sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ESTE É O MEU APELO


Estou longe, mas faço questão de participar‏.


Ainda faço questão de dividir minha vida com Salvador, mas vivo atualmente em Brasília, uma cidade que me deu muito. Aqui, no entanto, não posso votar pra prefeito ou vereador.


A verdade é que tenho todos os motivos para amar a Bahia e (assim também definida) minha Salvador.


Ela me deu sua história, sua cultura, o gosto por sua culinária, minha educação, o pedaço da minha família em que cresci, seu humor e musicalidade. Régua e compasso. Os passos iniciais de minha luta. Meus pais, meu irmão, meus primeiros e eternos amigos, os primeiros amores, o meu amor, meus primeiros filhos e meus netos (vou ganhar mais um), meu Vitória.


Não deixem que destruam a minha cidade. Que a entreguem ao que há de mais atrasado na política brasileira. Contra o que lutamos toda a minha geração e várias outras, na cidade mais libertária do Brasil.


Se o seu ânimo hoje é de decepção, descrença, revolta até, peço que saiba dirigir o seu sentimento. Não se vingue na minha cidade. Salvador, a nossa cidade, não merece ser vítima disso.


Peço a Deus que lhe ilumine e vote no futuro de meus e seus filhos, de meus e seus netos, de meus amigos, de meu povo.


Eu não posso votar, mas posso pedir.


E, se puderem, arranjem também alguém que vote por mim.


Obrigado.

Fernando Tolentino

sábado, 13 de outubro de 2012

A DIREITA QUE RI EXTASIADA



Leandro Fortes


 Tenho acompanhado nas redes sociais, desde cedo, e sem surpresa alguma, o êxtase subliterário de toda essa gente de direita que comemora a condenação de José Dirceu como um grande passo civilizatório da sociedade e do Judiciário brasileiro. Em muitos casos, essa exaltação beira a histeria ideológica, em outros, nada mais é do que uma possibilidade pessoal, física e moral, de se vingar desses tantos anos de ostracismo político imposto pelas sucessivas administrações do PT em nível federal.
Não ganharam nada, não têm nada a comemorar, na verdade, mas se satisfazem com a desgraça do inimigo, tanto e de tal forma que nem percebem que todas essas graças vieram – só podiam vir – do mesmo sistema político que abominam, rejeitam e, por extensão, pretendem extinguir.
José Dirceu, como os demais condenados, foi tragado por uma circunstância criada exclusivamente pelo PT, a partir da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, data de reinauguração do Brasil como nação e república, propriamente dita. Uma das primeiras decisões de Lula foi a de dar caráter republicano à Polícia Federal, depois de anos nos quais a corporação, sobretudo durante o governo Fernando Henrique Cardoso, esteve reduzida ao papel de milícia de governo. Foi esta Polícia Federal, prestigiada e profissionalizada, que investigou o dito mensalão do PT.
Responsável pela denúncia na Procuradoria Geral da República, o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza jamais teria chegado ao cargo no governo FHC. Foi Lula, do PT, que decidiu respeitar a vontade da maioria dos integrantes do Ministério Público Federal – cada vez mais uma tropa da elite branca e conservadora do País – e nomear o primeiro da lista montada pelos pares, em eleições internas.
Na vez dos tucanos, por oito anos, FHC manteve na PGR o procurador Geraldo Brindeiro, de triste memória, eternizado pela alcunha de “engavetador-geral” por ter se submetido à missão humilhante e subalterna de arquivar toda e qualquer investigação que tocasse nas franjas do Executivo, a seu tempo. Aí incluída a compra de votos no Congresso Nacional, em 1998, para a reeleição de Fernando Henrique. Se hoje o procurador-geral Roberto Gurgel passeia em pesada desenvoltura pela mídia, a esbanjar trejeitos e opiniões temerárias, o faz por causa da mesma circunstância de Antonio Fernando. Gurgel, assim como seu antecessor, foi tutelado por uma política republicana do PT.
Dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, seis foram indicados por Lula, dois por Dilma Rousseff. A condenação de José Dirceu e demais acusados emanou da maioria destes ministros. Lula poderia, mas não quis, ter feito do STF um aparelho petista de alto nível, imensamente manipulável e pronto para absolver qualquer um ligado à máquina do partido. Podia, como FHC, ter deixado ao País uma triste herança como a da nomeação de Gilmar Mendes. Mas não fez. Indicou, por um misto de retidão e ingenuidade, os algozes de seus companheiros. Joaquim Barbosa, o irascível relator do mensalão, o “menino pobre que mudou o Brasil”, não teria chegado a lugar nenhum, muito menos, alegremente, à capa de um panfleto de subjornalismo de extrema-direita, se não fosse Lula, o único e verdadeiro menino pobre que mudou a realidade brasileira.
O fato é que José Dirceu foi condenado sem provas. Por isso, ao invés de ficar cacarejando ódio e ressentimento nas redes sociais, a direita nacional deveria projetar minimamente para o futuro as consequências dessas jurisprudências de ocasião. Jurisprudências nascidas neste Supremo visivelmente refém da opinião publicada por uma mídia tão velha quanto ultrapassada. Toda essa ladainha sobre a teoria do domínio do fato e de sentenças baseadas em impressões pessoais tende a se voltar, inexoravelmente, contra o Estado de Direito e as garantias individuais de todos os brasileiros. É esperar para ver.
As comemorações pela desgraça de Dirceu podem elevar umas tantas alminhas caricatas ao paraíso provisório da mesquinharia política. Mas vem aí o mensalão mineiro, do PSDB, origem de todo o mal, embora, assim como o mensalão do PT, não tenha sido mensalão algum, mas um esquema bandido de financiamento de campanha e distribuição de sobras.
Eu quero só ver se esse clima de festim diabólico vai ser mantido quando for a vez do inefável Eduardo Azeredo, ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente do PSDB, subir a esse patíbulo de novas jurisprudências montado apenas para agradar a audiência.

Leandro Fortes. Publicado em Carta Capital, em 10 de outubro de 2012

sábado, 6 de outubro de 2012

A RAPARIGA E A FREIRINHA



Fernando Tolentino
O Brasil está sobressaltado. Há poucos dias, milhões de brasileiros, perplexos, ainda se negavam a crer no que viam e ouviam. Mas confissões, indícios e algumas provas encarregaram-se de sepultar, uma a uma, versões e desculpas colocadas nas primeiras horas.
A onda começou quando o deputado Roberto Jefferson foi pilhado, com provas irrespondíveis, como piloto de um processo de sucção de recursos públicos. Incapaz de escapar da condição de réu, o famigerado presidente do PTB, adotou uma tática esperta. “Sou corrupto, mas quem não é?” Espargindo denúncias em várias direções, disse o que seria definitivo para retirá-lo do alvo. Incluiu o PT no esquema de movimentação irregular de recursos e, para coroar de êxito a sua manobra, cunhou um termo que tornaria mais charmosas as manchetes dos jornais: “mensalão”.
- O PT?! Jefferson declarou inicialmente que doações eram feitas a deputados do PL e do PP. Foi enfático em que os parlamentares do PT não se beneficiaram com os recursos. As investigações já indicaram que, nos últimos sete anos, saques, repasses e financiamentos operados pelo “publicitário” Marcus Valério favoreceram políticos de oito partidos: PT, PTB, PP, PL, PMDB, PPS, PSDB e PFL. Até 2002, o grosso da movimentação parece ter servido para o financiamento das campanhas eleitorais tucanas de Minas Grais, em 1998 e 2002. Daí para cá, a maior parte dos recursos foi destinada a políticos do PL, do PTB e do PP. Mas há também saques destinados ao PT. Até hoje, salvo a indecorosa apropriação privada de recursos e mordomias por um punhado de dirigentes (não parlamentares), tudo indica que a participação dos petistas se deu realmente com o pagamento de dívidas de campanhas majoritárias.
Isso não importa! Quando alguém lhe diz que sua jovem vizinha está fazendo a alegria da rapaziada, é possível que isso sequer lhe chame a atenção. Mas você ficará no mínimo atônito ao ouvir que a freirinha acompanhou, com um mero olhar, a passagem de um rapaz bonitão.
A verdade é que financiamento não declarado de campanhas eleitorais não é novidade no Brasil. Apontada por Jefferson na sua tática diversionista, a distorção foi confirmada por vários dos beneficiários do esquema.
Praticamente desconhecidas da opinião pública no restante do País, as empresas de Marcus Valério têm, em Minas Gerais, tradição de operação de recursos ilegais em campanhas eleitorais. É, além disso, sabidamente próxima do PSDB mineiro. Contra a SMP&B, por exemplo, corre, no STF, processo por recebimento irregular de R$ 3 milhões do governo mineiro quando o governador era Eduardo Azeredo, hoje, presidente nacional do PSDB.
Tudo começou com a denúncia, em 1999, do deputado estadual Durval Ângelo (PT). Ele mostrou que Azeredo repassou R$1,5 milhão à Companhia Mineradora de Minas Gerais, que foram parar na SMP&B de Valério. A destinação dos recursos era a campanha publicitária do Enduro Internacional da Independência. O problema é que a Rede Globo de Televisão cobrou apenas R$160 mil pela produção e veiculação dos anúncios. O mesmo se deu na Companhia de Saneamento de Minas Gerais: a agência recebeu outros R$1,5 milhão para uma publicidade também estimada em R$160 mil. Não é grave? Pois, então, fique sabendo que não houve qualquer veiculação publicitária da Comig e da Compasa como patrocinadoras do evento. O Ministério Público acatou a denúncia, assim como o Supremo Tribunal Federal.
O detalhe nada desprezível é que a empresa pertencia a sócios de Clésio Soares de Andrade, então candidato a vice na chapa da reeleição de Azeredo e hoje vice-governador do também tucano Aécio Neves.
Outra informação interessante foi levada à CPMI dos Correios pelo deputado federal Henrique Fontana (PT-RS). Lembram de Ricardo Sérgio de Oliveira, diretor do Banco do Brasil no governo de Fernando Henrique e coordenador financeiro de várias campanhas tucanas, inclusive a de José Serra? Pois bem, o prédio hoje ocupado pela SMP&B em Belo Horizonte pertence a uma empresa de sua propriedade, a Planefin - Serviços, Assessoria, Planejamento, Administração e Participações S/C Ltda. Quem lhe vendeu o edifício foi a Petrus - fundo de pensão dos funcionários da Petrobras. Custou R$ 11 milhões, em 1999, em pleno governo de Fernando Henrique.
A súbita evidência do esquema Valério, transformado em fenômeno nacional, decorre, portanto, do cruzamento de dois fatos: a sua utilização pela cúpula petista e a denúncia de Roberto Jefferson. Trazido o PT à cena do crime, a mídia fez a festa.
De repente, o mal-afamado deputado Roberto Jefferson, um certo Marcos Valério, figura absolutamente desconhecida há não mais que três meses, e a secretária Fernanda Somaggio são transformados em astros da televisão brasileira e, em certa medida, editores dos grandes jornais do País. Os holofotes são dirigidos para quem quer que tenha uma denúncia contra o Partido dos Trabalhadores, o governo ou o presidente Lula. Anteontem, foi o até então obscuro Rodrigo Maia; ontem, o sempre desacreditado ex-deputado Valdemar Costa Neto; entre um e outro, a esposa dele, o governador de Goiás, a deputada que ele fez secretária, os próprios envolvidos: Janene, Mabel e ponha etcétera nisso.
Lançada uma denúncia, ninguém as põe em dúvida. Ao contrário, os verbos jornalísticos são mais que significativos. Para as acusações: “revela”, “aponta”, “demonstra”, “explica”... Para os petistas: “insiste”, “tenta negar”, “esquiva-se”...
De um lado, minimiza-se a participação de políticos de outros partidos no esquema Valério ou outros episódios de corrupção. Bastaria lembrar o caso Roberto Brant. Pilhado na lista de recebedores de Valério, simplesmente confirmou e, reconhecendo que se tratava de financiamento não declarado de campanha (ou seja, Caixa 2), desafiou que atirasse a primeira pedra quem não se valeu do mesmo expediente! Mereceu imediatamente o indulto do PFL, na voz do seu presidente, o senador Jorge Bonhaursen. E, embora desse a mesma explicação dos demais envolvidos, foi anistiado também pela imprensa, naturalmente! Desapareceram, como por encanto, do noticiário as referências a ele e mais dois ex-ministros de Fernando Henrique: Pimenta da Veiga e Cícero Lucena (acusado de fraudar licitações no governo da Paraíba, onde agora integrava o secretariado). Sumiram igualmente da mídia as já comprovadas histórias de corrupção envolvendo o governador tucano de Rondônia Ivo Cassol.
Ao mesmo tempo, vão sendo construídas reputações onde (sabe-se ou é possível supor) o discurso em nada corresponde à prática. Bornhausen, ACM Neto, Álvaro Dias, Artur Virgílio disputam, aos olhos da imprensa, o troféu de quem seria a vestal mais imaculada, embora compusessem a linha de frente do governo Collor ou formassem a barreira intransponível para a realização de CPIs ao longo do governo de Fernando Henrique. A eles se juntam, sem qualquer constrangimento, personagens que, por oportunismo ou ressentimento pessoal, deliciam-se com o sangue do PT: Heloísa Helena (que, depois da sub-militância no PFL e no PSDB, jamais voltará a ser de esquerda), Denise Frossard (que, por seus pré-julgamentos, é melhor continuar como deputada, pois jamais poderá voltar a ser juíza) ou o outro Jefferson (o senador Jefferson Peres, Hoje falecido), aquele que já declarava o impeachment de Lula irreversível, há mais de dois meses, quando o seu xará mal ensaiara as primeiras acusações.
É interessante, mas o comportamento da imprensa parece com o nosso, da esmagadora maioria da militância do PT. Para nós, petistas, nada mais natural do que o envolvimento de políticos de outros partidos com corrupção. Crescemos vendo isso. Entendemos, desde cedo, que a prática da corrupção é quase que da própria essência daqueles políticos.
O que não entra em nossa cabeça é a corrupção ser praticada por algum companheiro. E, neste sentido, engana-se redondamente quem imagina que a crise política atual é absolutamente negativa para o Partido dos Trabalhadores. Deixe explicar: não há como aceitar petistas terem relações espúrias com grupos empresariais, obterem financiamento irregular para as suas campanhas, facilitarem a drenagem ilícita de recursos públicos para empresas privadas, comprarem apoio parlamentar para projetos governamentais (ainda mais tratando-se de projetos que não condizem com a linha partidária) e, até, fazerem apropriação pessoal de recursos obtidos imoralmente.
O problema é que tudo isso aconteceu ou muito disso pode ter acontecido. E, aí, há três aspectos a ressaltar. O primeiro é que as denúncias nos deixam mais realistas. Passamos a entender que o PT está no mundo, integra a mesma sociedade que os demais partidos e, por isso, sofre dos mesmos males, não há como ser uma ilha de idoneidade. A diferença – que desejamos, perseguimos e exigimos – é que o PT não contemporize com práticas de corrupção. Identificada, deve ser investigada e os responsáveis têm que ser afastados do nosso convívio.
O segundo aspecto é uma decorrência desse. Foi provado que alguns dirigentes envolveram-se naquelas práticas nefastas sem que estivessem autorizados pelo PT. Isso significa que o Partido vinha sendo substituído por um grupo de pessoas que sentiam-se à vontade para decidir em nosso nome sem consultar o Diretório Nacional, a Executiva e, em alguns casos, nem mesmo a tendência que controla esses organismos, o campo majoritário. E essa descoberta se dá às vésperas da escolha das novas direções partidárias. Quer dizer, temos a oportunidade histórica de repor o Partido nos trilhos.
Por último, a própria guerra da imprensa e dos políticos conservadores para desmoralizar o PT evidencia quem são os petistas desencaminhados. Ganhamos a oportunidade de promover uma autêntica faxina. O Partido diminuirá, perderá milhões de votos, algumas eleições que se afiguravam vitoriosas. Mas, feito o expurgo, ficará de um tamanho e com uma composição capazes de promover a reconquista da confiança popular.
Parece que, de repente, os adversários mais renitentes do PT descobriram isso. Passado o processo, o PT terá afastado os corruptos, estará inquestionavelmente higienizado e em condições de fascinar os seus eleitores tradicionais. Mesmo porque os demais partidos continuarão do mesmo jeito que sempre foram. Por isso, já se nota entre alguns desses mais ferrenhos adversários (na imprensa ou nos demais partidos) a determinação de matar o PT. Se possível jogar sal no seu rastro para que não volte a ressurgir. Senão...
Olham para o PT e lembram daquela velha e grosseira história da agressão do bêbado à mulher horrorosa: "– Você é feia, heim?". Ao ouvir a reação ("– Bêbado!"), este se vinga: "– É, mas amanhã eu estou bom."
Fernando Tolentino, 15 de agosto de 2005 (circulação original na internet)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

11 DE SETEMBRO MAIS 11 DE SETEMBRO


Amanhã é 11 de setembro.

O mundo midiático vai lembrar da explosão das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque.

Apesar da cortina de silêncio, muitos lembrarão da derrubada de Salvador Allende, então presidente eleito do Chile, em 11 de setembro de 1973, quando foi explodido o Palácio de la Moneda e instaurou-se o golpe que pôs no poder o general Augusto Pinhochet.

Veja o documentário de Ken Loach no endereço abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=7vrSq4cievs&feature=player_embedded

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Quando Miliane minha filha, soube-se grávida há algumas semanas, o companheiro dela publicou, sobre  o sonho de paternidade/maternidade deles, o poema "O mais belo mistério da natureza".
Esta semana, Miliane responde com um poema de sua autoria ("Segredos de uma breve existência"), explicando que a gestação foi frustrada, caracterizando-se como uma gravidez anembrionária. As poesias também foram postadas no blog dela: http://milianetahira.blogspot.com/.
Não resisti à emoção do momento e à beleza das duas declarações e as reproduzo aqui.

O mais belo mistério da natureza
 
O mar apareceu na minha frente,
Suspirei todo o ar do universo e uma onda de emoção inundou o meu ser,
Risos e lágrimas sem fim.

Toda minha vida transformada num instante.
Não existe milagre maior,
... É o mais belo mistério da natureza,
Um símbolo prodigioso da felicidade eternizada.
Poesia Inexprimível.
Sou Pai.
Tássio Revelat
  
Segredos de uma breve existência

Existência ou (Ex)sistência
Quando um sonho vira saudade
Que segredos guardados
resistem nessa verdade?

Algo de tão real que vivido
Que mistérios imprimido
Quando de sonho virá pó...


Crer na verdade dessa não realidade
Mensagem ou luz?
Beleza efêmera dessa quase vida
Pressentida que sendo, não foi..


Na terra não flui essa esfera
de forma amorfa, irregular, sem Quimera


Mas reside em outros Espaços,
De Existências plurais,
Um ser que é...


Energia de vida
Aqui não compreendida
Reconhecida como cinza


Mas é canção de amor
Que só poetas podem reconhecer o valor


Vai viva´lma se assim foi
navegar por esses mundos
espaços profundos
De belezas inexatas


Vai serana, vai em paz,
por um breve momento
em sonhos acordados
existiu para mãe e pai...


Como sabemos extrair
qual sua missão,
Que seja nobre e ao longe,
Em uma cadência infinita


Viva outras vidas!!!!!

Miliane Tahira

O MAIS BELO MISTÉRIO DE UMA BREVE EXISTÊNCIA


Quando Miliane minha filha, soube-se grávida há algumas semanas, o companheiro dela publicou, sobre  o sonho de paternidade/maternidade deles, o poema "O mais belo mistério da natureza".
Esta semana, Miliane responde com um poema de sua autoria ("Segredos de uma breve existência"), explicando que a gestação foi frustrada, caracterizando-se como uma gravidez anembrionária. As poesias também foram postadas no blog dela: http://milianetahira.blogspot.com/.
Não resisti à emoção do momento e à beleza das duas declarações e as reproduzo aqui.

O mais belo mistério da natureza
 
O mar apareceu na minha frente,
Suspirei todo o ar do universo e uma onda de emoção inundou o meu ser,
Risos e lágrimas sem fim.

Toda minha vida transformada num instante.
Não existe milagre maior,
... É o mais belo mistério da natureza,
Um símbolo prodigioso da felicidade eternizada.
Poesia Inexprimível.
Sou Pai.

Tássio Revelat






Segredos de uma breve existência
Existência ou (Ex)sistência
Quando um sonho vira saudade
Que segredos guardados
resistem nessa verdade?

Algo de tão real que vivido
Que mistérios imprimido
Quando de sonho virá pó...

Crer na verdade dessa não realidade
Mensagem ou luz?
Beleza efêmera dessa quase vida
Pressentida que sendo, não foi..

Na terra não flui essa esfera
de forma amorfa, irregular, sem Quimera

Mas reside em outros Espaços,
De Existências plurais,
Um ser que é...

Energia de vida
Aqui não compreendida
Reconhecida como cinza

Mas é canção de amor
Que só poetas podem reconhecer o valor

Vai viva´lma se assim foi
navegar por esses mundos
espaços profundos
De belezas inexatas

Vai serana, vai em paz,
por um breve momento
em sonhos acordados
existiu para mãe e pai...

Como sabemos extrair
qual sua missão,
Que seja nobre e ao longe,
Em uma cadência infinita

Viva outras vidas!!!!!

Miliane Tahira


BUFFET FARTO, ORQUESTRA AFINADA E PISTA VAZIA


Saul Leblon

Há certo gosto de decepção no ar. O conservadorismo que durante meses, anos, cultivou o julgamento do chamado mensalão como uma espécie de terceiro turno sanitário, capaz de redimir revezes acumulados desde 2002 no ambiente hostil do voto, de repente percebe-se algo solitário na festa feita para arrebanhar multidões.
Como assim se os melhores buffets da praça foram contratados; a orquestra ensaiou cinco anos a fio e o repertório foi escolhido a dedo?
Por que então a pista está vazia?
Pouca dúvida pode haver, estamos diante de um evento de coordenação profissional.
O timming político coincide exatamente com o calendário eleitoral de 2012; a similitude e a precedência comprovadas do PSDB na mesma e disseminada prática de caixa 2 de campanha - nem por isso virtuosa -, e que ora distingue e demoniza o PT nas manchetes e sentenças, foi enterrada no silêncio obsequioso da mídia.
Celebridades togadas não sonegam seu caudaloso verbo à tarefa de singularizar o que é idêntico.Tudo caminha dentro do figurino previsto, costurado com o afinco das superproduções, o que falta então?
Apenas o essencial: a alegria do povo.
A população brasileira não tem ilusões. Ninguém enxerga querubins no ambiente nebuloso da luta política. Consciente ou intuitiva, ela sabe a seu modo que a política brasileira não é o que deveria ser: o espaço dos que não tem nenhum outro espaço na economia e na sociedade.
A distância em relação ao ambiente autofestivo da mídia condensa essa sabedoria em diferentes versões.
Privatizada pelo financiamento de campanha a cargo dos mercados, a política foi colonizada pelos mercadores. Afastada do cidadão pelo fosso cravado entre a vontade da urna e o definhamento do voto no sistema representativo, a política é encarada exatamente como ela é: um matrimônio litigioso entre a esperança e a decepção.
O PT do qual se cobra aquilo que não se pratica em muitos círculos - à direita e à esquerda - é protagonista dessa ambiguidade; personagem e cronista dos seus limites, possibilidades e distorções.
Que tenha aderido à lógica corrosiva do financiamento eleitoral vinculado ao caixa 2 das empresas e , ao mesmo tempo, protagonizado um ciclo de governo que faz do Brasil hoje o país menos desigual de sua história (de obscena injustiça social), ilustra a complexidade desse jogo pouco afeito a vereditos binários.
Essa ambiguidade não escapa ao discernimento racional ou intuitivo da sociedade.
Se por um lado semeia degenerações clientelistas e apostas recorrentes nos out-siders que se apresentam como entes 'acima dos partidos', ao mesmo tempo é uma vacina de descrença profilática em relação a encenações de retidão como a que se assiste agora.
A repulsa epidêmica dos eleitores de São Paulo a um dos patrocinadores
desse rega-bofe, do qual se imaginava o principal beneficiário, é sintomática do distanciamento que amarela o riso de vitória espetado nos cronistas convidados a animar o evento.
O baixo custo eleitoral do julgamento em curso no STF, contudo, não deve ensejar alívio ou indiferença na frente progressista da qual o PT é um polo central.
O julgamento do chamado 'mensalão' por certo omite o principal e demoniza o secundário. Ao ocultar a dimensão sistêmica a qual o PT aderiu para chegar ao poder, sanciona o linchamento de um partido democrático, uma vez que desautoriza seu principal argumento de defesa.
A meia-verdade atribuída aos réus do PT pelos togados e promotores está entranhada na omissão grotesca da história de que se ressentem suas sentenças pretensiosamente técnicas, envelopadas em liturgia mistificadora.
A pouca ou nenhuma influência eleitoral desse engenhoso ardil que elegeu a ausência de provas como a principal prova condenatória diz o bastante sobre o alcance da hipocrisia vendida como marco zero da moralidade pública pelos vulgarizadores midiáticos.
Não é esse porém o acerto de contas com o qual terá que se enfrentar o PT.
Após uma década no governo federal, o partido, seus intelectuais, lideranças e aliados nos movimentos sociais tem um encontro marcado com uma indagação incontornável, que não é nova na história das lutas sociais: em que medida um partido progressista tem condições de se renovar depois da experiência do poder? Em que medida tem algo a dizer sobre o passo seguinte da história?
O legado inegociável das conquistas acumuladas nesses dez anos entrou na casa dos brasileiros mais humildes, sentou-se à mesa, integrou-se à família. Ganhou aderência no imaginário social.
Não é preciso desconhecer os erros e equívocos para admitir que essa década mudou a pauta da política; alterou a face da cidadania; redefiniu as fronteiras do mercado e da produção.Deu ao Brasil uma presença mundial que nunca teve.
Com todas as limitações sabidas, criou-se uma nova referência histórica no campo popular em que antes só avultava a figura de Getúlio Vargas.
Lula personifica essa novidade que a população entende, identifica e respeita.
E que o enredo do 'mensalão' gostaria de sepultar.
Não está em jogo abdicar do divisor conquistado, mas sim ultrapassá-lo. Avulta que o percurso concluído abriu flancos, sugou agendas, talhou cicatrizes e escavou revezes de esgotamento, dos quais o julgamento em curso no STF é um exemplo ostensivo. Todavia não o principal.
Existe uma moldura histórica mais ampla a saturar esse ciclo.
O colapso da ordem neoliberal, os riscos intrínsecos espetados na desordem financeira e ambiental em curso no planeta - suas ameaças às conquistas brasileiras - formam um condensado de culminâncias que pede desassombro na renovação da agenda da democracia e do desenvolvimento para ser afrontado.
O caminho não será trilhado, menos ainda liderado, por forças e partidos incapazes de incluir na bússola do trajeto o ponteiro da autocrítica política e de um aggiornamento organizativo coerente com a renovação cobrada pela história.
O carro de som da direita faz barulho por onde passa nesse momento. Mas isso não muda a qualidade da mercadoria que apregoa.
O que o alarido dos decibéis busca vender, na verdade, é o velho pote de iogurte vencido e rançoso, cuja versão eleitoral em São Paulo tem 43% de rejeição popular.

A resposta da frente progressista à qual o PT se insere não pode ser a mera denúncia da propaganda enganosa.
Urge esquadrejar revezes e resoluções para renovar o próprio estoque de metas e métodos requeridos pelo passo seguinte da história.

Saul Leblon. Publicado originalmente no Blog das Frases, em 31/08/2012