sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

BRASÍLIA: COMO CHEGAR A UM NOVO CAMINHO

Conhecida a equipe de Agnelo Queiroz, Brasília inicia seu novo caminho.

Este não é um governo qualquer. Brasília comemorou 50 anos em meio à maior crise de sua existência. Mas, experimentando a oportunidade de renascer daí, agora com uma população mais madura e experimentada.

Sua história é atribulada. Nasceu contestada pelos que não admitiam ver a capital fora do Rio de Janeiro. Boa parte da administração federal permanece lá e órgãos foram ali instalados mesmo após a criação de Brasília, como o BNH (já extinto) e Itaipu.

Nos primeiros anos, frustrou-se a expectativa dos brasileiros de que a capital se tornasse mais equidistante, mais próxima do conjunto da Nação. Com Jânio Quadros, contrário à consolidação da nova capital e, depois, com o golpe militar de 1964, cujo projeto exacerbava a questão da segurança do Estado e se aproveitou da sua posição geográfica para manter o governo longe das massas populares dos grandes centros urbanos.

Essa capital distante, na geografia e na política, gerou uma burguesia corrupta, beneficiada pelo autoritarismo e pela alienação forçada da população, pelo desconhecimento da sociedade sobre o que havia na intimidade do poder.

Na redemocratização, à brasileira, sem a prevalência da participação popular, esse grupo se manteve íntimo dos novos governantes. Com a autonomia do Distrito Federal, soube adaptar-se aos novos tempos e inseriu-se na política local, passando a ocupar seus espaços mais destacados, associado ao projeto do político goiano Joaquim Roriz, trazido para o Distrito Federal como governador pelo então presidente José Sarney, e que inaugurou na capital uma prática de poder paternalista, assistencialista e fisiológica.

A situação só não se eternizou porque o apetite do grupo é incontrolável e os métodos inteiramente desavergonhados. Pilhados do uso de seus mandatos para inflar seus próprios patrimônios, foram, um a um, defenestrados da vida política.

O processo culminou com a Operação Caixa de Pandora (da Polícia Federal), em que a rapinagem e o conluio saltaram aos olhos, esfarelando suas bases de sustentação.

A reviravolta e as bases para o renascimento de Brasília

Brasília renasce daí.

Há pouco mais de um ano, a reviravolta era impensável. Como mostrariam as investigações, o governo de então controlava mais de dois terços do Legislativo. Estendia os tentáculos ao Judiciário, ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas. E tinha ainda simpatia escancarada de praticamente toda a mídia local, a ponto de não prosperarem quaisquer que fossem as pautas desfavoráveis ao governador e seu grupo.

A reeleição era tido como certa, tanto que grupos tradicionalmente alinhados na oposição haviam sido cooptados e a manobra para atração de outros não era por eles repelida.

Veio o escândalo, aliados do grupo foram identificados em atos delituosos e indecorosos, sendo afastados de seus postos. O apoio da mídia foi minguando e boa parte do grupo, inclusive o governador e seu vice, foi afastado da atividade política.

A eleição propiciaria o aniquilamento simultâneo de criador e criatura da verdadeira máfia instalada no poder local. Só não se pode falar em faxina definitiva na política brasiliense porque não poucos protagonistas identificaram os rumos antes do naufrágio e conseguiram se readequar às novas circunstâncias, aninhando-se na companhia dos que, vindos da oposição, sairiam vitoriosos da disputa política.

Como era previsível, o PT foi o grande vitorioso. Em pouco mais de um ano, saiu do canto do ringue, isolado até por parceiros históricos, e elegeu o governador Agnelo Queiroz, criou as condições para a conquista das duas vagas do Senado para políticos aliados (Cristovam Buarque, do PDT, e Rodrigo Rollemberg, do PSB), triplicou o número de deputados federais e robusteceu sua presença na Câmara Legislativa.

Na bancada federal, além de Magela, que está no terceiro mandato e usufrui de razoável influência nacional, o Partido elegeu Paulo Tadeu e Érika Kokai, ambos trazendo nas bagagens experiências bem sucedidas em mandatos locais.

A representação local do PT, que liderará a base de apoio do governador, não será apenas maior. Será a mais experiente bancada do Partido na Câmara Legislativa. Cabo Patrício e Chico Leite foram da linha de frente das investigações da Caixa de Pandora. Chico Vigilante e Wasny de Roure trazem experiências de mandatos federais e distritais. Arlete Sampaio já integrou a bancada local do Partido e foi vice-governadora.

Um governo de coalisão e o choque de opinião pública

A vitória eleitoral do PT parecia fácil. Pelo menos, era a convicção de um bom número de seus militantes. O sentimento geral era de euforia com a eliminação de José Roberto Arruda, visto como o adversário mais forte desde que derrotou Joaquim Roriz no primeiro turno há quatro anos. Não bastante, a sucessão de escândalos fragilizara as bases dos dois, não mais vistos como boas companhias para a maior parte dos políticos conservadores locais. A liderança de peso que remanescente do grupo era Tadeu Filippelli, afastado do rorizismo, onde também surgira.

Mas o PT entendeu que não deveria marchar sozinho. Filippelli vencera Roriz no PMDB e o expeliu do Partido, ficando com o seu espólio. O PMDB integra a base de apoio nacional de Lula e, por isso, participaria, em âmbito nacional, do palanque de Dilma Rousseff. Além disso, Filippelli tinha em torno de si alguns partidos menores com condição de eleger deputados distritais. Empurrá-lo para uma candidatura alternativa poderia representar maior dificuldade para a vitória majoritária do PT. O mais significativo, porém, é que tê-lo no palanque garantiria antecipadamente base de sustentação na futura Câmara Legislativa para Agnelo.

A vitória foi consagradora, mas o PT tinha clareza que ter uma ampla aliança eleitoral significava contar no governo com parceiros com quem não tem afinidade política. Em comum, quando muito, o compromisso de sepultar o rorizismo e oferecer à sociedade brasiliense uma alternativa ao arrudismo.

Não se trata de tarefa fácil.

Os primeiros problemas são a leitura da base social que elegeu o governador e o risco de um razoável desapontamento ao não se identificar na composição de governo a proposta exposta na campanha. Realmente, nela a cor predominante era a do PT. Isto é, a esmagadora maioria dos eleitores de Agnelo identificara a sua candidatura como uma proposta de governo petista. Colocados os nomes da composição de seu governo, é natural que a sociedade não enxergue claramente em todos os compromissos que pretendeu ver no GDF.

Até porque, há nessa base parlamentar deputados emporcalhados ou, pelo menos, seriamente chamuscados pelo escândalo da Caixa de Pandora. Nem de longe se aproximam da hegemonia do governo ou da sustentação parlamentar, mas que causam uma certa estranheza nas bases do novo governo, lá isso causam!

De fato, somente nove dos 31 membros do primeiro escalão de Agnelo têm vínculo com o PT. Há certa proporcionalidade com a sua base de apoio na Câmara Legislativa, mas está distante da visão da opinião pública com relação ao seu futuro governo.

Além dos secretários petistas, há mais seis com militância na esquerda ou próxima ao PT: Gastão Ramos (Ciência e Tecnologia), do PSB, integrou a chapa de Arlete Sampaio em 2006, como vice; Rafael Barbosa (Saúde), participou do governo de Cristovam Buarque; Dioclécio Campos Junior (Criança); Célio René Trindade Vieira (Esporte); Eduardo Brandão (Meio Ambiente), presidente do PV e candidato ao GDF no primeiro turno; e Olgamir Amância Ferreira (Mulher), do PCdoB. Somados aos petistas, isso é menos da metade.

O quadro é semelhante entre as administrações regionais. Os deputados de partidos aliados a Agnelo na campanha eleitoral indicaram os administradores regionais, enquanto no PT, a deputada distrital Arlete Sampaio, por exemplo, teve o seu pleito (Cruzeiro) preterido por uma indicação de partido que sequer obteve registro eleitoral: o Partido Pátria Livre.

A composição mostra como será exigida enorme capacidade de harmonização da equipe por Agnelo. O grupo é ideológica e politicamente contraditório e isso antecipa dificuldades de articulação entre os diferentes órgãos governamentais.

As primeiras crises se deram com a não identificação das bases populares de diferentes cidades satélites com os nomes indicados suas administrações regionais. O Partido não se sente contemplada no Cruzeiro, onde o administrador também conta com rejeição na comunidade, granjeada no curto período em que esteve no cargo, no governo tampão de Rogério Rosso. Em São Sebastião, a indicação para da administradora causou revolta nas bases sociais de Agnelo, inconformada com a escolha, até por esperar, no mínimo, um nome de pessoa da própria comunidade. O fato de não morar no local também causou certa insatisfação com a futura administradora da Estrutural.

A tranquilidade do novo governo depende, em boa medida, do entusiasmo que possa despertar no seu próprio partido, o PT. A verdade é que, na composição da equipe de Agnelo, boa parte da estrutura partidária e, especialmente, a sua base sindical foram preservadas. Pode-se lembrar experiências anteriores de governos petistas que recolheram quadros nas direções do Partido e dos sindicatos, deixando um e outros fragilizados e, daí, sem condições de contribuir na interlocução com a sociedade. Isso não se deu na escolha dos principais cargos do novo governo do Distrito Federal.

Antecipe-se, em seu favor, ainda, que Agnelo é um notório estrategista e articulador, além de estar cercado de alguns craques nesse tipo de movimento, como o deputado Paulo Tadeu (Governo), Jacques Pena (Casa Civil) e Cláudio Monteiro (Chefia de Gabinete). E o vice, Tadeu Filippelli, a quem cabe manter a estabilidade no campo dos partidos menos identificados com o PT.

Incerteza de um lado, esperança do outro. Está lançada a sorte de Brasília para que realmente encontre um novo caminho.

Fernando Tolentino

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

VEJA: MÁ VONTADE E PRECONCEITO CONDUZEM À CEGUEIRA




Resposta do ministro Jorge Hage a editorial de balanço da revista Veja:


Brasília, 27 de dezembro de 2010.


Sr. Editor,

Apesar de não surpreender a ninguém que haja acompanhado as edições da sua revista nos últimos anos, o número 52 do ano de 2010, dito de “Balanço dos 8 anos de Lula”, conseguiu superar-se como confirmação final da cegueira a que a má vontade e o preconceito acabam por conduzir.

Qualquer leitor que não tenha desembarcado diretamente de Marte na noite anterior haverá de perguntar-se “de que país a Veja está falando?”. E, se o leitor for um brasileiro e não integrar aquela ínfima minoria de 4% que avalia o Governo Lula como ruim ou péssimo, haverá de enxergar-se um completo idiota, pois pensava que o Governo Lula fora ótimo, bom ou regular. Se isso se aplica a todas as “matérias” e artigos da dita retrospectiva, quero deter-me especialmente às páginas não-numeradas e não-assinadas, sob o título “Fecham-se as cortinas, termina o espetáculo”. Ali, dentre outras raivosas adjetivações (e sem apontar quaisquer fatos, registre-se), o Governo Lula é apontado como “o mais corrupto da República”.

Será ele o mais corrupto porque foi o primeiro Governo da República que colocou a Polícia Federal no encalço dos corruptos, a ponto de ter suas operações criticadas por expor aquelas pessoas à execração pública? Ou por ser o primeiro que levou até governadores à cadeia, um deles, aliás, objeto de matéria nesta mesma edição de Veja, à página 81? Ou será por ser este o primeiro Governo que fortaleceu a Controladoria-Geral da União e deu-lhe liberdade para investigar as fraudes que ocorriam desde sempre, desbaratando esquemas mafiosos que operavam desde os anos 90, (como as Sanguessugas, os Vampiros, os Gafanhotos, os Gabirus e tantos mais), e, em parceria com a PF e o Ministério Público, propiciar os inquéritos e as ações judiciais que hoje já se contam pelos milhares? Ou por ter indicado para dirigir o Ministério Público Federal o nome escolhido em primeiro lugar pelos membros da categoria, de modo a dispor da mais ampla autonomia de atuação, inclusive contra o próprio Governo, quando fosse o caso? Ou já foram esquecidos os tempos do “Engavetador-Geral da República”?

Ou talvez tenha sido por haver criado um Sistema de Corregedorias que já expulsou do serviço público mais de 2.800 agentes públicos de todos os níveis, incluindo altos funcionários como procuradores federais e auditores fiscais, além de diretores e superintendentes de estatais (como os Correios e a Infraero). Ou talvez este seja o governo mais corrupto por haver aberto as contas públicas a toda a população, no Portal da Transparência, que exibe hoje as despesas realizadas até a noite de ontem, em tal nível de abertura que se tornou referência mundial reconhecida pela ONU, OCDE e demais organismos internacionais.

Poderia estender-me aqui indefinidamente, enumerando os avanços concretos verificados no enfrentamento da corrupção, que é tão antiga no Brasil quanto no resto do mundo, sendo que a diferença que marcou este governo foi o haver passado a investigá-la e revelá-la, ao invés de varrê-la para debaixo do tapete, como sempre se fez por aqui.

Peço a publicação.

Jorge Hage Sobrinho
Ministro-Chefe da Controladoria-Geral da União

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ÚLTIMO PRONUNCIAMENTO DO PRESIDENTE LULA

http://www.youtube.com/watch?v=hGzgLF6hxGw


Estou com 62 anos e faço militância política desde os 14 anos.

Uma militância como a de Lula, de Dilma e milhares de brasileiros, que hoje podem comemorar ou já não estão entre nós. A militância pela democracia, pela justiça social, pela prevalência dos interesses dos trabalhadores e setores sociais marginalizados durante cinco séculos em nosso País e outros tantos no resto do mundo.

A partir de 1989, faço seguidas campanhas para ter Lula na Presidência da República e, desde 1997, sou militante do Partido dos Trabalhadores.

Como petista, militante, cidadão e brasileiro, sou um entre milhões de pessoas que possibilitou que tivéssemos a felicidade de viver este momento: a conclusão vitoriosa de dois governos de Lula.

Sou também um entre milhões de brasileiros que tem, hoje, a felicidade de comemorar a continuidade do projeto petista, com o governo da companheira Dilma Rousseff.

No caso de Brasília, ainda comemoro a morte do clientelismo, do paternalismo e do assistencialismo de Roriz, com as vitórias dos companheiros Agnelo Queiroz (governador); Érika Kokai, Paulo Tadeu e Geraldo Magela (deputados federais); Arlete Sampaio, Wasny de Roure, Chico Leite, Chico Vigilante e Cabo Patrício (deputados distritais). Além de Cristovam Buarque e Rodrigo Rollemberg para as duas vagas do Senado Federal.

Há mais. Como milhões de cidadãos do mundo, também posso comemorar a vitória do PT no Brasil, pois ela serve para fortalecer as lutas dos povos oprimidos e o a consolidação dos governos libertadores e progressistas.

Sei que ainda tenho muito a fazer na vida.

Mas já sou vitorioso!

Fernando Tolentino

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

UMA PAUTA DE VERDADE: DESAFIO À IMPRENSA BRASILEIRA

Fernando Tolentino

Ao se despedir, na condição de presidente do Brasil, dos demais chefes de Estado da América Latina, Luiz Inácio da Silva, o Lula, aproveitou, em Mar del Plata, para apresentar a sua sucessora, Dilma Rousseff. E o fez sem perder a oportunidade de antegozar essa sucessão como prova irrefutável da consolidação da democracia brasileira. Lembrou o passado de militante política clandestina da nova presidente, que chegou a ser condenada e cumprir pena, antes sendo barbaramente torturada.
Lula disse que já imaginava, quando Dilma subisse a rampa do Planalto, no que estaria pensando o seu antigo torturador.
Assim, o presidente originário do meio operário exercia a sua singular capacidade de flagrar, na sua inteireza, a importância de cada momento político.
Ele bem sabe que não anima a Dilma qualquer sentimento revanchista, um traço que serve para evidenciar a grandeza de sua sucessora e marcar profundamente aquela consolidação democrática a que Lula se referiu.
Se é possível chamar assim, a “vingança” de Dilma Rousseff, como a de Lula, cada um com a sua singularidade, está em mostrar que, ao contrário de seus algozes, podem redefinir o projeto de desenvolvimento brasileiro. Retirar o País de uma situação de quase insolvência para levar a uma marcha batida em direção ao grupo das nações mais desenvolvidas do mundo. Como Lula destacou, ele sai do governo e Dilma assume quando se coloca a perspectiva concreta, para um horizonte muito próximo, de o Brasil figurar entre os cinco países mais desenvolvidos.
Isso é muito. E é muito mais quando se observa que esse desenvolvimento se dá com distribuição de renda, uma alternativa liminarmente descartada nos anos de regime militar e que não foi enfrentada pelos sucessivos presidentes da fase de redemocratização.
É certo que os dois presidentes – o que sai e a que entra – não têm a tendência de descambar para o revanchismo, limitando-se a curtir a curiosa circunstância de uma ex-militante da resistência à ditadura ocupar, pela via democrática, a cadeira que parecia definitivamente reservada aos ditadores.
A sociedade, porém, ainda espera pela verdade. A grande mídia carioca e paulistana tem uma visão diferente do que seja essa verdade. Nas reuniões corporativas, os proprietários de jornais, emissoras de rádio e TV insistem na tecla de que sua única missão é levar ao noticiário os fatos que a sociedade quer conhecer.
Ao ver a iminência de vitória da candidatura à Presidência da antiga militante e, especialmente, quando Dilma viabilizou sua eleição, essa mídia (Folha de São Paulo e Globo) não abriu mão de apossar-se dos autos do processo da nova presidente na Justiça Militar. Entendeu que eram fatos de primeira grandeza, a excitar a curiosidade de seu público.
Pois bem, a partir da singela reflexão do presidente Lula em sua fala aos Chefes de Estado que lhe rendia estrepitosa homenagem na Argentina, os barões da grande mídia brasileira, seus editores, ganham uma pauta irrecusável. Esta, sim, capaz de satisfazer leitores, espectadores e ouvintes.
Dificilmente, há hoje um só brasileiro que não quisesse conhecer os torturadores de Dilma Rousseff. Quem são? Como vivem e de que vivem atualmente? Estão em paz com as suas conscicências? Sentem-se realizados pessoal e profissionalmente por terem torturado Dilma e tantos outros lutadores da resistência? Vivem tranqüilos com suas mulheres e filhos? Em quem votaram nesta eleição?
Esta é a verdadeira pauta dos grandes veículos de comunicação brasileiros. Buscar esses torturadores, identificá-los, entrevistá-los, ouvir seus vizinhos, parentes e amigos. Negligenciar essa pauta é negar o papel de imprensa de que tanto se orgulham.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O MINISTRO X-9


Leandro Fortes

Os telegramas de Clifford Sobel nos deixaram,
outra vez, descalços no quintal do império

Uma informação incrível, revelada graças às inconfidências do Wikileaks, circula ainda impunemente pela equipe de transição da presidente eleita Dilma Rousseff: o ministro da Defesa, Nelson Jobim, costumava almoçar com o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Clifford Sobel para falar mal da diplomacia brasileira e passar informes variados. Para agradar o interlocutor e se mostrar como aliado preferencial dentro do governo Lula, Jobim, ministro de Estado, menosprezava o Itamaraty, apresentado como cidadela antiamericana, e denunciava um colega de governo, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, como militante antiyankee. Segundo o relato produzido por Clifford Sobel, divulgado pelo Wikileaks, Jobim disse que Guimarães “odeia os EUA” e trabalha para “criar problemas” na relação entre os dois países.

Para quem não sabe, Samuel Pinheiro Guimarães, vice-chanceler do Brasil na época em que Jobim participava de convescotes na embaixada americana em Brasília, é o atual ministro-chefe da Secretaria Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE). O Ministério da Defesa e a SAE são corresponsáveis pela Estratégia Nacional de Defesa , um documento de Estado montado por Jobim e pelo antecessor de Samuel Guimarães, o advogado Mangabeira Unger – com quem, aliás, Jobim parecia se dar muito bem. Talvez porque Unger, professor em Harvard, é quase um americano, com sotaque e tudo.
Após a divulgação dos telegramas de Sobel ao Departamento de Estado dos EUA, Jobim foi obrigado a se pronunciar a respeito. Em nota oficial, admitiu que realmente “em algum momento” (qual?) conversou sobre Pinheiro com o embaixador americano, mas, na oportunidade, afirma tê-lo mencionado “com respeito”. Para Jobim, o ministro da SAE é “um nacionalista, um homem que ama profundamente o Brasil”, e que Sobel o interpretou mal. Como a chefe do Departamento de Estado dos EUA, Hillary Clinton, decretou silêncio mundial sobre o tema e iniciou uma cruzada contra o Wikileaks, é bem provável que ainda vamos demorar um bocado até ouvir a versão de Mr. Sobel sobre o verdadeiro teor das conversas com Jobim. Por ora, temos apenas a certeza, confirmada pelo ministro brasileiro, de que elas ocorreram “em algum momento”.
Mais adiante, em outro informe recolhido no WikiLeaks, descobrimos que o solícito Nelson Jobim outra vez atuou como diligente informante do embaixador Sobel para tratar da saúde de um notório desafeto dos EUA na América do Sul, o presidente da Bolívia, Evo Morales. Por meio de Jobim, o embaixador Sobel foi informado que Morales teria um “grave tumor” localizado na cabeça. Jobim soube da novidade em 15 de janeiro de 2009, durante uma reunião realizada em La Paz, onde esteve com o presidente Lula. Uma semana depois, em 22 de janeiro, Sobel telegrafava ao Departamento de Estado, em Washington, exultante com a fofoca.
No despacho, Sobel revela que Jobim foi além do simples papel de informante. Teceu, por assim dizer, considerações altamente pertinentes. Jobim revelou ao embaixador americano que Lula tinha oferecido a Morales exame e tratamento em um hospital em São Paulo. A oferta, revela Sobel no telegrama a Washington, com base nas informações de Jobim, acabou protelada porque a Bolívia passava por um “delicado momento político”, o referendo, realizado em 25 de janeiro do ano passado, que aprovou a nova Constituição do país. “O tumor poderia explicar por que Morales demonstrou estar desconcentrado nessa e em outras reuniões recentes”, avisou Jobim, segundo o amigo embaixador.
Não por outra razão, Nelson Jobim é classificado pelo embaixador Clifford Sobel como “talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil”. Não é difícil, à luz do Wikileaks, compreender tamanha admiração. Resta saber se, depois da divulgação desses telegramas, a presidente eleita Dilma Rousseff ainda terá argumentos para manter Jobim na pasta da Defesa, mesmo que por indicação de Lula. Há outros e piores precedentes em questão.
Jobim está no centro da farsa que derrubou o delegado Paulo Lacerda da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), acusado de grampear o ministro Gilmar Mendes, do STF. Jobim apresentou a Lula provas falsas da existência de equipamentos de escutas que teriam sido usados por Lacerda para investigar Mendes. Foi desmentido pelo Exército. Mas, incrivelmente, continuou no cargo. Em seguida, Jobim deu guarida aos comandantes das forças armadas e ameaçou renunciar ao cargo junto com eles caso o governo mantivesse no texto do Plano Nacional de Direitos Humanos a idéia (!) da instalação da Comissão da Verdade para investigar as torturas e os assassinatos durante a ditadura militar. Lula cedeu à chantagem e manteve Jobim no cargo.
Agora, Nelson Jobim, ministro da Defesa do Brasil, foi pego servindo de informante da Embaixada dos Estados Unidos. Isso depois de Lula ter consolidado, à custa de enorme esforço do Itamaraty e da diplomacia brasileira, uma imagem internacional independente e corajosa, justamente em contraponto à política anterior, formalizada no governo FHC, de absoluta subserviência aos interesses dos EUA.
Foi preciso oito anos para o país se livrar da imagem infame do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer tirando os sapatos no aeroporto de Miami, em dezembro de 2002, para ser revistado por seguranças americanos.
De certa forma, os telegramas de Clifford Sobel nos deixaram, outra vez, descalços no quintal do império.


Postado no blog Brasília eu Vi (http://brasiliaeuvi.wordpress.com)

às 16h24 de 30 de novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AS DUAS VITÓRIAS DE 2010



Passadas as primeiras águas do segundo turno, é o momento de entender mais profundamente o processo e desembaçar as janelas para vislumbrar o futuro.


É possível dizer que o Brasil teve duas grandes vitórias?


A primeira foi a própria eleição de Dilma Rousseff.

É uma vitória de importância fundamental por ser a primeira vez que uma brasileira chega à Presidência da República no Brasil. Não é pouco em um país de cultura marcadamente machista e em que a política é tida como um território desaconselhável para a mulher.

Quem não viu, nesta campanha, ao menos um gesto de resistência a essa possibilidade?

Nem me refiro às grosserias de seu opositor, sempre sugerindo a incapacidade de Dilma para dirigir alguma coisa, decifrar questões mais complexas ou até compreender as perguntas que lhe fazia durante os debates. Falo da sua correspondência no imaginário popular, que Serra pretendia atingir, para inibir a corrida em direção à concorrente.

Ao parar para abastecer, na volta de Caldas Novas, em Goiás, o frentista comentou comigo que o Brasil nunca teve um presidente como Lula. Quando perguntei se votara em Dilma, confidenciou: “Não dei conta”. Diante de minha reação, foi mais enfático na incongruência ideológica: “Mas torci pro PT em Brasília; se eu morasse lá, ia votar em Agnelo”. Não me surpreendi. Já ouvira respostas assim, mais ou menos dissimuladas, em toda a minha vida de militante.

Pois o Brasil, que levou à Presidência um operário, de quem se dizia ser um “analfabeto” por não dispor de um diploma de graduação universitária, agora terá uma mulher comandando tantos quantos sejam os homens que terá em seu governo. Isso é muito! Mas não é tudo.

Queiram ou não os adversários, o Brasil será dirigido por uma gerente espetacular. Os críticos de Lula gostavam de dizer que ele não parava em Brasília para governar, que não sabia nada do seu próprio governo. Se fosse verdade, como explicar os resultados inequivocamente positivos na gestão da economia e especialmente da crise, nas políticas sociais, na política externa, na articulação política ou no relacionamento com o resto do mundo? Se não foi Lula (visto pelos detratores como um ausente), quem teria dirigido e coordenado o seu governo? Eles, é claro, se calam.


O processo eleitoral avançou


Ainda não é o principal. Esta eleição representou um salto qualitativo ainda não suficientemente avaliado.

No passado recente, o Brasil viveu várias eleições em que a sociedade se limitava a posicionar-se diante da ditadura militar. A cada pleito, evidenciava-se a rejeição da sociedade. O governo criava regras para inibir essa manifestação: extinção dos partidos e confinamento apenas na Arena e no MDB, sublegenda para cargos majoritários, fidelidade partidária, verticalização do voto, coincidência de eleições gerais, senadores biônicos, alteração da proporção de representação dos estados, interferências nas regras de propaganda eleitoral e, por fim, a extinção dos partidos criados por imposição da própria ditadura e obrigatoriedade de criação de novas legendas. A cada novo pacote de casuísmos a sociedade encontrava meios para driblá-las.

Em 1986, a escolha de constituintes deu certo caráter ideológico à primeira eleição do período da redemocratização, boa parte dos partidos e candidatos discutindo propostas de sociedade. É claro que isso se restringia a um determinado segmento da sociedade e à propaganda formal. Prosperavam nos redutos eleitorais tradicionais e nos estratos sociais menos esclarecidos e mais carentes os mesmos mecanismos clientelistas e práticas populistas e despolitizadas.
Esse caráter ideológico se aprofundou em 1989, a primeira eleição direta para a Presidência desde o movimento militar de 1964. Foi uma eleição solteira, em que não havia disputa para qualquer outro cargo eletivo. Daí, embora as campanhas buscassem enraizamento a nível municipal, os candidatos tinham que falar diretamente aos eleitores, o que lhes impunha a explicitação do discurso. Nem todos os 21 candidatos tinham nitidez de posições, mas dá pra imaginar a diversidade ideológica do debate.

As eleições seguintes foram todas casadas, em que há forte influência dos candidatos proporcionais como puxadores de votos para governadores, senadores e presidente. São pleitos que favorecem os partidos com grande número de prefeitos, fortes estruturas e bancadas, especialmente nas regiões menos desenvolvidas. Influi decisivamente o poder político local, notadamente nos grotões, com forte dependência do eleitor com relação aos chefes políticos e praticamente nenhuma consciência política das massas. O debate propriamente político se circunscreve a grupos urbanos de classe média e aos detentores de poder econômico, que manipulam o processo em seu próprio proveito.

Em 1994, o forte impacto do sucesso inicial do Plano Real caminhou junto àquele voto dirigido pelas máquinas partidárias. As maiores carregavam a candidatura de Fernando Henrique Cardoso, seja na coligação PSDB, PFL, PTB ou, informalmente, PMDB e PPR (atual PP). Orestes Quércia (PMDB) teve somente 4,38% dos votos e Espiridião Amim (PPR) não passou de 2,75%. Fernando Henrique (54,27) venceu no primeiro turno, numa disputa em que praticamente não houve discussão política.

Durante o seu primeiro mandato, Fernando Henrique instituiu a reeleição e, na corrida sucessória (1998), conseguiu formalizar a base de apoio informal da disputa anterior e do próprio mandato, uma coligação com PSDB, PFL, PPB e PTB e, ainda, o apoio do PMDB. Repetiu-se o processo despolitizado de quatro anos antes e Fernando Henrique teve nova vitória em primeiro turno, com 53,06% dos votos. Lula e o PT cresceram dos 27,04% do pleito anterior para 31,71%.

Em 2002, o PSDB lançou José Serra, tentando repetir a tática que dera certo. Só não contava com a pretensão da governadora maranhense Roseana Sarney, do PFL, que explodiu nas primeiras pesquisas de opinião, encostando em Lula e ocupando o lugar que os tucanos supunham reservado para o seu candidato. Como era preciso desalojá-la dali, veio a Operação Lunus, da Polícia Federal: um monte de dinheiro exposto em rede nacional de TV e dado como parte do caixa 2 de sua campanha. O projeto de Roseana desabou. Serra até conseguiu colar o PMDB à sua candidatura. Mas o PFL ficou ao menos formalmente fora e José Sarney não engoliu a manobra contra a filha e apoiou Lula. Informalmente, porém, contou com quase o mesmo enraizamento municipal de Fernando Henrique.

A insatisfação da sociedade com os dois governos tucanos era grande e Lula insistiu no debate político das questões centrais deles: o desmonte da máquina estatal e o arrocho sobre os servidores públicos, a reforma previdenciária à chilena (tendo em vista o fortalecimento dos fundos de pensão), a política de privatizações, a perda de poder aquisitivo dos trabalhadores e da classe média, o forte endividamento externo, a estagnação da economia. E, claro, os retumbantes casos de corrupção. No primeiro turno Lula teve 46,44% e Serra 23,196% dos votos. A discussão política se intensificou e Lula venceu, no segundo turno, com 61,3% da votação.

O primeiro governo de Lula teve sérios problemas de articulação política. A tremenda crise econômica e financeira em que assumiu o obrigou a impor medidas rígidas, causando desgaste na sua própria base social, especialmente os servidores públicos. A base parlamentar limitadíssima o forçou a manter negociações penosas e que motivaram desapontamento entre apoiadores tradicionais.

A campanha da reeleição (2006) se deu no escoadouro dessa crise, principalmente de identidade, causada pelos episódios que a mídia chamou de “mensalão”, por medidas políticas que não eram esperadas por sua própria base, como a reforma da previdência, e pela ampliação do arco de alianças, tido como excessivamente amplo por setores do Partido dos Trabalhadores. A campanha do primeiro turno refletiu a composição mais conservadora da coligação que então apoiava Lula, despolitizando o debate.

Ainda assim, o primeiro governo de Lula lograra maior reequilíbrio das contas públicas e da dívida externa, melhorara as relações com os movimentos sociais, aumentara as taxas de desenvolvimento e o nível de emprego e implantara programas sociais importantes. Além disso, o Brasil se reposicionou no mundo, aproximando-se da América Latina, da África, dos países árabes e da China. Junto à ampliação da coligação que apoiava a sua reeleição e ante a fragilidade do adversário, a expectativa era de que a eleição se liquidasse no primeiro turno.

Lula chegou perto, com 48,61% dos votos, mas a vitória só veio no segundo turno, quando ele politizou o discurso, evidenciando compromissos mais avançados com setores sociais mais amplos. Atingiu 60,83%.


2010, um novo paradigma


A eleição deste ano se dá após os dois períodos de Lula, que participou intensamente da campanha. Dilma Rousseff esteve a centímetros da eleição no primeiro turno, em que alcançou 46,91% dos votos. No segundo turno, Dilma chegou a 56,05% do eleitorado.

Prestígio pessoal? Capacidade de transferência de votos? Empatia com o eleitorado? São explicações que, aqui e ali, a imprensa veicula para explicar como Lula conseguiu fazer de Dilma uma candidata vencedora.

O que lhes chama a atenção é que Lula sagrou Dilma como candidata sem que ela tivesse qualquer experiência eleitoral anterior. E isso soa muito estranho para a maioria dos analistas. Como é que ele teria coragem de colocar uma estreante em disputas eleitorais para enfrentar um dos políticos mais experientes do Brasil? José Serra foi deputado, constituinte, senador, prefeito da maior cidade da América Latina, onde deixou o seu vice e o reelegeu sem qualquer dificuldade. Depois de ocupar dois ministérios, governou São Paulo, um Estado que reúne, sozinho, 22,3% dos eleitores brasileiros e em que os tucanos se sucedem desde janeiro de 1995.

Na lógica do PSDB seria um passeio. Serra se preparava para uma vitória no primeiro turno, animado com os índices das primeiras pesquisas de opinião, que lhe davam uma dianteira em torno de 30 pontos. Bastaria pacificar sua relação com o ex-governador mineiro Aécio Neves, que saíra do governo com um índice de popularidade de quase 80%. Minas tem o terceiro colégio eleitoral do País e, junto com São Paulo, beira um terço do eleitorado nacional. Aécio ainda tinha sangue fresco nas feridas causadas pela disputa velada com Serra pela indicação tucana. Mas Serra costuma raciocinar com a teoria do fato consumado. Venceu. Logo, trata-se de negociar a melhor forma de rendição entusiástica. Frustrou-se o apelo para que Aécio aceitasse a candidatura a vice. Tentaria outras abordagens. Aécio não deixaria de contribuir para uma candidatura vitoriosa e não quereria arcar com o ônus da derrota de um candidato cuja vitória era dada como certa.

Lula, porém, sabia o que estava fazendo. Em primeiro lugar, escolheu bem. Ousou, pois sempre foi adepto de desafios, e determinou-se a romper mais um preconceito enraizado na sociedade brasileira.

Lula conhece bem o bairrismo dos mineiros. Dilma nasceu em Minas Gerais e seus conterrâneos jamais esqueceriam desse detalhe. Ainda mais para trocá-la por um paulista. Dilma integrou-se à sociedade gaúcha, lá se projetou como técnica, livrando o Rio Grande do Sul do apagão imposto ao País pelos tucanos no tempo de Fernando Henrique. Os gaúchos aprenderam a respeitá-la e admirá-la. Dilma hoje é petista, mas surgiu no Rio Grande do Sul como militante do PDT de Leonel Brizola. Tendo coordenado os ministérios no governo de Lula e com a sua capacidade pessoal, teria preparo suficiente para o debate. Sua personalidade forte e experiência pessoal completavam o figurino, características indispensáveis para o enfrentamento com um adversário que tem como traço predominante a agressividade.

Lula não escondeu o que pretendia: um plebiscito. A Nação entendeu e respondeu como tal. Em outras palavras, Lula colocou o debate ideológico no centro da disputa e o eleitor percebeu isso claramente. Não se tratava simplesmente de uma escolha entre dois políticos. O eleitor teria que escolher entre a volta ao neoliberalismo ou a continuidade do projeto petista de governo. Foi a eleição mais ideológica desde 1989. Assemelhou-se, nisso, ao segundo turno entre Lula e Alkmin, em 2006.

Ao longo da campanha eleitoral, no primeiro e, especialmente, no segundo turno, Serra passou a imagem ao País de ser, no mínimo, o mais poderoso dos mortais. Capaz de levantar ou confirmar alguma suspeita (qualquer uma) contra a sua adversária, dá-la como veraz e, a partir daí, acusá-la, julgá-la sumariamente e, por fim, condená-la. Se possível, entregá-la para a execução.

Mas a eleição acabou. Ele esperneou. Enquanto Dilma fez um discurso em que falou de paz e estendeu a mão à conciliação nacional, ele disse que a campanha serviu para abrir uma trincheira e ameaçou: “A guerra está apenas começando”.

A verdade é outra. Serra não é mais nada. Perdeu o futuro e, antes, no afã de se viabilizar na disputa, desvencilhou-se do que pode ser o maior patrimônio de qualquer homem, o passado. Já não é o que, um dia, foi. Ou finge ser o que, na verdade, não é. Ou é muito diferente do que se pensa que ele foi. Ninguém sabe ao certo. Mas não importa. Vítima de si mesmo, tende ao desaparecimento. Para o Brasil, será “aquele cara que tentou duas eleições pra presidente”. Para São Paulo, talvez fique na memória como “aquele cara que se elegeu prefeito e governador, mas nunca completou um mandato”. Talvez alguém pense que decidiu realizar seu sonho, provar que é competente administrando uma loja de 1,99.

E aí está o vértice da segunda vitória. Uma vitória que, paradoxalmente, pode ser dos vencedores e dos vencidos.

O pleito deste ano serviu para sepultar Serra no mesmo mausoléu em que descansarão Arthur Virgílio, Heráclito Fortes, Mão Santa. Tasso Jereissati, Jarbas Vasconcelos, Marcos Maciel, João Alves, Albano Franco, Aleluia, Gabeira, Orestes Quércia (este nem precisou participar do pleito para ter o mesmo destino), Efraim Morais, Antero de Barros, Rita Camata (vice de Serra em 2002), César Maia, Yeda Crusius, Joaquim Roriz e tantos outros. Lula não é dado à vingança, mas tem compromisso com o futuro. O seu plebiscito serviu para passar uma esponja no passado.

Não é o caso de Marina. Segurou-se o quanto pôde e fingiu que não participara do segundo turno sequer como eleitora, temerosa de enfrentar os eleitores. Depois, viu-se porquê. Os eleitores não eram seus. A eleição do Acre deixou isso bem claro. Foi o único Estado fora da região Sul em que Serra venceu. E, aparentemente, arrastando todos os que a haviam sufragado na primeira fase da eleição.

Mas, tenha-se claro que o PSDB-DEM não morreu. Ao contrário, deu uma demonstração de força ao eleger oito governadores tucanos e dois demistas. O herdeiro disso, porém, atende pelo nome de Aécio Neves.

Não que Aécio seja, em si, a negação de Serra. Têm o mesmo DNA, daí cacoetes semelhantes. Basta lembrar o episódio dos dossiês, que a mídia comprometida, tentando fabricar uma verdade antipetista, tentou rotular de crise da “quebra de sigilo”. Até o mais distraído concluinte de curso de jornalismo ouviu falar, nos últimos meses de 2009, que explodiria um dossiê sobre a vida privada do então governador mineiro, revelando como trataria suas namoradas, ainda que diante de estranhos, e até sugerindo que manifestasse gosto por certas substâncias capazes de alterar os níveis de consciência. Mas levou longas semanas para que algum veículo de imprensa mencionasse a relação entre a quebra de sigilo de tucanos de alta plumagem e da filha de Serra (que se tornou sócia de Verônica Dantas, tendo sido, ela própria, responsável pela quebra de sigilo de milhares de correntistas do Banco do Brasil) e, de outro lado, a produção de dossiês pela turma do então governador paulista. Mera tática de Aécio para inibir a publicação dos dossiês preparados por Serra e, assim, ganhar condições de disputar a indicação do PSDB, quem mostrou que a quebra de sigilo de tucanos teria sido apenas isso só o fez quando compelido pelo encaminhamento do inquérito da Polícia Federal.

Embora lhes corra na veia o mesmo sangue tucano, Aécio e Serra têm, porém, diferenças de estilo. E, se for mesmo verdade o que é hoje anunciado pela mídia, sua disposição para fazer uma oposição construtiva, o Brasil pode sair ganhando.

E é significativo que Lula tenha se dado ao luxo de escolher a vencedora e o líder dos derrotados.


Fernando Tolentino

domingo, 7 de novembro de 2010

O EVANGELHO E A ELEIÇÃO


Se você é cristão e, há uma semana, teve (ou ficou com) alguma dúvida sobre o acerto da sua decisão na hora da escolha entre Dilma ou Serra, veja o que disse o Evangelho um domingo depois:
"Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos sentaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.