terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O PT VOLTOU



Hoje é dia de comemoração para o PT. Uma comemoração muito maior do que supõem a sua direção e muitos dos membros de suas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
Passados 14 anos desde a vitoriosa campanha de Lula para presidente, o Partido dos Trabalhadores queimou uma grande quantidade da gordura acumulada desde a sua criação, em fevereiro de 1980.
O que o transformou no maior partido de esquerda da América Latina, condição que dirigentes e parlamentares gostam de destacar repetidamente, foi justamente o que foi negado nos últimos anos. O modo de ser diferente de partidos tradicionais, que seria a razão da sua inviabilidade na visão da velha política brasileira.
Sem se negar a disputar o jogo eleitoral, o PT surgiu como deve ocorrer com um partido de esquerda: na luta política das massas oprimidas.
Durante anos, o palco prioritário do PT foi a luta popular. Uma categoria profissional organizada dificilmente fez um enfrentamento sem a participação solidária de sindicalistas do Partido. Outras foram organizadas sob a liderança de trabalhadores a ele vinculados. Dessas refregas, surgiu a Central Única dos Trabalhadores. Petistas também se destacavam nas lutas de moradores por melhores condições de vida, na resistência diante do latifúndio, na organização das lutas dos estudantes, dos negros, das mulheres, dos homossexuais e onde o velho se confrontasse com o novo, o revolucionário.
A luta política propriamente dita – pela anistia ampla geral e irrestrita, contra o FMI e suas imposições à economia brasileira, pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte livre e soberana, por Diretas Já – tinha inevitavelmente militantes do PT junto com os de outros partidos de esquerda e personalidades ou instituições democráticas.
Enquanto esse Partido dos Trabalhadores crescia, mandatos parlamentares eram conquistados, em ritmo lento e consistente, assim como se anotou algumas vitórias em eleições para cargos executivos. Prefeitos e até governadores fizeram administrações que evidenciavam a consigna do jeito petista de governar. Isso significava forte estímulo à participação popular nas decisões governamentais, como nos orçamentos participativos.
Depois de três tentativas que serviram justamente para enraizar o discurso petista no seio do povo, Lula foi eleito em 2002 juntamente com uma bancada de 91 deputados, pouco mais de 17,5% da composição da Câmara.
É significativo o que ocorre com o PT no meio parlamentar a partir de então.
Após ver Fernando Collor eleito por sua legenda, o PRN tornou-se a quarta bancada da Câmara (40 deputados), embora sequer existisse quatro anos antes. Com José Sarney na Presidência, o PMDB elevou a sua bancada de 200 para 260 deputados, 53,39% do total. Com 38 deputados na eleição de 1990, o PSDB chegou a 63 no pleito em que Fernando Henrique Cardoso venceu pela primeira vez (1994) e a 99 deputados em sua reeleição (1998).
Pois o PT não agregou um único deputado no mandato inicial de Lula. Ao contrário, deu-se ao luxo de expulsar alguns e ver outros saírem, insatisfeitos com a convivência com o poder. Quatro anos depois, sua bancada minguou para 83 deputados. Cresceu modestamente em 2010 e chegou a 88, mas ficou em 70 deputados na eleição de 2014, 21 a menos que 12 anos antes, quando conquistou a Presidência da República.
Há dois aspectos a ressaltar nessa redução. O Partido negou-se à política de cooptação e portas escancaradas que marcou as passagens de PMDB, PRN e PSDB pelo Palácio do Planalto. Com isso, revelou a obsessão pelo republicanismo que marcou a sua trajetória pelo Poder Executivo. Mas também mostrou a sua ingenuidade nas disputas eleitorais, favorecendo flagrantemente os partidos que se declaravam como de sua base parlamentar. É certo que robusteceu legendas efetivamente solidárias com o seu projeto, como o PCdoB, mas deu fôlego a associações oportunistas ou de ocasião, permitindo ressuscitar o PMDB e dar corpo a grupos sem qualquer compromisso político, como PP, PTB, PR, PRB e, até, como se revelaria adiante, o PSB.
O que fica claro nessa nova trajetória do PT?
Esteve inquestionavelmente comprometido com o seu bem sucedido programa de inclusão social e de defesa dos direitos de trabalhadores e camadas médias da população. Saliente-se o fato de que essa política foi favorecida pelo desenvolvimento econômico que imprimiu, em boa media pela reorientação do relacionamento internacional do País, negando-se a manter uma postura submissa diante de países centrais do capitalismo mundial e assumindo, ao contrário, posição de solidariedade com economias alternativas (como Rússia, China, África do Sul e Índia) e de liderança com relação a países menos desenvolvidos.
A FASE REPUBLICANISTA
Mas jamais buscou apropriar-se do Estado ou implantar uma nova institucionalidade, condizente com o seu perfil de sociedade. Daí, a sua timidez com a reforma política, com a reforma tributária ou com a regulação da mídia.
Foi visível não aproveitar minimamente espaços para dar um caráter mais progressista às instâncias superiores do Poder Judiciário, permitir que as indicações para o Tribunal de Contas da União continuassem um mal explicado negócio de forças parlamentares e nem tentar imprimir uma visão avançada para o Ministério Público.
Se, reconheçamos, não abandou os compromissos de classe, foi gradativamente levando a que a sua defesa ficasse adstrita a políticas governamentais e à articulação parlamentar.
Um fosso imenso abriu-se entre a sua representação nos espaços institucionais – governo e Poder Legislativo – e o Partido real, a força viva dele, sua militância.
Salvo os petistas integrados na direção de entidades representativas de trabalhadores e de outros movimentos sociais, ficou praticamente relegada aos militantes a condição de orgulhar-se das ações de governo, aplaudi-la e voltar às ruas a cada eleição para garantir a renovação de mandatos.
Em suma, a não ser por aqueles compromissos políticos que lhe deram origem, o PT foi se assemelhando celeremente dos demais partidos. No conjunto formado pelos que disputam diretamente mandatos, é inegável a tendência a que se raciocine com a lógica de que o prioritário é renová-los. Em um sistema como o brasileiro, isso significa valer-se de métodos semelhantes aos dos adversários, envolver-se em articulações muito próximas. É de se prever que não tardaria a ter os compromissos essenciais como elementos secundários, no máximo argumentos eleitorais.
No seio do partido, essa equação leva à profissionalização de quadros e, como uma consequência natural, falta de debate político, desmotivação, afastamento do meio social, envelhecimento da militância.
Veio o golpe, fruto de uma extraordinária articulação para levar o PT à destruição definitiva. Uniram-se lideranças do grande empresariado, especialmente o financeiro, o semento hegemônico da mídia e a maioria parlamentar conservadora. A manobra contou com expressivo envolvimento de membros do Poder Judiciário. E é claro que se aproveitou da fragilização do Partido.
A MILITÂNCIA DESPERTOU
O despertar veio com a percepção de que a representação parlamentar passou a ter uma atitude de crescente aceitação da ruptura que tirou o próprio PT do governo, de passividade diante da nova hegemonia, de quase conformismo em face de uma presumida inexorabilidade do novo quadro.
O quadro em que os golpistas assumiram a iniciativa e, com voracidade surpreendente, resolveram revogar direitos conquistados ao longo de muitas décadas, como os trabalhistas e previdenciários, suspender ou minimizar direitos sociais instituídos nos governos liderados pelo PT, impor diretrizes neoliberais à ordem econômica, submeter o sistema educacional à lógica acrítica e tecnicista, entregar ao capital estrangeiro os mais importantes ativos nacionais, abrir flancos aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, reforçar a hegemonia de meios de comunicação e até resgatar do limbo interesses de grupos empresariais que não tinham como prosperar em um quadro de normalidade, como a legalização de jogos de azar. Uma típica política do “a hora é essa”, de desmontar as defesas da sociedade enquanto isso não precisa passar pelo debate eleitoral.    
A gota a transbordar foi a articulação para que as bancadas petistas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal simplesmente se associassem a arranjos de parlamentares golpistas e dessem sustentação para que passassem a dirigir as duas Casas com presunção de legitimidade. Dirigir as mesas e, claro, aquela pauta demolidora que levou ao próprio golpe.
A partir daí, o quê dizer nas ruas? Que papel poderia ser cumprido por um militante do PT? O que mostraria de diferencial em seu partido? Restaria curvar-se ao discurso dos adversários e admitir que o Partido dos Trabalhadores, enquanto proposta, estava definitivamente desfigurado.
A verdade é que a militância ressurgiu, dissolveu até os muros internos de facções e tendências e resolveu lembrar aos parlamentares: o PT está aqui do lado de fora, disposto a fazer o debate com a sociedade, o embate com os adversários, trazer de volta para as ruas o compromisso que lhe deu origem e lhe dá sentido.
Fernando Tolentino

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

RACIONAMENTO DE ÁGUA NO DF É BRANCO, ELITISTA E CLASSISTA



Marcelo Pires Mendonça*
“Milhares de pessoas vivem sem amor. Mas não sem água.”
W.H. Auden na abertura do documentário Flow (Fluxo) – Por Amor à Água.
No ano de 2000 a guerra da água em Cochabamba, terceira maior cidade boliviana, nos deixou uma importante lição: somente o povo organizado nas ruas pode barrar medidas governamentais que contrariam os interesses e causam prejuízos à sociedade. Num feito inédito, a população do campo e da cidade unidas conseguiram a revogação da lei que privatizava a água em seu país, contrariando a recomendação do Banco Mundial. Estava posto ali o caráter estratégico dos recursos naturais, em especial a água, para a América Latina e para o mundo, sob a égide do capitalismo privatista.
Em 2014 testemunhamos a crise hídrica de São Paulo, negada pela cúpula do governo estadual (com a conivência da mídia hegemônica, omissa em divulgar os fatos)
até atingir níveis insustentáveis. Tal episódio suscitou duas questões: a  gestão desastrosa dos recursos hídricos pelo governo local à frente de uma das maiores economias do país e o caráter de classe do racionamento de água, que afetou desigualmente os moradores de periferias e dos bairros “nobres” da capital. Além da opção por um modelo de política pública sem investimentos em infraestrutura e sem planejamento estratégico, saltaram aos olhos do país o arquétipo de “gestão da crise” adotado: a Sabesp realizou uma operação secreta de redução da pressão da água, com a justificativa de diminuir as perdas com vazamentos. Na prática o resultado foi que milhares de pessoas passavam dias, até semanas sem água, principalmente os bairros altos das periferias e as localidades distantes dos reservatórios. Após meses negando a crise e diante das reclamações da população que sofria com os efeitos da medida arbitrária, a empresa admitiu a prática. A falta de transparência, a ausência de controle social e a gestão equivocada acenderam o alerta para todo o país.
Em Brasília, o ano de 2017 começa com o anúncio extemporâneo do GDF de um cronograma de racionamento de água. Aqui, como em São Paulo há três anos, as mesmas duas questões se sobressaem: a gestão calamitosa dos recursos hídricos pelo governo local em plena capital do país e o caráter de classe do racionamento de água, cujo corte no fornecimento ocorrerá por rodízio e afetará precipuamente as regiões administrativas de menor poder aquisitivo do Distrito Federal. Sob a justificativa de que apenas as regiões abastecidas pela bacia do Descoberto (que abrange 60% da população do DF) demandam esta medida, coincidentemente as regiões nobres de Brasília, abastecidas pelo reservatório de Santa Maria e outros córregos, serão poupadas deste incômodo. Assim, Asas Sul e Norte, Lagos Sul e Norte, enfim, todas as regiões que englobam os setores de mansões e grandes condomínios (e que consomem, em média, o dobro de água do restante da população do DF) serão afetadas apenas pela redução da pressão da água, mas terão garantidos pelo GDF direitos fundamentais, como o de encher suas piscinas, regar suas gramas e lavar seus carros. 
A atual crise hídrica nos coloca o desafio de refletir questões como educação e gestão ambiental, sustentabilidade e o uso adequado de recursos naturais do ponto de vista de classe. O que não é debatido pela mídia com relação ao problema da sustentabilidade ambiental é o fato de que 82% da nossa água é consumida pela agricultura em processos de irrigação, 10% é destinada à indústria e somente 8% de toda água é consumida pelas famílias, segundo dados da OMS. No fim das contas, quem menos consome e paga as maiores tarifas de água é quem sofre as consequências de uma sociedade que não discute a questão ambiental na perspectiva de classe e sim na perspectiva individualista do capitalismo tão propalada pelos meios de comunicação: os maiores poluidores ambientais no mundo são as indústrias petroquímicas e de plástico, que jogam no meio ambiente toneladas de metais pesados, efluentes industriais e poluentes orgânicos persistentes (POP), a queima de combustíveis fosseis e as usinas termoelétricas, sendo responsáveis por 91% da poluição ambiental no mundo e por 86% do lixo do planeta...
Entretanto, a mídia hegemônica difunde o discurso da consciência ambiental individual, superdimensiona a coleta seletiva de lixo residencial, o banho cronometrado, a economia de água doméstica, o racionamento que afeta somente às famílias, quando na realidade as famílias produzem 7,5% do lixo no Brasil e a coleta seletiva residencial, por exemplo, tem um impacto praticamente zero na preservação do meio ambiente, considerando que 3% (de 7,5% que é produzido) do lixo doméstico é reciclado.... E enquanto a sociedade está distraída separando o lixo da sua casa não tem ninguém pressionando empresas e governos por práticas industriais mais sustentáveis e eficazes ou por uma legislação e uma fiscalização mais rígidas que garantam de forma efetiva a preservação ambiental...
Pari Passu, aqui no Distrito Federal, a população das regiões administrativas com menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), a exemplo de Santa Maria, Ceilândia e Samambaia terão, oficialmente, um dia de racionamento com dois dias de religamento e três de abastecimento normal. Na prática observamos inúmeras denúncias de casos de falta de fornecimento nestas localidades uma semana antes do racionamento oficial, reclamações acerca de relógios de medição que registraram cobrança no período do corte e de localidades nas quais, passado o período previsto para reabastecimento, a população seguia sem acesso à água. Há também, no DF, os casos de restrição estrutural de acesso à água em regiões administrativas como a Fercal, que apresenta um dos maiores contingentes populacional de negros e um dos menores índices de renda, na qual parte da população sequer integra a rede oficial de abastecimento e recebe água de poços artesianos, cuja qualidade é considerada salobra. Mais uma vez, as variáveis de raça e classe se imiscuem para aprofundar as desigualdades estruturais da sociedade... Enquanto isso, as quatro regiões administrativas com maior IDH e menores contingentes populacionais de negros - Lago Norte, Sudoeste/Octogonal, Lago Sul e Plano Piloto – seguem imunes ao racionamento. O banho de piscina está garantido nos setores de mansões, mas as regiões mais populosas e mais carentes nem direito ao banho têm...
Infelizmente, acompanhando o racionamento, persevera o discurso atomista e liberal do capitalismo de que "precisamos fazer a nossa parte"... Mas na realidade, se a nossa parte não compensa o dano industrial proporcionalmente muito maior do que podemos reparar, então na verdade a "nossa parte" favorece muito mais à nossa consciência, à manutenção do status quo e das políticas públicas erráticas do que ao meio ambiente. Por isso a sociedade precisa assumir o compromisso histórico de construir a luta pela sustentabilidade ambiental e em defesa dos recursos naturais com consciência de classe e controle social, problematizando os reflexos da desigualdade social, de raça e de classe no acesso a bens e recursos essenciais. O racionamento deve ser proporcional ao consumo e não inversamente proporcional ao nível de renda.
*Formado em História e Geografia, professor da Rede Pública do Distrito Federal.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O CAPITAL DA IMPOPULARIDADE OU A IMPOPULARIDADE DO CAPITAL



Já não há o que esconder.
A primeira reunião do que foi o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, serviu para deixar claro para os brasileiros que o social já não lhe cabe.
Afinal, o que foi o golpe senão a manifestação pública de que os donos do PIB brasileiro, embora inicialmente admitindo a política de conciliação de classes proposta no primeiro governo Lula, isso nunca representou uma adesão entusiástica ao projeto. Tratava-se exclusivamente de aproveitar a maré, retomar os resultados positivos no momento em que nem mesmos os eternos beneficiários do modelo econômico suportavam mais a paralisia resultante dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso.
Bastou a crise econômica mundial apontar no horizonte, trazendo os primeiros efeitos para o Brasil, declararam escancarado o recrudescimento da luta de classes e apontaram os aríetes para os programas e propostas que buscavam compensar (ou aliviar) os prejuízos seculares da maioria dos brasileiros.
Falhou o modelo Macri de afastamento de governos com compromissos sociais e solidariedade internacional com os que os propunham. Os eleitores brasileiros até chegaram a ter vacilações no curso da campanha de 2014. Mas despertaram no segundo turno e empurraram para fora do tabuleiro a candidatura reacionária de Aécio Neves.
Como as classes dominantes do Brasil não aceitam derrotas e têm a clara convicção de que o Estado existe para lhe servir, foi adotada a saída testada com sucesso contra os paraguaios. Decidiram simplesmente anular o processo eleitoral e retomar o comando.
Claro que tais intenções não foram reveladas às massas uniformizadas com a camisa da corrupta CBF e do também amarelo pato da não menos censurável Fiesp.
A Ponte para o Futuro, desenhada no momento de combinar o golpe, só foi surgindo nas conversas públicas dos vitoriosos após o afastamento de Dilma Rousseff, evidentemente sem uma tradução que pudesse jogar nas ruas as massas justamente enfurecidas.
Aqui e ali, parcelas consideráveis da população foram traduzindo as medidas: o conteúdo da reforma previdenciária, o significado das alterações na legislação trabalhista, o arrocho para os servidores públicos, o desmantelamento do Estado. Para poucos mais ilustrados, a entrega do patrimônio nacional, mais evidenciada no atentado contra o Pré-Sal e a Petrobras.
Quem percebeu mais rapidamente tratou de se mobilizar e isso foi mais claro para a juventude, vendo ir pro brejo a perspectiva de um ensino de qualidade na escola pública. A resultante foi esse maravilhoso movimento de ocupação de mais de mil estabelecimentos de ensino, em grandes e médias cidades.
A declaração de guerra veio com a reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, no qual foi estrategicamente podada a representação dos trabalhadores, ganhando foro de uma grande articulação dos interesses do grande empresariado.
A institucionalização de um imenso lobby. Pra não perder a chance da piada, um lobão... Epa! O conceito caiu como uma luva, né?
A substanciosa síntese veio na palavra do publicitário Nizan Guanaes:
“Já que o governo ainda não tem índices de popularidade altos, aproveite, presidente. A popularidade é uma jaula. Ninguém faz coisas contundentes com altos níveis de popularidade. Então, aproveite que o senhor ainda não tem altos índices de popularidade e faça coisas impopulares que serão necessárias e que vão desenhar este governo para os próximos anos. Aproveite sua impopularidade. Tome medidas amargas. Aliás, este é o grande desafio das democracias do mundo. Como fazer coisas impopulares?”
Esperto, Guanaes disse o que Temer queria ouvir. E por isso foi retribuído com aplausos inflamados. A impopularidade com que os brasileiros o premiaram não deve ser vista necessariamente como um aspecto negativo.
Em outras palavras, se não serve para embalar a vaidade do medíocre político que jamais ganharia uma eleição majoritária (aliás, já era preciso sofrer muito para alcançar mandatos empurrado pela máquina partidária), isso pode ser lido como um capital decisivo. Se dito por alguém mais escrachado: “Presidente, lembre-se de que já não tem nada a perder.”
O que não disse Guanaes é a quem realmente interessa o capital da impopularidade. Interessa aos detentores do capital. Oportunistas, querem se refastelar até com o fato de termos um presidente rejeitado por no mínimo 7 em cada 10 brasileiros e a caminho da execração pelos que ainda não entenderam o que significam coisas impopulares, medidas amargas.
E têm pressa! Não porque haja o menor risco de Temer ganhar qualquer migalha de aceitação popular, ainda mais sendo identificado com esse lúgubre receituário. Mas por pretenderem deixar essa herança com ele, tentando chegar em 2018 com alguma candidatura que, mais uma vez, não precise levar a verdade ao palanque. Sem ser identificado pelo crime de entrega dos recursos nacionais. Sem ser responsabilizado pelo esmagamento das grandes massas de trabalhadores, aposentados, estudantes do que sobrar de escolas públicas, pequenos empresários e produtores.
Fernando Tolentino

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

“O JOGO ACABOU”



Festa da vitória de Edvaldo Nogueira e Eliane Aquino em Aracaju
“O jogo acabou. Ganhamos!”
Qualquer torcedor de futebol já ouviu um parceiro de time alegar, ainda mais quando fala do seu principal rival, que prefere ganhar com um “gol de mão”, um pênalti inexistente, gol marcado quando o jogo já devia ter acabado.
A vitória justa, como vimos em duelos medievais que deram emoção a tantos filmes épicos, não tem o mesmo sabor para esse tipo de torcedor.
Na nossa sociedade, as eleições nada têm de regras como as daqueles duelos.
Afinal, essas regras são definidas por quem vai participar da disputa.
Mais especificamente, os economicamente poderosos estabelecem como serão as eleições. Alguém duvida que a intenção seja garantir a vitória para eles?
Ou seja, as regras das eleições são feitas para enganarem vocês.
Quer ver?
Você conhece alguém, do seu círculo de amigos, que entenda perfeitamente como se dão as eleições para vereadores, deputados estaduais e federais?
A tese é que o Legislativo será dividido entre os partidos na mesma proporção dos votos que tenham obtido nas eleições.
Ou seja, esqueça o nome dos candidatos. A eleição é proporcional. São os partidos que elegem.
Mas é isso o que os candidatos dizem pra você?
Pois saiba que todos os candidatos de um partido terão os seus votos somados e o resultado vai definir quando serão os eleitos desse partido. Pra complicar mais ainda a cabeça do eleitor, todos os partidos da coligação valem como um só partido.
Em tese, por exemplo, esse partido terá 30% da Câmara se as votações dos seus candidatos (somadas) forem iguais a 30% de todos os votos. Daí, o partido (ou coligação) terá direito a 30% das vagas da Câmara de Vereadores, da Assembleia Legislativa ou da Câmara dos Deputados, conforme o caso.
Quem serão os eleitos? Os mais votados da legenda (partido ou coligação) até alcançar aqueles 30% das vagas.
É por isso que o candidato faz uma guerra tão grande contra os do mesmo partido. Ele precisa ficar na frente dos demais.
Eu disse “em tese” porque é um pouco mais complicado.
Se a cabeça esquentou, descanse um pouco. Leia o resto daqui a pouco.
VAMOS LÁ
A proporção pode ser 20%, 45%, 60%. Mas o partido pode não eleger ninguém. A soma dos votos dos seus candidatos tem que ser maior que a divisão do número total dos votos dos eleitores pelo número de vagas que são disputadas. Assim: Se votaram 80.000 eleitores e são 8 vagas, o partido tem que somar pelo menos 10.000.
Portanto, haverá sempre sobra dos votos daqueles partidos que não elegeram ninguém. Sobra de vagas também. Elas são divididas pelos que fizeram aquele mínimo. Os 10.000 no nosso exemplo.
Por isso, tirando prefeito, governador e presidente, é dificílimo você ver a indicação do partido na propaganda do candidato. Se tiver, ele é dos chamados partidos de esquerda, como PT, PCdoB, PSOL, PCO etc.
Além de ser mais fácil o candidato enganar você, dizendo que é do partido que você mais gosta (ou que não é do que você não gosta), ele quer esconder de você se tem pouca chance de se eleger. Afinal, se você conhecer os candidatos do partido dele, já imagina quais vão ter mais votos. Os que provavelmente vão ganhar. Só entram os mais votados, lembra?
NOVAS REGRAS PARA MENOS DEBATE
Nesta eleição, a Câmara de Eduardo Cunha e o Senado de Renan mudaram as regras. Não foi para ajudar os adversários, você não acha?
Conseguiram complicar um pouco mais para vereadores. Não se contou a votação de candidato com menos de 10% do total obtido por seu partido.
Além disso, tiraram os vereadores do horário eleitoral. Ficaram apenas com inserções ao longo do dia. Difícil coincidir com o horário em que você estava ligado, não é? Pior, você ficou sem chance de comparar, pois cada um aparecia em horário diferente.
O horário eleitoral ficou só para candidatos a prefeitos.
Antes, eram 45 dias; foi reduzido para 35 dias. Eram 30 minutos e agora foram somente 10 minutos.
O que isso significa? Se um partido ou os seus candidatos são muito atacados na programação normal do rádio ou da TV, fica praticamente sem tempo para se defender.
Bingo! Entendeu?
Esses 10 minutos são divididos entre os partidos de acordo com o número de deputados federais eleitos na última eleição. Em 2014. Aí, conta a coligação, pois se somam os deputados de todos os seus partidos para calcular esse tempo. Candidato a prefeito com muitos partidos na coligação tinha um pedaço maior dos 10 minutos.
Acha pouco? Foram mudadas as regras para o financiamento das campanhas. Os partidos de esquerda queriam que houvesse apenas financiamento público, o que equilibraria um pouco mais o que todos poderiam gastar. Foi proibido o financiamento por empresas, mas foi liberado para pessoas físicas. Isso significa que o candidato mais rico ou que juntasse mais gente rica na sua campanha poderia gastar muito mais.
Como não houve eleição em Brasília, eu fui a alguns municípios goianos perto daqui. Posso garantir que não diminuiu nem um pouco o gasto com as campanhas dos candidatos. Mas partidos de gente mais pobre apareceram muito menos na campanha, tiveram menos estrutura, menos material.
Isso tudo ajuda um pouco a entender o resultado, não é?
Volto em outro artigo para analisar o que significou a votação de cada partido nesta eleição.
Fernando Tolentino