períodos em que habitualmente não permanecem em Brasília e aprovando medidas em grande profusão e tempo recorde.
Com isso, os diferentes grupos populares atingidos pelas medidas não conseguiram se reagrupar e opor resistência.
O primeiro momento de efetiva reação popular crescente e manifesta vem com o circuito de Lula pelo Nordeste. É natural o surgimento da convergência de políticos, que têm faro inigualável para a movimentação da opinião pública, especialmente quando ocorrem em suas bases.
O fundamental, em cada caso, é ter claro quem busca apenas aproveitar-se, como muitos dos prefeitos interessados em “selfies” com Lula, quem vai efetivamente caminhar junto, até onde vai e em que circunstâncias.
Afinal, isso pode representar um relativo fortalecimento, ainda que eventualmente por meros interesses eleitoreiros, da reação às medidas antipopulares do governo golpista. Renan e Kátia podem ser uma sinalização disso. Estamos em condições de rejeitar essas companhias?
É preciso atentar para o que a História ensina. De qualquer dos lados, nos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra, teriam os norte-americanos ou os britânicos ficado indignados por terem vistos as tropas de seus países lutando contra os adversários da União Soviética? Os comunistas afrontaram Stálin por ter o Exército Vermelho combatido os inimigos da Inglaterra e dos Estados Unidos?
Quantos incriminaram o revolucionário Luís Carlos Prestes, após 1945, ao vê-lo no mesmo campo de Getúlio Vargas, esquecendo o destino de sua própria companheira Olga, grávida, entregue aos nazistas?
Ao ver políticos conservadores aproximarem-se de Lula, o indispensável não parece ser a rejeição da companhia, mas ver se afastam-se da política de destruição de direitos do governo golpista, das tentativas de entrega do patrimônio nacional. Ou, principalmente, se há compromissos sendo preteridos por Lula ou pelo PT.
NENHUMA MANOBRA
À identificação de que crescia a preferência pelo nome de Lula e caía a sua rejeição, as forças de direita entenderam que era preciso reagir e fazê-lo com celeridade.
São oferecidas alternativas eleitorais que pretendem ocupar o espaço da ausência do nome de Lula na disputa ou que experimentem crescimento suficiente para enfrentá-lo caso não seja possível impedir que concorra.
A tática mais segura para esses grupos ora hegemônicos é não permitir que Lula seja candidato. Não bastaria o juiz de Curitiba oferecer a perspectiva de desgaste da figura pública de Lula, pois ocorria justamente o contrário. Seu nome crescia ao ser agredido. Era como se parte considerável da população percebesse que não era pessoalmente a Lula que se queria atingir, mas à sua perspectiva de enfrentar os seus inimigos.
Daí, entende-se como indispensável impedir que Lula seja candidato. Veio a sua condenação em primeira instância e a promessa de avançar nessa direção em instâncias mais acima.
Alternativas são maquinadas pelos alquimistas da direita. Como a implantação do parlamentarismo, que impediria Lula de governar caso viesse a ser eleito. Como uma reforma político que garanta uma maioria parlamentar semelhante à atual composição do Congresso, comprometida com os grupos econômicos hegemônicos. Ou até como o adiamento de eleições.
Para qualquer dos casos, a reação popular tem demonstrado ser uma arma poderosa. Ainda há seis estados para a caravana percorrer, considerado apenas o trecho nordestino. Mas já está claro que não é simplesmente uma manifestação de simpatia ou de gratidão. É a declaração manifesta de que o brasileiro precisa de esperança, identificou um caminho e quer deixar claro definitivamente que ELEIÇÃO SEM LULA É FRAUDE.
Fernando Tolentino

segunda-feira, 17 de julho de 2017

“SEU ÔNIBUS NUNCA VAI CHEGAR!”



A frase do título foi ouvida por Stevam Gomes Cerqueira Filho, guarda-volumes em Curitiba , quando, sem ter onde morar, completava um ano dormindo em bancos da rodoviária da cidade, trocando diariamente de lugares para enganar a fiscalização.*
(A matéria está na edição mais recente de Carta Capital - https://www.cartacapital.com.br/revista/960/stevam-o-ex-morador-de-rua-que-acolhe-migrantes-em-curitiba)

No dia 12, o ocupante do Palácio do Planalto fez uma solenidade para comemorar (imagine o cinismo!) a sanção da reforma trabalhista, que estará valendo plenamente dentro de 120 dias. As mudanças, que praticamente jogam no chão as conquistas da CLT (que é de 1º de maio de 1943) e as que a aperfeiçoaram, como a lei do 13º Salário (julho de 1962), a inclusão dos direitos na Constituição de 1988 e a lei que, em 2015, estendeu aos domésticos os direitos dos demais trabalhadores.
Os golpistas puderam se abraçar no salão nobre do Palácio sem que isso chamasse muito a atenção dos prejudicados pela medida. A grande mídia teria as manchetes ocupadas pela condenação do ex-presidente Lula pelo juiz de primeira instância do Paraná. O relatório estava pronto desde junho. Por que a condenação não foi na segunda-feira? Por que não na semana seguinte? Ninguém consegue disfarçar que estava engatilhada para o dia em que os trabalhadores receberiam a terrível punhalada pelas costas. Uma tragédia ajudaria a esconder a outra.
A tal reforma trabalhista só vem completar o serviço da Lei de Terceirização, antes aprovada pelos golpistas, que possibilita a contratação indireta de praticamente qualquer tipo de serviço, assim descaracterizando inteiramente a relação entre trabalhadores e empregados.
Não bastasse, o governo que retirou a presidenta eleita Dilma Rousseff ainda trabalha para aprovar a reforma da Previdência, que deixaria os trabalhadores descobertos, sem esperança de atingirem o tempo para a aposentadoria antes da morte.  A proposta chegou ao Congresso com a exigência – entre muitas outras – da comprovação de 49 anos de exercício para o recebimento do chamado “salário integral”. Detalhe: não é igual ao recebido na vida ativa, mas equivalente àquele sobre o qual tenha contribuído. Para que haja alguma retribuição na aposentadoria, a exigência seria de 25 anos.
De tão drástica, o governo está fazendo algumas mudanças para tentar aprová-la. A exigência para o “salário integral”, por exemplo, baixa para 40 anos. Não resolve, pois esse tempo na carteira é quase inatingível com a nova legislação trabalhista. Mas essa reforma exige uma mudança na Constituição (contornada pela trabalhista), o que requer 3/5 dos votos de deputados e senadores.
FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO
A Lei das Terceirizações e a reforma trabalhista mostram que a mão do Poder Executivo não tem o mesmo peso para todos. Beneficiaram-se à larga os setores empresariais mais poderosos, que vêm na dilapidação ainda maior dos direitos dos trabalhadores a saída mais rápida para eventuais prejuízos causados pela crise econômica.
Antes, o governo golpista já vinha sendo escandalosamente generoso com os grandes veículos de comunicação e os grandes bancos. Com a reforma da Previdência, pretende justamente atender ao pleito do setor financeiro, criando um mercado adicional de vultosas proporções para os fundos de pensão. Com a fragilização do SUS, inclusive com o arrocho de investimentos públicos por 20 anos, abre maior espaço para os planos de saúde.
No mesmo momento em que enfia a reforma trabalhista goela abaixo da sociedade, o governo também atendia aos grandes fazendeiros. Muitos deles já em plena farra, com a possibilidade de ampliar o desmatamento.
Por outro lado, jorram os benefícios para o capital internacional. Para citar apenas alguns caos, a Petrobras e o setor petroleiro vão tendo cortados importantes nacos, busca-se a aprovação de legislação que libere o limite de propriedades rurais para estrangeiros, abre-se a Base de Alcântara e libera-se a operação na Amazônia para militares dos Estados Unidos.
Tudo isso se dá com notória compra de apoio no Congresso Nacional.
Enquanto aprova o que combinou ao anular o resultado das urnas de 2014, o governo de Michel Temer atua para se manter no poder, mesmo após evidenciar-se que um dos fatores do êxito do golpe foi a proteção dos políticos corruptos que se articularam para empreendê-lo. O tal “estancamento da sangria”, de que falou o senador Romero Jucá, então presidente do PMDB e hoje líder do governo no Senado. A manobra que, segundo ele mesmo, deixou impregnado nas fitas gravadas pelo ex-senador Sérgio Machado, se daria “com o Supremo e tudo”.
Se é verdade que os processos ainda não estão conclusos, o certo é que o Judiciário não tem demonstrado a menor antipatia pelo esquema de corrupção instalado em torno de Temer.
Vítima do Judiciário é o Partido dos Trabalhadores e quem lhe é próximo, além principalmente de Lula, de quem se sabe que pode ser o elemento desestabilizador de toda essa tramoia. Por ter amplas condições de se eleger em 2018 e pela capacidade de mobilizar os trabalhadores desde já.
O senador Aécio Neves, pilhado com fartura de provas, teve garantido o seu retorno ao mandato, ainda emoldurado por generosos elogios do ministro Marco Aurélio Mello, enquanto os familiares comprovadamente envolvidos em seus atos de corrupção tiveram a liberdade restituída.
Liberdade também foi o prêmio para os envolvidos mais íntimos de Michel Temer, ainda que estivessem praticamente sufocados por provas tão enfáticas quanto uma mal com R$ 500 mil fixadas em um vídeo. O deputado Rocha Loures é uma homem hoje tão livre quanto o ex-ministro Geddel Vieira Lima. De Loures, dizia-se que não conseguiria segurar a língua, estando em vias de estrepitosa delação, possivelmente abortada pelo relaxamento de sua prisão.
Para não se dizer que fica nisso a orgia, a Polícia Federal começa a ser duramente contingenciada, até atando as mãos de investigações que podem chegar na intimidade do governo. A grande mídia parece não se escandalizar, tanto que a prisão de qualquer traficante de esquina obtém maior repercussão midiática que a apreensão de aeronaves que vinculam diretamente a responsabilidade de senadores e ministros, um esquecido helicóptero e, nos últimos dias, um avião, o primeiro com 450 kg e o último com 662 kg de pasta básica de cocaína.  
Quanto a Lula, é de pasmar que sua condenação não surpreenda o Brasil, embora questionada por várias das mais importantes vozes do mundo jurídico.  Até os ratos que chafurdam os esgotos de Curitiba sabiam exatamente qual seria a sentença da ação do juiz Moro contra o ex-presidente Lula. Aliás, os ratos é que mais sabiam mesmo, à exceção de algum rato analfabeto que vagueia pelas ruas da capital paranaense.
O senador Roberto Requião diz que condenação do Lula é como “prender alguém por assassinato de uma pessoa que está viva!”
Voltando ao mundo da caridade mais imunda, a que é feita com o nosso chapéu. Embora óbvio que entre os mais conhecidos pilares do governo Temer está o da corrupção, ele vem conseguindo se sustentar no ambiente do Parlamento. A provocação do procurador Rodrigo Janot, eivada de provas, e o parecer do relator, deputado Sergio Zveiter não foram suficientes para que o encaminhamento do seu caso fosse ao Supremo. Membros da Comissão de Constituição e Justiça foram substituídos e a distribuição de R$ 15,3 bilhões foi suficiente para Temer não ser derrotado nesse estágio.
Sequer adiantou que o próprio império das Organizações Globo tenha se colocado inesperadamente na sua oposição, talvez por entender que é preciso pôr em sua cadeira alguém capaz de crescer até as eleições de 2018, quando há o risco de Lula aparecer como candidato.
VOCÊ NÃO VALE NADA MESMO!
O maior risco de 2018 para os atuais vitoriosos é evidente: já não dá pra esconder da opinião pública a importância do voto para o Poder Legislativo.
O Executivo pode muito. Um exemplo significativo foi a aprovação, pelo mesmo Congresso de hoje, da legislação que beneficiou os trabalhadores domésticos, sancionados pela presidenta Dilma Rousseff em 2015.
Tanto pode muito que se deu a articulação para afastá-la da Presidência. Afinal, ela representava essa expressiva possibilidade de articulação de uma maioria no Legislativo (mesmo nunca demonstrando grande capacidade para isso ou o menor apetite para misturar-se com aquela gente). Tinha ainda o “poder de veto”, o de não sancionar o que viesse a ser eventualmente aprovado por um Congresso adversário.
Uma campanha sucessória fatalmente levará a essa discussão. Não adianta a maioria dos brasileiros expressar nas urnas apenas a intenção de ter um governo desenvolvimentista, comprometido com a inclusão social e solidário com os povos que, em outros países, também lutam para superar a condição de miséria. É indispensável que essa vontade se repita nos votos para deputados e senadores. Ou sua vontade será traída, como vem sendo atualmente. E traída a partir dos votos desses mesmos eleitores.
O ano de 2014 oferece uma notável oportunidade de virada história caso essa “lição de casa” seja aprendida.
Tudo é feito, especialmente no Judiciário e na grande mídia que lhe dá sustentação, para que não disponham do caminho mais curto os trabalhadores e os empresários que vivem de uma sociedade de economia crescente e descentralizada.
Mas é impossível assegurar a condenação de Lula, em segunda instância, sem que haja sequer uma prova para justificar isso.
Mais do que isso, como reconhece o poderoso Estadão (http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,condenacao-e-denuncia-ampliam-duvida-eleitoral,70001892010), nem mesmo impedido de candidatar-se Lula pode ser considerado uma carta fora do baralho, tal a sua influência política. Além disso, como reconhece a matéria, a centro-direita ainda não tem um candidato com viabilidade suficiente para enfrentar Lula ou mesmo o nome que indicar.
Se a campanha for suficientemente pedagógica, estará ao lado de Lula uma lista de candidatos que possam lhe dar efetivamente sustentação no Congresso Nacional. Com um detalhe: cada estado oferecerá duas vagas de senador no ano que vem, a possibilidade de substituir 2/3 da Casa.
Isso significa que as péssimas condições vividas pelos brasileiros neste ano podem não se repetir nas eleições de 2018. Parte do esforço dos grupos poderosos pode dar em água.
Mas isso depende de você. Da capacidade de, atento ao que vive atualmente, definir com clareza qual deve ser o seu voto. Isso vai dizer se, ao contrário de hoje, você vale alguma coisa.
Se o seu ônibus vai ou não algum dia chegar.
Fernando Tolentino
*A ilustração é do próprio Stevam Gomes Cerqueira Filho