sábado, 4 de outubro de 2014

ESTA É A ELEIÇÃO MAIS IMPORTANTE DA HISTÓRIA DO BRASIL?




Alguém tem dúvida sobre a importância da eleição de amanhã para o povo brasileiro?
É só prestar atenção ao que dizem a direita, os maiores empresários, os banqueiros, os representantes do agronegócio, a grande mídia. É só prestar atenção à importância dela para os Estados Unidos, os grandes capitalistas e especuladores internacionais. Eles dizem abertamente que é a eleição mais importante da História do Brasil.
Tão importante que não apostam em um só candidato a presidente. Investem em Aécio e Marina para garantirem pelo menos o segundo turno e ganharem tempo para tentarem afastar o povo de Dilma. Viram frustrados todos os golpes da campanha de primeiro turno e querem uma oportunidade para tentarem outros.
Ela é importante para eles porque significa a chance, talvez a última, de interromper a sequência de projetos populares, de inclusão das grandes massas da população, que Lula iniciou em 2003 e Dilma manteve em nosso atual governo.
É importante também porque sentem que o novo governo de Dilma vai representar o aprofundamento dessa política. E porque sabem que esse novo governo servirá para a consolidação das bases para uma democracia popular duradoura, especialmente com a reforma política e a regulamentação dos meios de comunicação, mudanças que lhes causa verdadeiros arrepios.
Por tudo isso, fazem e farão de tudo para que não prossiga o processo de mudanças que já se impõe há 12 anos. É também por isso que surgem loucos falando até em não respeitarem os resultados das urnas.
Nós sabemos que nossa maior garantia está em liquidar essa fatura no primeiro turno. Se nos faltarem alguns votos para isso, iremos para o turno final com a mesma garra.
Mas não podemos esquecer que Dilma terá maior facilidade para fazer valer a vontade do povo se não precisar enfrentar quatro anos de chantagem diante de um Congresso Nacional conservador, vinculado aos piores segmentos do poder econômico, aqueles que financiam as campanhas dos candidatos para os manterem na coleira durante os seus mandatos.
É indispensável Dilma ter uma base confiável, com um forte núcleo essencialmente comprometido com as suas propostas. E ter condições de negociar as mudanças com bancadas sensíveis à continuidade de seu projeto. Para isso, é preciso fugir da lógica de um legislativo formado por bancada ruralista, bancada da bola, desse ou daquele banco, dessa ou daquela empreiteira, da indústria de fumo, dos planos de saúde, das escolas privadas, dos hospitais e por aí vai.
Já tenho os meus candidatos. Usei o método mais simples. Vou votar em candidatos do PT. Nós podemos apostar que os candidatos a senadores e deputados do PT e do PCdoB terão fidelidade aos compromissos de campanha e à proposta mudancista e popular do governo Dilma.
Escolhi os meus: Érika Kokay (1331) para deputada federal e Daniel Seidel (13113) para deputado distrital. Além, naturalmente, de Magela (133) para senador.
Se quiser ter tranquilidade na sua escolha, é só ver se são candidatos do PT e do PCdoB. Com o cuidado de avaliar se o voto não ajudará na eleição de algum candidato de partido coligado que não tenha os mesmos compromissos (para entender melhor isso, ler o artigo CHEGA DE SER USADO PELOS “DONOS” DA POLÍTICA, publicado abaixo). Para os menos envolvidos com política, o número dos candidatos do PT sempre começa por 13. Os do PCdoB, por 65.
Caso tenha preferência por algum candidato de partido coligado, é importante cobrar os seguintes compromissos: os votos favoráveis à regulamentação da mídia e à reforma política (com financiamento público de campanha), apoio ao governo Dilma e aos de governadores que estão na sua base política.
Na política brasileira, sabemos a importância dos governadores para cumprirem programas modernizadores e de inclusão social em seus estados, mas também para estimular o apoio dos políticos de seus estados nas votações importantes para o País. Por isso, é indispensável votar nos candidatos identificados com as propostas de Dilma. Já temos a expectativa de elegermos muitos deles, mas podemos garantir as eleições de outros.
Em todas as regiões do Brasil temos nomes viáveis e confiáveis para votar. Como Rui Costa (Bahia), Camilo (Ceará), Wellington Dias (Piauí), Tarso Genro (Rio Grande do Sul), Gleisi (Paraná), Vignatti (Santa Catarina), Gomide (Goiás), Delcídio (Mato Grosso do Sul), Lúdio Cabral (Mato Grosso), além de nomes do PT, do PCdoB ou outros partidos coligados nos demais estados.
Embora todos sejam fundamentais, há alguns casos que podem contribuir ainda mais para o projeto da maioria dos brasileiros. E outros, pela importância estratégica de seus estados, especialmente o tamanho de suas bancadas no Congresso Nacional, mas também pela significação da derrota para as forças conservadoras. Por tudo isso, a vitória dos setores populares será muito maior se conseguirmos eleger Linberg (Rio de Janeiro), Pimentel (Minas Gerais) e Padilha (São Paulo). Além de Agnelo (Distrito Federal), porque é importante Dilma ter um parceiro justamente onde tem a sede de seu governo.
Fernando Tolentino

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

CHEGA DE SER USADO PELOS “DONOS” DA POLÍTICA


Você tem certeza que todos os seus amigos sabem mesmo votar?
Não estou falando de orientar na escolha de nomes de candidatos, embora isso seja importante.
Não falo aqui de como escolher o nome para presidente, governador ou senador que pode melhor representar o interesse de cada um.
Embora muita gente não saiba como isso funciona, mas a explicação é muito fácil. A mais simples é a eleição de senador. Entre todos os candidatos, é eleito o que tem mais votos.
Para presidente e governador, é exigida a maioria absoluta. Quer dizer, um candidato ganha se tem mais da metade de todos os votos válidos no primeiro turno. Voto válido é aquele dado a algum candidato, ou seja, tirados os brancos e nulos. Se nenhum tem mais da metade (mais que a soma de todos os outros candidatos), haverá um segundo turno entre os dois mais votados e ganhará o que tiver maior votação.
Quase todo mundo já aprendeu essas lições.
Mais difícil é entender as eleições proporcionais, para deputados federais e estaduais (distritais, no caso do Distrito Federal).
Pior, quem não sabe como é essa eleição tem sérias dificuldades para uma escolha consciente do seu candidato.
A não ser que se trate de um eleitor estritamente partidário, aquele para quem não importa quem será eleito, desde que seja do seu partido. Afinal, o voto é proporcional, o que significa dizer que as vagas serão distribuídas entre os partidos na proporção mais exata possível do que seja a sua votação.
Os eleitores da época lembram que o PT, quando surgiu, praticamente não pedia votos para os seus candidatos. A propaganda se resumia a VOTE PT. E o número 13.
Porque é assim que funciona. Não importa se o eleitor votou em um candidato ou no número do partido. Tudo é somado e as vagas são distribuídas entre os partidos.
Por isso, o eleitor mais ingênuo é aquele que garante: “Eu não voto em partido, eu voto no candidato”. Nem desconfia o quanto está enganado. Poderá até chegar um pouco perto da verdade se ele der muita sorte e o seu candidato for um dos mais votados de seu partido. E, claro, o partido ganhar vagas suficientes para que ele seja incluído.
Até muitos dos candidatos mais inocentes só vão perceber durante a campanha que entraram em uma arapuca.
Uma amiga que mora no Rio me ligou há alguns dias para ver se eu podia ajudar o seu candidato. Como moro em Brasília, imaginou que poderia advertir a direção nacional do partido dele sobre o que se passava.
Ela e seu candidato descobriram que ele estava sendo traído justamente por seu partido!
Parece mentira? Pois eu asseguro que pelo menos dois terços dos candidatos passam por essa situação.
A campanha já começara oficialmente há cerca de vinte dias. O pobre candidato (deputado estadual) recebera do partido não mais que três cavaletes (três!) e, na véspera, aparecera pela primeira vez na TV. Durante míseros 8 segundos. E minha amiga injuriada porque recebia apoio muito maior outro candidato da mesma legenda e que disputa voto na mesma região.
Essa amiga tem especial interesse na eleição de seu candidato por causa do apoio que ele dá ao seu trabalho social em uma área carente do Rio. Mesmo sem ela o dizer abertamente, os dois começaram a perceber que a candidatura dele não é pra valer.
Um candidato desses é tido por seu partido como na verdade uma espécie de cabo eleitoral. Sua votação só servirá para viabilizar a eleição dos candidatos protegidos pela direção partidária.
COMO SE DÁ A CONSTRUÇÃO DA CHAPA DE UM DESSES PARTIDOS?
Dá pra considerar como exceções os partidos ideológicos: PT, PCdoB, PSol, PSTU, PCO e PCB.
Nos demais, as direções são como verdadeiros “donos” dos partidos, que conhecem as regras e se valem delas para garantir a eleição dos nomes previamente escolhidos para ganhar.
O número de vagas a que um partido tem direito no sistema proporcional é calculado pela divisão do total de votos válidos pelo número de vagas.
Veja um exemplo. São eleitos 8 deputados federais e 24 distritais no Distrito Federal. Imagine um total dos eleitores presentes que não votam branco ou nulo igual a 1,8 milhão. Cada partido só elegerá deputado distrital se alcançar no mínimo 75 mil votos. São somados os votos de todos os seus candidatos e mais os de eleitores que votem apenas no número do partido. Para conquistar uma vaga de deputado federal terá que somar pelo menos 225 mil votos. É o que se chama quociente eleitoral.
O que se fala no meio político local é que os quocientes serão de 60 mil e 180 mil votos, o que significa uma previsão de cerca de 1.440.000 votos válidos.
Daí, divide-se o total de votos de cada partido pelo quociente eleitoral. O resultado é a quantidade de vagas a que tem direito, o chamado quociente partidário.
Complicado? Só o suficiente para ser compreendido pelo chefe político e fundir a cabeça do eleitor.
O chefe político sabe quem quer eleger. Avalia o seu potencial eleitoral e calcula o quanto falta para atingir o quociente eleitoral. Então, trata de conseguir nomes que somem o suficiente de votos para chegar a esse patamar. Claro que não abrirá espaços para quem possa ultrapassar o seu candidato do peito. Ao longo da campanha, vai injetando recursos nos que podem ajudar mais. Se alguém ameaça ultrapassar o seu preferido, é só reduzir o apoio em estrutura, materiais, recursos financeiros, exposição na TV.
Pra confundir ainda mais a cabeça do eleitor desavisado, existem as coligações, que são tratadas durante as eleições como se fossem partidos. E raríssimos eleitores sabem como os partidos estão organizados nas coligações. Até porque a absurda legislação brasileira permite que as coligações de deputados estaduais (distritais) sejam diferentes das de federais e também das de governadores. E todas essas são diferentes das organizadas para apoiar um candidato a presidente.
Veja alguns exemplos. O PDT apoia Dilma Rousseff, do PT. Mas não apoia Agnelo, o candidato do PT a governador. O PPL apoia Agnelo, do PT. Mas não apoia Dilma Rousseff. A coligação do PT brasiliense para deputado federal tem também PRB, PCdoB, PP, PSC e PROS. Mas para deputado distrital a coligação é somente de PT e PP. O PCdoB, por exemplo, está coligado para deputado distrital com PPL e PTN.
Mas dá pra complicar as regras ainda mais. Quantos candidatos o partido pode lançar?
Vai depender se há mais de 20 deputados federais ou menos. Pode lançar o dobro do número de vagas se tem menos de 20 deputados federais e uma vez e meia se tem mais do que isso. Mas a coligação pode lançar duas vezes as vagas nos estados de maiores bancadas e até o triplo nos menores, como é o caso do DF.
Isoladamente ou em coligações, o Distrito Federal tem 9 chapas concorrendo a deputados federais. Para deputados distritais, são 19.
Conclusão: é feito de tudo para tratar o eleitor como um idiota, sem ter a menor condição de fazer uma escolha consciente. Resultado, o pobre escolhe um nome e pensa que está votando nele, mas está na verdade elegendo o preferido da direção do partido que o lançou. No caso do DF, é possível dizer que, antes da decisão, o eleitor não ideológico considera a possibilidade de votar em pelo menos quatro nomes para deputado distrital: alguém que conheceu no trabalho ou na escola, uma pessoa da mesma igreja, um vizinho, o amigo de um parente ou o parente de um amigo, entre tantas outras razões.
Dificilmente avalia se esse ou aquele concorrente tem alguma chance. Jamais lhe passa na cabeça que o seu voto não será desperdiçado se seu candidato não se eleger. Será aproveitado para eleger um dos mais votados do partido ou da coligação.
Até aqui, algum leitor atento talvez já esteja convencido de que é indispensável uma reforma política, que os políticos tradicionais e os “donos” da política fazem de tudo para evitar.
É POSSÍVEL VOTAR COM CONSCIÊNCIA?
Ficou assustado? Digo que não se desespere. É possível ter um mínimo de consciência na hora de escolher seu candidato. Mas vai lhe tomar alguns minutos de estudo e reflexão. Eu acho que vale a pena. Melhor que ficar se queixando da política e não ter contribuído para um resultado melhor. E melhor que virar joguete nas mãos dos espertos.
Dê um drible nos “donos” dos partidos e será menor o risco de se queixar da política depois.
Vamos voltar à análise da “construção” da chapa?
Veja o partido dos nomes em que pensou em votar. Sei que não é fácil, pois eles normalmente escondem os partidos, não os mostrando na propaganda. Geralmente, só os partidos ideológicos abrem o jogo. O partido está nos dois primeiros algarismos do número do candidato. Recorra aos portais de busca da internet (Cade, Altavista, Google, Bing) e encontrará o número de cada partido. Procure ver qual a coligação daquele partido. Lá, encontrará os nomes de todos os candidatos. Você verá que há nomes mais conhecidos, que mais aparecem nos programas de TV do partido, que têm mais material, mais presença de campanha. Se o seu não está no meio, desconfie das chances dele. Ele pode ter sido posto na chapa somente para somar votos para os preferidos. Tente chutar uma média de votos para cada candidato do grupo e veja se a soma chega naqueles 60 mil (ou 75 mil) votos. Se achar que não vai atingir isso, séria chance de não se eleger ninguém da chapa.
Em alguns casos, a análise é muito simples. Pra não cometer injustiça, o PCO lançou somente um concorrente para deputado federal e outro para distrital. Você acha que, sozinhos, terão essa votação?
Olhei a coligação formada por PDT, PSB, PSD e Solidariedade para deputados federais. Pelos nomes que estão lá, não consegui acreditar que somem 180 mil (ou 225 mil) votos. Se chegarem a isso, posso apostar que há dois nomes favoritos e, estranhamente, nenhum é do partido do candidato a governador (PSB), que lançou 10 nomes, ou do pretendente ao Senado (PDT), que tem 11 inscritos. Tenho razoável dose de certeza que não há chances fora dos nomes de Rogério Rosso (PSD) ou Augusto Carvalho (Solidariedade). Os demais estão ali para pôr areia no caminhão deles. Senão o que explicaria esses 21 políticos verem o candidato a governador aparecer na TV pedindo voto para Augusto e não para algum membro de seu próprio partido?
Este não é um método preciso. Afinal, os caras foram muito espertos na hora de pensarem as regras, fazendo de tudo para impedirem os eleitores de terem uma participação decisiva.
Mas já dá para se aproximar bastante da realidade na hora de escolher.
Se fizer um estudo um pouco mais cuidadoso vai ver que não há realmente 954 candidatos a deputados distritais no Distrito Federal. No máximo, as 24 vagas da Câmara Legislativa estão sendo disputadas por 50 nomes. Com muito boa vontade. As 8 vagas de deputados federais também não estão ao alcance dos 150 inscritos na eleição, mas a um grupo que não passa de 15 a 20 concorrentes.
Essa situação, com números diferentes, repete-se em todos os estados do País.
Fernando Tolentino

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A PRESSA ÀS VEZES NOS TRAI



Quando jovens, todos temos muita pressa!
No meu tempo de estudante secundarista e universitário, a inquietação era imensa.
Contestávamos os valores culturais, especialmente a colonização a que o Brasil já era submetido. Nasceram daí o Cinema Novo, a Bossa Nova, o Tropicalismo e tantas outras manifestações de nova cultura ou contra-cultura. Contraditamos costumes e derrubamos, por exemplo (mas não só), a inapelável exigência de virgindade como exigência para a mulher casar. Contestamos fundamentos da autoridade paterna e do distanciamento entre professores e alunos.
Perseguíamos cada vez maior liberdade, justamente quando o Brasil vivia sob uma ditadura, que não tardou a se tornar sanguinária. Mas não repelíamos apenas toda a forma de repressão, censura, perseguição às manifestações libertárias. Aqueles jovens eram sinceramente indignados com as condições sociais do País.
O retirante, banido de sua terra pela seca, pela sede, pela miséria e pela fome era uma bofetada em cada um de nós. Considerávamos simplesmente inaceitável a impossibilidade de acesso aos estudos pelas classes (em tudo) marginalizadas. Quanto mais o analfabetismo, chaga que contaminava parcela enorme da população! A morte prematura, especialmente dos que com comiseração eram chamados de “anjinhos”, pequenos caixões brancos que desfilavam diante de nós, mesmo nas capitais e cidades maiores. Moléstias como a doença de chagas, que tragavam famílias inteiras de moradores em casas de taipa, a tuberculose, a elefantíase, comum aos moradores dos “alagados”, do mangue, dos mocambos. As mortes por verminoses ou diarreias.
Tudo isso nos agredia, pois nos sentíamos responsáveis pelas condições de exclusão social. Era enorme a ansiedade por mudarmos tudo isso.
Não dava para crer em mudanças por meio de eleições. Dois partidos: o do poder e o criado para aparentar uma democracia. Se esse partido figurante, o MDB, oferecia algum risco para a supremacia do poder central, mandatos eram cassados ou as regras do jogo eram mudadas. Bem simples assim.
E nós com uma pressa enorme para superar aquilo tudo. Muitos acabamos concluindo que a saída era a revolução.
Às favas as eleições. E, já que iríamos fazer a luta para tomar o poder, por que conquistar apenas a liberdade? E muitos enveredamos por organizações que se propunham a implantar o socialismo no Brasil. Em curto prazo, claro. Polop (depois POC), PCBR, PCdoB, MR 8, Var Palmares, dissidências várias do PCB, AP (a minha Ação Popular) eram siglas que corriam de boca em boca, disputando a arregimentação de militantes e espaços no movimento estudantil.
Vários foram para a luta armada, determinados a derrubar o regime e implantar o socialismo ou, no mínimo, um estado popular.
As organizações foram praticamente exterminadas, milhares dos jovens mais comprometidos com a superação de miséria da sociedade brasileira foram presos, torturados, mortos. Não poucos tiveram que deixar o País. É claro que muita gente se acomodou. Seduzida pela fortuna ou pelo sucesso, passou a considerar uma bobagem aquele passado. Um erro ou uma brincadeira de crianças.
O regime, especialmente hegemônico após a decretação do AI 5, impôs o seu modelo. Inacreditáveis ingressos de capital estrangeiro – que gerariam uma enorme dívida externa – financiaram o que era apresentado à sociedade como modelo de desenvolvimento e modernização.
É claro que houve crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico, com a implantação de lógica, diretrizes, concepções e estilo importados. Não foram poucas as empresas que se beneficiaram com esse processo. O capital especulativo dizimou as pequenas organizações financeiras, surgindo imensos conglomerados. A economia concentrou-se ainda mais nos centros urbanos, especialmente os do Sudeste.
Enquanto se expandia a fronteira agrícola e devastavam-se os recursos florestais, o campo foi sendo contraditoriamente esvaziado, multiplicando as populações marginalizadas das grandes cidades. Devemos a esse processo o inchaço e a favelização de nossas regiões metropolitanas.
Esse processo de urbanização foi avassalador, invertendo-se o perfil de ocupação do espaço territorial ao cabo de pouco mais de duas décadas: os 70% que viviam no campo minguaram para discretos 30%.
O Brasil se tornou um país com imensas megalópoles: São Paulo beirando os 12 milhões de habitantes; Rio de Janeiro aproximando-se 6,5 milhões; Salvador, com 2,9 milhões; o Distrito Federal, já atingindo 2,8 milhões (cerca de 4 milhões, se considerado o seu entorno goiano e mineiro); Fortaleza, com mais de 2,5 milhões; Belo Horizonte, com apenas 100 mil habitantes a menos e Manaus, já ultrapassando os 2 milhões. Outras 14 capitais ultrapassam a casa de um milhão, juntando-se a esse grupo as paulistas Guarulhos e Campinas, assim como São Gonçalo, no Estado do Rio.
Esse quadro era apresentado aos brasileiros como mais uma comprovação de modernidade e desenvolvimento. Mas a verdade é que raros países do mundo convivem com uma realidade dessas.
Nos Estados Unidos, em que Nova Iorque chega a 8 milhões de habitantes, o seu tradicional centro industrial, Detroit, é a décima maior cidade, com 950 mil moradores. Paris é a única cidade francesa que bate a marca de 1 milhão e Marselha (segunda maior cidade) tem a população equivalente à de Teresina. Na Alemanha, são três: Berlim, Hamburgo e Munique (1,3 milhão). Ceilândia, maior cidade satélite de Brasília, tem população equivalente à de Florença (Itália) e à de Miami (Estados Unidos).
Nunca é demais lembrar que não se trata somente de um problema de tamanho dessas cidades, mas principalmente do caráter abrupto do processo de urbanização.
Chegaram às cidades pessoas despreparadas para a vida em centros urbanos, sem habilitação para o mercado de trabalho e facilidade para conviver com os padrões de vida de cidades. Basta lembrar o forte significado da unidade familiar que haviam deixado no meio rural. A família é uma unidade produtiva no campo e uma unidade de consumo na cidade. As migrações raramente traziam famílias para as cidades, mas quase sempre apenas um de seus membros. Em muitos casos, não se deram propriamente migrações. Pequenas cidades passaram a ter só havia mulheres e crianças, os homens deslocando-se pelo Brasil para aproveitar épocas de plantio e colheita ou constituindo o exército de “barrageiros”, gente com ocupação transitória em grandes obras.
Com níveis consideráveis de desemprego e a inexistência de programas sociais para recepcionar ou amparar as novas populações marginalizadas de nossas imensas cidades, é fácil concluir o impacto em níveis de morbidade e problemas de segurança.
Esse foi um dos aspectos mais perversos do novo Brasil, herdado dos longos anos de ditadura. E que provocaria efeitos duradouros, impactando fortemente a vida das cidades.
Ninguém diga que é fácil adaptar cidades a essa realidade, suas redes de serviços urbanos (água, eletricidade, rede viária, transportes) ou estruturas de saúde, educação, formação de mão de obra. Para não falar da face não menos visível, a de insegurança, irmã siamesa de uma sociedade socialmente desestruturada e sem condições razoáveis de sobrevivência.
É chocante ver alguém, diante dos grandes problemas atuais, dizer que isso não havia durante a ditadura, sem atentar quem foi responsável por chegarmos a tal ponto.  
COMO ENCARAR ESSA HERANÇA?
Assim se deu o processo de democratização, com uma sociedade desorganizada, sindicatos frágeis e pouco representativos das categorias profissionais, além de partidos que, na quase totalidade dos casos eram apenas arranjos eleitoreiros.
A sociedade de alguma forma se viu com a liberdade nas mãos e sem entender o que poderia fazer com aquilo.
As mudanças no modelo político tiveram o seu próprio ritmo, extremamente lento, e o modo brasileiro de se assegurar que as transições se dão sem que o poder mude de mãos.
Mal saído de um quadro político com dois partidos fortemente controlados por um regime de força, que fazia o arremedo de democracia com o uso sistemático de regras casuísticas, o Brasil ingressou em um processo constituinte, encavalado com o funcionamento de um Congresso eleito segundo as regras anteriores, até incluindo a presença de senadores que apenas cumpriam a segunda metade de seus mandatos.  
De tanto ansiar por influir decisivamente na vida nacional, ali foi produzida uma Constituição moldada para o parlamentarismo. Quando o sistema foi derrotado no plebiscito de 1993, o texto constitucional não sofreu qualquer reparo, permanecendo o Legislativo com enorme capacidade de submeter decisões de governo.
O meio político e as elites econômicas se ambientaram rapidamente. A criação de mais de meia centena de legendas partidárias casou-se perfeitamente com o modelo de eleições parlamentares, com o voto apurado proporcionalmente, mas o sufrágio realizado pelos nomes dos candidatos. Somado a isso o fato de que as coligações são amplamente livres, sem qualquer limite de número de siglas ou mesmo coerência nos diferentes níveis em disputa. Assim, as agremiações partidárias podem juntar-se em um arranjo para apoiar candidatos majoritários locais (governadores e senadores), outro no apoio aos que disputam a Presidência da República, um terceiro para a eleição de deputados estaduais (distritais no Distrito Federal) e mais um para concorrerem a deputados federais.
Essas composições sequer chegam ao conhecimento dos eleitores, que também não sabem como serão aproveitados os seus votos. Raríssimos deles têm noção que o voto dado ao seu candidato, caso ele não seja eleito, será somado para permitir a eleição de outro do mesmo partido ou coligação.
O fato se agrava pelo fato de que, fora os dos partidos com nitidez ideológica (como PT, PCdoB, PSol e poucos outros), raros candidatos usam identificação partidária em sua propaganda eleitoral.
Durante a campanha, também não é cobrada coerência dos candidatos com os compromissos assumidos por seus partidos de apoio a campanhas majoritárias, sendo comum identificar os que pedem votos para nomes presumivelmente adversários.
SEUS CANDIDATOS NÃO APOIAM QUEM VOCÊ QUER ELEGER!
Passada a eleição, a coligação é desfeita. Os partidos e os parlamentares que eles tenham eleito não têm qualquer compromisso de apoiar governadores ou presidente com os quais tenham feito campanha!
Começa a temporada de caça. Presidente e governadores eleitos são praticamente obrigados a correr atrás de apoio parlamentar para governar. São definidas as moedas de troca, poucas vezes reivindicações aceitáveis para a sociedade, quase nunca compromissos programáticos.
Essa é a discussão colocada na atual campanha com o nome de “nova política”.
Uma proposta sem dúvida encantadora, tal a justa revolta da população com o preço que supõe ser pago por esse apoio parlamentar, seja nos governos estaduais ou no nível federal, provocando imensas mobilizações populares em junho de 2013.
A presidenta Dilma Rousseff respondeu aos manifestantes com a proposta de cinco pactos: pela responsabilidade fiscal; a proposta de uma Constituinte exclusiva para tratar da reforma política (simplesmente desconsiderada pelo Legislativo); pela mobilidade urbana (R$ 50 bilhões foram acrescentados aos R$ 93 bilhões já investidos no setor desde 2011); a destinação de 100% dos recursos dos royalties do petróleo para a educação (o Congresso aprovou a medida, mas reservando 25% para a saúde); o Programa Mais Médicos, para resolver nacionalmente o problema da atenção básica à saúde.
Dilma aproveitou, portanto, as manifestações de junho, ao perceber que não eram principalmente contra o governo, mas uma denúncia enfática da necessidade de aprofundamento nas mudanças. Por mais que se tentasse dar a ideia do inverso, não foi um movimento por menos Estado, mas justamente por um Estado mais comprometido com a mudança e as carências básicas da população.
O seu governo e o de Lula fizeram até o ponto em que seria possível com uma presença progressista minoritária no Congresso Nacional. Foi muito. E é exatamente isso que me faz concluir que, com a terrível lentidão das transformações em nosso país, consegui ver realizado muito do sonho de minha adolescência: a universalização da educação, inclusive com o acesso à universidade, quando não à pós-graduação, de considerável número de filhos de pais humildes; a perspectiva, em curto prazo, de universalização da atenção básica de saúde; a garantia de uma renda mínima, que assegure a sobrevivência das pessoas não incluídas no mercado; a desconcentração regional da atividade econômica; o acesso de praticamente toda a sociedade à alimentação, à moradia e a bens de consumo e serviços antes privativos dos ricos e da alta classe média; aproximação do pleno emprego e melhor nível de remuneração, por meio da valorização do salário mínimo; maior respeito pelas manifestações culturais e religiosas diferenciadas da maioria da sociedade; maior respeito aos direitos da mulher e dos negros; reconhecimento internacional. Enfim, conquistas de que a sociedade não pode abrir mão, até por virem (pelas contas dos meus anos) atrasadas em pelo menos meio século, e que estão atravessados nas gargantas de quem sempre se beneficiou, com exclusividade, dos frutos do trabalho de todos.
Iniciada a disputa eleitoral, a dobradinha Eduardo Campos – Marina Silva tratou de assenhorear-se da grita de junho, alegando que representava aquela proposta da “nova política”. Beneficiada com a comoção decorrente da trágica morte de Campos, Marina assumiu-se como o verdadeiro arauto dessa bandeira. E o fez no melhor estilo demagógico, descendo ao nível de consciência das massas. Ou seja, tentando massificar a impressão de que isso seria possível pela mera declaração de princípios de quem viesse a ocupar o Palácio do Planalto. Alardeou que comporia o seu governo por um mero processo de análise de currículos, selecionando “os bons” de todas as posições políticas.
Criou-se, assim, uma conjunção de fatores que a impulsionou para o limiar de uma vitória no primeiro turno.
É claro que sua candidatura foi alvejada por uma sucessão de fatos que desmentiram cabalmente o seu perfil: a descoberta da ainda não explicada história de um avião sem dono, o que levara Eduardo Campos e mais seis pessoas à morte, e que, agora se sabe, era frequentemente usado por Marina; a presença na coordenação de sua campanha de uma herdeira do Itaú, por sinal o principal sustentáculo financeiro de sua aventura política; o fato de ser a sua presença determinante em questões tão importantes quanto a autonomia do Banco Central e a redução do papel dos bancos públicos; o compromisso com a flexibilização das leis trabalhistas, inclusive com a liberalização da terceirização; o passa-moleque do pastor Malafaia, por ela aceito com assustadora subserviência em questões de interesse da comunidade homossexual, entre tantos outros eventos.
Que bom! Nada tão pedagógica quanto a dissecação imposta pelo debate eleitoral.
Mas é indispensável enfatizar a mentira da “nova política” na questão da relação com o Poder Legislativo.
Diante de uma Constituição com sério viés parlamentarista, como governar sem base de apoio substancial no Congresso Nacional? Representando um partido e liderando uma coligação que não prometem eleger sequer um décimo da composição da Câmara e do Senado, além de não aparentar possibilidade de eleger um conjunto minimamente representativo de governadores?
Dos três candidatos mais cotados, até por não dispor de qualquer capital de representatividade política além de uma possível votação, Marina tenderia a ser a mais submissa às negociações com as raposas da velha política.
Isso pode ter sido justamente o que a fez, em determinado momento, a favorita da fina flor do grande capital brasileiro, a musa dos grandes grupos de mídia. Frágil, sem expressão política própria, sem sustentação parlamentar, nas mãos de quem vocês acham que cairia para poder ao menos manter-se à frente do governo?
Essa gente sabe o que representa uma nova derrota política. São insistentes os sinais de que um novo governo liderado pelo PT pode não ficar apenas na satisfação de anseios populares por inclusão social. Ao contrário, pode sustentar-se na ampla aceitação da sociedade para impor mudanças de fundo e que tiram muito mais que o sono dos eternos controladores da política nacional, como a reforma política e a regulamentação dos meios de comunicação.
Constatando a incapacidade de derrotar Dilma Rousseff com uma candidatura marcadamente à direita, enamorou-se por Marina, por sua imagem popular, mas principalmente pela enorme capacidade de dobrar a coluna. Como no episódio Malafaia e ao assimilar teses dos grandes grupos econômicos, mesmo quando representando a mais clara confrontação com o seu tradicional perfil de ambientalista, como se deu com os ruralistas que antes enfrentava.
A base conservadora de sua campanha não oferece qualquer expectativa de que Marina viesse a assumir o perfil populista de governar com as massas nas ruas, acuando permanentemente os demais poderes, como poderia parecer crível para o eleitorado mais ingênuo. Disso, resta apenas a leitura equivocada de alguns jovens sonhadores, os que sobraram à frente de seu palanque depois dos sucessivos recuos exibidos nesse mês e meio de campanha.
Melhor seria Marina assumir que a “nova política” foi só uma estratégia de publicidade eleitoral para seduzir aqueles segmentos da juventude tão apressados como os dos revolucionários da minha adolescência, mas que, hoje, não tem razões para lançar-se em algum sonho revolucionário.
Fernando Tolentino