quarta-feira, 29 de junho de 2011

CINEMA EM BRASÍLIA: DESERTO E MIRAGEM


Quem já era brasiliense pelos anos 60 e 70 sabe que a cidade tinha alguns endereços certos para se ver um bom filme: o belíssimo Cine Brasília, que, nas tardes de domingo, era mais que sala de projeção, era ponto de encontro da rapaziada; o Cine Cultura, na 507 sul, e, bem do seu lado, o Teatro da Escola Parque, que também abria suas portas para espetáculos cinematográficos, mostras e debates.

O tempo passou e, em 2011, o Cine Brasília (que, apesar de tudo, continua lindo) está fechado para reforma. O Cine Cultura, há tempos, trancou as portas para sempre e, por alguma espécie de maldição das artes, permanece lacrado, sem que nada aconteça no espaço abandonado. E o Teatro da Escola Parque está entregue à própria sorte, com cadeiras quebradas, sem ar condicionado e com um jeito triste de quem está vivo apenas por causa do carinho e da atenção de algumas poucas pessoas.

Na época, estas salas viviam cheias, o que servia para mostrar que Brasília gostava, e muito, de ir ao cinema. Depois delas, e com longos intervalos de tempo, surgiram espaços como o Cine Academia e as salas Embracine (lá longe, no Casa Park, e instaladas com dinheiro público via Agência Nacional do Cinema - Ancine). À semelhança dos seus antepassados, eram salas também com queda para o tal cinema de arte, com filmes que, muitas vezes, de tão estranhos e estrangeiros, nem inglês falavam. Falavam chinês, tailandês, italiano, espanhol com sotaque equatoriano e francês.

Mas também essas salas foram fechadas. Atualmente, há notícia de que um empresário baiano deseja investir em Brasília e abrir, aqui, novas salas para filmes alternativos. Tem, no entanto, encontrado dificuldades: onde alugar imóvel que não seja em shopping, já que uma entrequadra comercial, por exemplo, não pode ter este tipo de estabelecimento. E onde, num shopping, abrir cinema de arte que aguente os altíssimos valores dos aluguéis?

E eis que, aos 51 anos, Brasília, esta jovem senhora, se vê num beco sem saída. Suas salas de cinema se prestam a apresentações de vencedores do Oscar, a campeões de bilheteria, a espetáculos de pancadarias hollywoodianas e a inovações em 3D. Filmes que levam assinatura de diretores? Nem pensar. Obras que engrandecem a arte da fotografia? Mas o que é isso? Títulos que dêem orgulho ao elenco, a ponto de colocá-los no currículo? Não, obrigado, não estamos interessados.

Mas por quê? Parece que temos algumas respostas. Em primeiro lugar, qualquer obra de arte, de qualquer gênero, que não opte por uma veia comercial, precisa, desde o momento em que é fecundado, de subsídio e assistência. O Cine Brasília é uma boa oportunidade para esta prática e está passando por reformas para ser reaberto com o 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O que se espera é que sua manutenção seja tratada com o carinho necessário. Os diversos governos do Distrito Federal não investiram suficientemente em cultura.

Por seu lado, e por mais incômoda que seja esta constatação, temos o brasiliense. Se as salas vão se fechando e, ao longo da curta história da cidade, tornam-se sucata ou prédio com ares de abandono, o público parece não se comover. Na verdade, já não se comovia nem antes, ignorava os apelos para ir ao cinema alternativo e parecia não estar interessado em saber o que os cineastas chineses e equatorianos têm para dizer. Para muitos brasilienses, ou o cinema fala inglês e distribui porradas ou é mudo e chato.

Portanto, eis aí a encruzilhada. De um lado, temos uma administração pública que, historicamente, não se interessou em garantir apoio à cultura, que se esqueceu de cuidar dos patrimônios, e, por outro, temos o público que parece, em sua grande maioria, concordar com o que diz o resto do País, que Brasília é cidade apenas burocrática, sem queda artística, sem refinamento.

Corremos o risco de habitarmos um deserto do cinema. E a verdade é que, mais do que as autoridades (estas mesmas, que gostam de construir viadutos e alargar avenidas), mais do que os empresários que se assustam com os preços dos aluguéis, é o brasiliense quem vai mostrar que quer mudanças, que deseja ver bons filmes e que sonha com salas sem pipocas, sem coca-cola e sem celulares que se acendem e apagam durante a projeção. Enquanto isso, ficamos em casa vendo filmes na televisão.

Romário Schettino, jornalista e vice-presidente do Conselho de Cultura do DF
(Correio Braziliense, Opinião, 28/6/2011).

quinta-feira, 23 de junho de 2011

IMPRENSA SE ASSUSTOU COM O ENCONTRO DE BLOGUEIROS


Por enquanto, só a grande imprensa escrita repercutiu o II Encontro Nacional Nacional de Blogueiros progressistas. O braço televisivo da direita midiática ainda não ousa perscrutar um movimento que a grande maioria dos conservadores não entendeu.

Antes do Encontro, veículo nenhum havia noticiado que ocorreria um evento que reuniria autoridades e celebridades políticas do porte de um ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia uma desconfiança de que o ex-presidente talvez não comparecesse.

Lula não só apareceu, mas levou com ele autoridades e políticos importantes. A presença dessas pessoas foi o que deu um choque de realidade nessa grande imprensa que continua achando que pode esconder ou vetar alguma coisa.

A cobertura de Globo, Folha ou Estadão sobre o Encontro de Blogueiros sugere que julgam que podem manter o foco no financiamento do evento e caracterizar como ímpeto censor o questionamento da blogosfera à concentração de propriedade de meios de comunicação.

Mas o que foi que a grande imprensa não entendeu? Basicamente, o interesse de tantos atores políticos de peso pela blogosfera autoproclamada progressista.

Será que políticos como Lula ou José Dirceu, ou ministros, governadores, parlamentares e intelectuais de peso iriam a um evento como aquele por nada? Claro que não. Quando o ex-presidente disse que a Blogosfera tem conseguido se contrapor à grande mídia, falou sério.

O que tantos ainda não entenderam é que o Encontro de Blogueiros foi um evento de comunicadores, e não do público. Ora, quantos veículos vão aos eventos do Instituto Millenium, por exemplo? Seis, sete, dez empresas jornalísticas?

A força da Blogosfera está nessa teia comunicacional em que se transformou. São milhares de blogs e sites que, juntos, congregam tanto ou mais público do que o dos grandes jornais.

E a cobertura desses veículos, nesta segunda-feira, mostra que eles ainda têm medo de entrar de sola no assunto. Fizeram coberturas laterais através dos repórteres que enviaram ao Encontro de blogueiros.

Tentam caracterizar como ilegalidade alguns milhares de reais que empresas de economia mista, sindicatos, empresas privadas, pessoas físicas e até o governo do Distrito Federal doaram para que o Encontro se realizasse. Ou, então, inventam um ímpeto censor que inexiste.

Abaixo, mais dois exemplos do tom com que a imprensa ligada ao PSDB e ao DEM tratou II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas.

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FOLHA DE SÃO PAULO

20 de junho de 2011

BLOGUEIROS “PROGRESSISTAS” PEDEM NOVO MARCO REGULATÓRIO DA MÍDIA

DE BRASÍLIA - Uma carta aberta redigida por blogueiros que participaram de um encontro em Brasília pede novo marco regulatório dos meios de comunicação (conjunto de leis e diretrizes que regulam o funcionamento do setor) e faz ataques à mídia.

O evento, patrocinado por Petrobras, Fundação Banco do Brasil, Itaipu Binacional e governo do Distrito Federal, terminou ontem, em Brasília, e contou com a presença de cerca de 400 pessoas que apoiaram o governo Lula e a eleição de Dilma Rousseff.

“É a blogosfera que tem garantido de fato maior pluralidade e diversidade informativas”, diz trecho da carta.

Blogueiros pedem divulgação imediata do projeto redigido pelo ex-ministro Franklin Martins (Secretaria de Comunicação Social na gestão Lula), ainda não tornado público.

A abertura contou com a participação de Lula e do ministro Paulo Bernardo (Comunicações). Lula criticou o papel de “falsos formadores de opinião”, e Bernardo disse que os meios de comunicação precisam saber “ouvir críticas”.

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O ESTADO DE SÃO PAULO 

18 de junho de 2011

DIRCEU CONVOCA BLOGUEIROS CONTRA ‘GRANDE MÍDIA’

‘É reserva de mercado, não querem nos dar o direito de informar’, disse o ex-ministro

Andrea Jubé Vianna – O Estado de S. Paulo

Ao participar do Segundo Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, o ex-ministro José Dirceu convocou os blogueiros a se mobilizarem e somarem forças para o embate contra os grandes veículos de comunicação. De acordo com o ex-ministro – que se considera “o grande alvo da mídia” nos últimos dez anos –, existe uma “disputa política do direito de informar” e uma disputa comercial pela verba publicitária do governo.

“É reserva de mercado, não querem nos dar o direito de informar, querem desqualificar os blogs”, afirmou Dirceu a um auditório lotado por cerca de 200 blogueiros. Dirceu defendeu a urgente regulamentação dos meios de comunicação, a concretização do programa nacional de banda larga e a aprovação do projeto de lei 116/10, que institui novas regras para o mercado de tevê por assinatura.

“É uma vergonha que isso (a regulamentação) não seja realidade. Não é de interesse de alguns grupos (de comunicação) que estão sendo contra o progresso, eles querem manter o monopólio da informação”, criticou. Ele ainda desafiou o Congresso a aprovar a nova lei. “Se o Poder Legislativo é soberano e autônomo, ele fará a reforma (dos meios de comunicação)”.

Num tom que lembrava o ex-líder estudantil que lutou contra a ditadura militar, Dirceu prometeu unir-se aos blogueiros no embate contra os grandes meios de comunicação. “Se não travarmos essa batalha, ela não será travada. É hora de dar um grande salto, partir pra mobilização. Estou disposto a travar essa luta junto com vocês”.

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A imprensa se esquiva do ponto central desse movimento de blogueiros, que é a democratização da Comunicação no Brasil – o que seja, um marco regulatório que, entre outras coisas, não permita o atual oligopólio na comunicação por rádio e tevê.

Por conta disso, a mídia corporativa tentará não divulgar o documento final do II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. Quer fugir da questão da propriedade cruzada. Não quer discuti-la porque sabe que não tem como defendê-la.

Como a mídia vai chamar de censura o que existe até na legislação dos Estados Unidos, da Europa e de vários países da América Latina? Só lhe resta a estratégia ridícula de tentar criminalizar o apoio financeiro ao Evento do último final de semana.

A mídia corporativa e a oposição entendem ainda menos o movimento em curso do que os partidos da base aliada do governo Dilma. Mas essa base tampouco entendeu tudo. Não há um apoio incondicional ao governismo por parte da blogosfera progressista.

Autoridades do governo federal foram duramente inquiridas pelo Encontro a que compareceram. Este blogueiro, particularmente, chegou a bater boca com o ministro Paulo Bernardo, ainda que ele tenha me pedido desculpas por se exaltar.

Apesar disso, o que fiz foi o que o ex-presidente Lula tinha pedido momentos antes, que foi aquilo com que todos nós, do Encontro de blogueiros, concordamos: que aquele público fosse mesmo para cima do ministro das Comunicações.

Cobrar políticas públicas das autoridades, é um direito. Contudo, há, sim, quem, nesse movimento de blogueiros, queira um tom mais suave em relação ao governo. E é legítimo que essas pessoas queiram. São militantes e coerentes com essa militância.

Contudo, foram vencidas em votação ao fim do evento que produzirá um documento final que deve conter um tom legitimamente assertivo em relação ao governo Dilma, pedindo políticas para democratizar a comunicação.

A pluralidade de opiniões dentro do movimento dos blogueiros progressistas, é imensa. Se tivesse que caracterizá-la por viés partidário, diria que há gente do PT, do PSOL, do PMDB, do PDT, do PSB, do PC do B, etc.

Mas também há feministas, sem-terra, donas de casa, aposentados, professores, jornalistas, estudantes, sindicalistas e, até, um representante comercial como este que escreve. Temos ideologia? Sim. Unânime? Não. E é bom que seja assim.

Os blogueiros progressistas continuarão na linha questionadora não só da direita, mas também da própria esquerda e de seus braços políticos na administração pública.

Por muito tempo, a grande mídia conservadora – que ajudou a dar um golpe militar no Brasil – era a única fonte de pressão jornalística sobre o Estado. O poder de falar com as massas dava a às famílias donas de meios de comunicação uma primazia no debate público que vai sumindo.

Isso acontecendo em boa parte da América Latina, que ainda está longe das leis contra oligopólios de comunicação que vigem em países industrializados. É um processo inexorável que caminha com o desenvolvimento político, econômico e social do Brasil.

A direita midiática está perplexa, assustada e até indignada. Não entende como cidadãos comuns conseguiram erigir um movimento que vai se tornando cada vez mais estridente. Logo, a sua voz se fará ouvir em um tom que será impossível ignorar.
Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania, 20.06.2011).

OS INDIGNADOS E A NOVA ÉPOCA


O artigo, de Mauro Santayana, saiu na edição eletrônica do Jornal do Brasil no dia 16 de junho, sendo justa e imediatamente republicado pelo Conversa Afiada.

Um amigo fez o obséquio de me enviar e, de pronto, senti que precisava ser disponibilizado em meu blog. Como o Blog não conta com minha integral dedicação, só hoje encontrei condições para fazê-lo. Mas o atraso não lhe traz prejuízo. É o tipo de texto que merece ser relido na semana que vem ou daqui a alguns meses. Pelo menos. 

OS INDIGNADOS E A NOVA ÉPOCA

À insistência dos indignados espanhóis e catalães, e à continuidade das manifestações das massas nos países árabes, somam-se agora protestos, ainda discretos, de trabalhadores chineses. As contradições do capitalismo – mesmo subordinado ao Estado – começam a surgir no grande país, o maior fenômeno da sociedade industrial dos últimos tempos. Estamos diante de inevitável mudança.

Plutarco atribui a Pompeu Magno uma frase que, repetida por Ulysses Guimarães, foi emblemática no processo de transição política nacional: navigare necesse est, vivere non est necesse. A máxima do grande general escapou da circunstância, para se tornar forte símbolo da política. Ela nos incita a resistir. A vida, qualquer vida, é um processo de resistência, e mais ainda na política.

Segundo a versão, Pompeu que se encarregava de duas missões cruciais para Roma – a de limpar o Mediterrâneo dos piratas e, assim, assegurar o suprimento de cereais à grande cidade – incitou os marinheiros que, no porto de Siracusa, na Sicília, se recusavam a levantar velas, a embarcar e seguir. O céu estava carregado de nuvens sobre o estreito de Messina, a mais arriscada passagem marítima da Antiguidade. Obrigou-os a partir com a admoestação de que navegar era mais importante do que viver. Em Roma esperavam o trigo. Por isso, tinham que vencer o medo e as tempestades. Não há registro histórico de que aquelas naves tenham naufragado entre os rochedos e as correntes circulares do estreito. Chegaram, assim, ao porto de Óstia.

É forte a metáfora da navegação para explicar a vida e, especialmente a vida política. Governar é pilotar, manobrar o timão da nave, evitar os escolhos e as ondas perigosas, manter a disciplina no barco – enfim, chegar ao destino. Dessa forma devem proceder os indivíduos e as nações, embora as sociedades políticas sejam muito mais complicadas do que um barco, menor ou maior. É preciso buscar o equilíbrio entre a liberdade e a ordem, entre o Estado e a sociedade, entre a autoridade e o indivíduo. Trata-se de equilíbrio precário, com os pratos da balança oscilando a cada dia, em cada momento. Os sistemas de poder, mundiais e nacionais, costumam durar pouco, na História, que não aceita situações permanentes, embora isso não pareça aos contemporâneos de cada tempo.

As épocas saem umas das outras, como as bonecas russas. Não há rupturas absolutas. O Renascimento veio da Idade Média, como a Idade Média viera do Império Romano. O Iluminismo, a mais recente revolução histórica, não existiria sem o Renascimento, que lhe abriu as portas da percepção burguesa, para ficar na melhor interpretação marxista. Mas o Iluminismo está pedindo, agora, que de seu ventre venha nova época. Como época, em grego, significa intervalo, pausa, o Iluminismo – não obstante os processos internos de sua evolução - foi momento de relativa calma na longa história do homem. Mas iniciou sua decadência no alvorecer do século 20. Pouco a pouco, esgotou-se a capacidade intelectual que o fizera surgir. Salvo nas ciências exatas, que assombram o mundo com o seu poder inovador, a capacidade revolucionária do Iluminismo parece esgotada com Marx. Depois dele, só tivemos os que analisam o filósofo de Trier, seja para aceitá-lo, seja para repudiá-lo, mas não há pensamento novo que retorne à criatividade filosófica dos enciclopedistas e seus sucessores imediatos.

Esse é o desafio de nosso tempo. Os confrontos entre a prosperidade e a preservação da natureza; entre a babel libertária que significa a internet, e as ortodoxias, políticas ou teológicas; entre o mercado destruidor, e o necessário arbítrio regulador do Estado, além de outros, exige esforço de inteligência, do qual parecemos incapazes. Esse é o novo impasse histórico.

Mauro Santayana (Jornal do Brasil, 16.06.2011)

terça-feira, 14 de junho de 2011

AS SURPRESAS E A FORÇA DE DILMA


Passado o momento mais agudo da crise que culminou nas mudanças ministeriais determinadas pela presidente Dilma Rousseff, agora é chegada a hora de as forças progressistas que sustentam seu projeto político desarmarem a bomba propagandística de parte da grande imprensa que tenta sugerir ao país a existência de um governo fraco. As mesmas forças políticas conservadoras que perderam as três últimas eleições presidenciais no Brasil têm usado sua ascendência sobre a mídia com muita habilidade para criar uma sensação de que Dilma teria perdido o controle de seu governo. Nada mais falso, como mostraram as últimas decisões da presidente.

Após a longa hesitação que antecedeu a saída do ex-ministro Antonio Palocci, Dilma compensou ao acertar duas vezes. Ao convocar a senadora Gleisi Hoffmann para a Casa Civil e afirmar que a pasta voltará a ter funções mais voltadas ao gerenciamento e execução de políticas públicas, a presidente repete o gesto feito há seis anos pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando convocou a ela própria para substituir o então chefe da Casa Civil, José Dirceu. Sem entrar no mérito dos motivos que levaram à substituição de Dirceu, o fato, já histórico, é que a chegada de Dilma ao principal ministério deu início a um ciclo virtuoso do governo que propiciou a Lula um segundo mandato muito melhor do que o primeiro.

Lula acertou em 2005 e agora Dilma acerta também. Em que pesem os comentários preconceituosos sobre uma suposta falta de estofo político de Gleisi para o cargo ou até mesmo sobre seu jeito de “trator”, “durona” e “esquentadinha” (alguém lembra desse filme?), a senadora paranaense tem o exato perfil para recolocar a Casa Civil em um caminho muito bem trilhado sob o comando da própria Dilma no governo Lula. Além da competência administrativa comprovada em Itaipu ou quando foi secretária de governo no Mato Grosso do Sul, Gleisi parece ter a independência política necessária para cumprir o papel que dela espera a presidente. A surpresa causada por sua nomeação é fruto dessa independência e isso é um bom sinal.

A segunda surpresa – e o segundo acerto – foi o desfecho dado por Dilma para a substituição do ministro Luiz Sérgio na Secretaria de Relações Institucionais. Esse acerto, entretanto, não se dá tanto em função da substituta, que ainda terá de provar competência na nova função, mas sim pelo fato de a presidente ter jogado um balde de água gelada na crise de histeria em que já começava a se transformar a atuação da bancada do PT na Câmara dos Deputados. A ex-senadora catarinense Ideli Salvatti tem todos os predicados para obter sucesso em sua missão na articulação política do governo, mas isso dependerá fundamentalmente de uma mudança de postura do principal partido governista no Congresso Nacional.

Após essas duas movimentações acertadas feitas pela presidente no tabuleiro ministerial, é hora de os parlamentares do PT relegarem a um segundo plano a disputa mais imediata por espaço e começarem a atuar como esteio político para as duas novas ministras. No Senado, origem de Gleisi e Ideli, tudo parece mais fácil. Na Câmara, um maior esforço de coesão dos petistas é necessário. Foi a falta dessa coesão que minou Luiz Sérgio, muito mais do que uma suposta fraqueza do deputado fluminense, como apregoa parte da mídia. O excelente trânsito do agora ministro da Pesca (cargo que trocou com Ideli) entre seus colegas no Congresso já havia sido comprovado no governo Lula, mas Luiz Sérgio esbarrou na divisão da bancada petista na Câmara e também no papel centralizador assumido por Palocci.

A presidente Dilma quer se dedicar a mudar essa realidade e, a exemplo de seu antecessor, passará a acompanhar cotidianamente as negociações políticas com os partidos que apóiam o governo. Mesmo que tenha encontrado em Ideli Salvatti uma figura mais próxima na articulação política e em Gleisi Hoffmann a “Dilma da Dilma”, caberá à presidente conduzir pessoalmente esse momento de reafirmação da força política de seu governo. Dilma deverá ser a partir de agora o “Lula de si mesma” e ninguém que a conhece duvida de que tenha plenas condições de exercer esse papel.

Em sua edição de 8 de junho, o jornal carioca O Globo trazia como manchete: “Palocci cai e enfraquece Dilma com apenas cinco meses de governo”. Pelo que me lembro, é a primeira vez em que um desejo dos donos do jornal, misturado a uma notícia, ganha destaque na primeira página. Enfraquecer o governo Dilma é o maior desejo das forças conservadoras que perderam com José Serra e Geraldo Alckmin as últimas eleições, pois isso significaria uma maior possibilidade da volta dessas forças ao poder. Para quem está do outro lado, para quem apóia o projeto de transformação do Brasil que começou com Lula e tem em Dilma a força de 56 milhões de votos, é tarefa primordial evitar que esse falso enfraquecimento se torne verdade.

Maurício Thuswohl (Correio do Brasil 13/6/2011)

domingo, 29 de maio de 2011

OPOSIÇÃO E GRANDE MÍDIA CRIAM UM NOVO MENSALÃO?


A abordagem de Cláudio Ribeiro (veja abaixo texto RESSIGNIFICAÇÃO DE PALOCCI: A DEFESA DO PERSONAGEM SIMBÓLICO) é extremamente lúcida e muito oportuna.

Como a presidenta Dilma Roussef deixou claro, o ministro Antonio Palocci vem dando todas as informações necessárias para esclarecer a questão do crescimento de seu patrimônio e as continuará dando, sempre que solicitado.

A questão central, portanto, não é o crescimento patrimonial. Ou, pelo menos, não há sinais de irregularidade nele.

O que devemos atentar é com relação à postura assumida pela oposição e, principalmente, a sua repercussão na mídia.

Basta lembrar do seu silêncio com relação ao crescimento do patrimônio da filha de José Serra (50 mil vezes em 45 dias), que não mereceu qualquer destaque nos meios de comunicação. Ou mesmo o fato de que as digitais da turma do ex-concorrente tucano à Presidência foram encontrados no ruptura do sigilo de Palocci.

É importante, portanto, não esquecer do quão tenebroso se torna o quadro para a oposição à medida que se avizinham as eleições municipais de 2012.

Basta lembrar o discurso no momento em que José Serra reconheceu a derrota na disputa para a Presidência. Ao agradecer a meio mundo de colaboradores, omitiu justamente o de Aécio Neves, o nome que mesmo o mais desinformado dos eleitores brasileiros aposta como candidato tucano em 2014. Sem dúvida, uma declaração de guerra. A batalha veio a ganhar contornos ainda mais nítidos na convenção do PSDB, neste final de semana, com a eleição dos candidatos de Aécio para a Presidência (Sérgio Guerra) do Partido e do Instituto Teotônio Vilela (Tasso Jereissati), enquanto a mala Serra, para não chupar o dedo em público, teve que se contentar com a presidência de um conselho político da legenda.

O desbaratamento da oposição não fica nisso. Os tucanos já vêm perdendo quadros (inclusive a maior parte dos vereadores de São Paulo, a maior cidade do País), aliciados por Gilberto Kassab para o PSD, a legenda criada exatamente para que o prefeito se afastasse dos tucanos. O DEM, esse só não sumiu porque ainda há no Brasil quem creia em saci, coelhinho da Páscoa e Papai Noel. Substância mesmo ninguém encontra mais.

Até o PPS – que há muitos anos não consegue ter um caminho autônomo – vive trocando as pernas nas casas legislativas em que ainda tem representantes.

As eleições do ano que vem pareciam fadadas a ser um passeio para o PT e os partidos da base aliada à Presidenta. Ainda mais, muito mais, que as de 2004 para as forças que apoiavam Lula.

Se a situação ali levou à criação da história do episódio batizado pela mídia de “mensalão”, imagine agora.

Na época, era preciso a oposição ter algo que lhe permitisse dizer à opinião pública: “Vocês pensam que o PT é ético? Vejam que ele é que nem nós”. Com isso, até porque fatos desabonadores de fato ocorreram, deprimiram boa parte da militância petista e, especialmente, conseguiram animar partidos da base aliada a Lula a se coligarem com as legendas oposicionistas nas grandes cidades brasileiras.

Essa é a intenção principal da onda contra Palocci. PSDB, DEM e PPS não querem chegou aos pleitos municipais como seres repulsivos, com quem nem os noivos menos afortunados queiram se juntar.

De quebra, conseguem algum fôlego para atrair parlamentares de partidos aliados a Dilma para aventuras de rebeldia nas casas legislativas. Como se deu com a votação do Código Florestal na Câmara.

A imprensa... Ah! A grande imprensa... Quem esperava comportamento diferente?!

Fernando Tolentino

RESSIGNIFICAÇÃO DE PALOCCI: A DEFESA DO PERSONAGEM SIMBÓLICO


A caça ao ministro mais importante do governo Dilma tem os mesmos ingredientes que envolveram a queda de José Dirceu no primeiro mandato do presidente Lula: sensacionalismo seletivo da imprensa, ouriço político da oposição e traições da base governistas em votações no congresso.
Não se pretende aqui fazer uma defesa cega de Palocci ou elegê-lo ao "Olimpo" da probidade administrativa. Não é esse o raciocínio.
O raciocínio é pontual: os adversários de sempre, imprensa e oposição conservadoras, utilizam este episódio para fazer sangrar Dilma, imobilizar seu governo, escandalizar a opinião pública, tal como ocorreu em 2005 no caso do “mensalão”.
A reação tem que ser tão pesada quanto o ataque, não se pode passar a opinião pública uma imagem de acuo, beco sem saída, como tem se desenhado nas últimas semanas. É preciso contra-atacar: governo e apoiadores da sociedade, em todas as frentes.
Usuários progressistas de redes sociais, blogues e outras mídias, precisam compreender que o ataque continuará pesado e que agora os adversários vislumbram afastar do governo Dilma seus aliados da internet, fazendo com que a “derrama de denúncias” tenha também força e alcance negativo na rede mundial de computadores. Ceifando apoio de blogueiros independentes e transformando-os em disseminadores de propaganda negativa do governo.
A defesa de Palocci não significa tão somente a defesa do personagem político em si mesmo, neste momento o ministro da Casa Civil ganhou dimensões maiores que as que representa, de fato. Palocci é símbolo do governo forte saudável, por mais exagerada que esta afirmação possa parecer, visto sua posição destacada, desde a campanha até a sua nomeação para o alto cargo que ocupa no planalto. Palocci é a vidraça do governo e não faltam pedras e estilingues para lançá-las contra aquilo que, superdimensionado, significa.
O ministro precisa ser defendido não mais pela presunção de sua inocência, mas pelo significado que sua queda traria para o governo.
A queda de Palocci, nestas condições atuais, significaria um arranhão enorme para o PT e suas pretensões expansionistas nas eleições de 2012.
Também comprometeria a capacidade de articulação política do governo e poderia ascender grupos políticos conservadores para postos chaves, intermediários do governo no Congresso, adulterando, por pura necessidade de governabilidade, a agenda política ora vigente. Severino Cavalcanti ascendeu ao comando da Câmara em uma situação análoga a esta.
Além do, inevitável, afastamento de lideranças progressistas do governo, com um cenário como estes prevalecendo.
O governo poderia esvair-se de legitimidade à esquerda e tornar-se presa fácil dos fisiologistas de plantão pelo centro e á direita.
O preço é muito salgado demais, o sensacionalismo prevaleceria daí para frente, um espetéculo semanal de manchetes de jornais, revistais, TV's e portais da internet: requentando informações e alongando os capítulos à beira das eleições de 2014.
As eleições de 2012 estabelecem os territórios para quem quer chegar a 2014 em boas condições de lutar pelo poder central, um recuo do espaço hoje dominado pelos partidos governistas sinalizaria, distintamente, para dentro e fora das bases de sustentação.
Para dentro daria motivos necessários para aqueles que, por oportunismo hoje se mantém ao lado do governo, pular fora do barco.
Para fora daria sinais claros de que é possível derrotar o governo e sua coalizão heterogênea e dispersa, agregando novos aliados para a batalha eleitoral.
O governo Dilma enfrenta seu grande dilema e precisará contra-atacar com mais força e organização para evitar que estas ondas de denuncismos que atacam seu principal ministro não se transformem em um tsunami político.
O papel que creio ser o mais decisivo a se desempenhar pela blogosfera progressista nesta batalha, seja o de defender o governo contra seus detratores e preservar o ministro Palocci, principalmente pelo o que ele significa para o governo da presidenta Dilma e todos os avanços alcançados, na economia e no social desde 2003, não necessariamente pela sua representação política pessoal.
Palocci de pé é o necessário pilar de sustentação do Novo Brasil que precisa continuar avançando, se sairá um dia do governo, definitivamente não é este o momento adequado, juntar-se aos apedrejadores da oposição e da imprensa conservadora criará um vácuo no agrupamento daqueles que se proclamam progressistas e permitirá que avancem os conservadores sobre um território disperso, em conflito e fácil de ser vencido, tal como se tornou a articulação política nas últimas votações parlamentares.
Palocci deixou de ser pessoa física para resignificar nome de uma luta travada severamente pela hegemonia política do país.


Cláudio Ribeiro, no Blog Palavras Diversas

terça-feira, 17 de maio de 2011

TV CIDADE LIVRE CHEGA AOS 13 ANOS

Sessão solene da Câmara Legislativa do Distrito Federal foi palco na noite deste dia 17 de maio para a comemoração de 13 anos da TV Cidade Livre (Canal 8 da Net), a televisão comunitária de Brasília.

Nada de espetáculos feéricos de luzes e som, tietes assediando estrelas ou desfile de autoridades engravatadas tecendo loas à empresa e seus proprietários.

Ao contrário, jovens praticantes de hip-hop, militantes negros e do movimento feminino, integrantes do Movimento dos Sem-Terra, sindicalistas, artesãos, intelectuais e artistas mantidos mais ou menos à margem pelo mercado. Autoridades? Sim. O deputado Wasny de Roure (PT), autor da iniciativa, a deputada federal Érika Kokay (PT-DF), os embaixadores de Cuba, Venezuela e Iran, além de outros diplomatas bolivianos e angolanos, alguns ocupantes de importantes cargos públicos do Governo do Distrito Federal, representantes de grande número de sindicatos e outras entidades populares, além da OAB.

O coquetel – vinho, pães e queijo – veio diretamente da terra e das mãos de trabalhadores vinculados ao MST.

Os pronunciamentos se afunilaram na crítica ao padrão da televisão comercial brasileira, em que a sociedade não se sente representada, e no destaque ao papel cumprido pela emissora em seus 13 anos de atividade.

O questionamento ao padrão de TV dos grandes conglomerados de comunicação está colocado. Ainda hoje, o Ibope assinala que, pela primeira vez, os índices da Record ultrapassaram pela primeira vez os da Globo em todo o turno matutino, sugerindo que o público está em busca de novidade, ainda que não necessariamente encontrando o que quer. É nisso que acredita a unanimidade dos oradores que homenagearam a emissora.

Distante do grande público, acessível apenas para usuários de televisão a cabo, a TV Cidade Livre vem cumprindo o seu papel. Capitaneada pelos jornalistas Beto Almeida (presidente) e Paulo Miranda, tem como associados mais de meia centenas de entidades da comunidade brasiliense e diversos sindicatos, além da Federação Nacional de Jornalistas. Durante a solenidade, foi anunciada a filiação do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civi, o primeiro constituído na capital do País, ainda em 1958.

A TV Cidade Livre orgulha-se de haver transmitido, na íntegra, o Congresso Nacional do MST, o maior congresso camponês da América Latina, que contabilizou cerca de 20 mil participantes. Um feito realmente impensável na TV comercial brasileira. Como também várias edições do Fórum Social Mundial, inclusive o realizado na África.

Realizou debates entre candidatos ao governo local e à Reitoria da UnB e chegou a sediar a apuração do Plebiscito da Dívida Externa, realizado sob os auspícios da CNBB.

A TV tem aberto espaço para discussões que raramente chegam à telinha na programação comercial das grandes emissoras de canal aberto, como o tratamento sem preconceito da luta pela reforma agrária, a abertura para a defesa da nacionalização do nióbio ou, ultimamente, a defesa da Voz do Brasil, que as emissoras vinculadas à Abert se unem para tentar aniquilar.

A TV chega a promover (no “Ponto de Cultura TV em Movimento - Escola de Mídia Comunitária”, que conta com o apoio do MEC) oficinas com jovens de comunidades humildes de Taguatinga e Ceilândia, Itapoã, Sobradinho, Planaltina, Vale do Amanhecer, Riacho Fundo e outras localidades para o aprendizado de técnicas de televisão. Ali, os jovens aprendem a escrever roteiros e realizar os seus próprios programas, filmando, gravando e editando-os.

A novidade da noite foi o anúncio, por Beto Almeida, de dois novos projetos: o Direito de Antena e o Pioneiros. No primeiro, grupos da comunidade organizada poderão ocupar espaços na emissora para darem seus recados, levarem as suas mensagens sem terem que se submeter à edição dos programas pela emissora. O Pioneiros vai recolher depoimentos de pessoas que viveram os primeiros dias de Brasília, o período em que a capital começava a ser implantada.

A TV Cidade Livre, como se vê, promete aprofundar o seu compromisso de refletir o meio social em que está inserida, levando à telinha aquilo que é desprezado, censurado ou escondido pela grande televisão comercial.

Longa vida à TV Cidade Livre!

Fernando Tolentino